O SEMEADOR MÁRIO ORSI

 

(Minha, e acredito que de muitos, homenagem ao piracicabano que integrou a Biblioteca Infantil Municipal no seio da criançada desta terra.)

 

Lino Vitti

 

    Não faz muito tempo, por uma caprichosa casualidade, dessas que são muito raras (raríssimas escrevem os bons literatos) na vida de qualquer um, reencontrei um inesquecível e valioso amigo, colega de serviço público, responsável sem dúvida por aquilo que sou hoje: aposentado municipal do poder legislativo.

    A grata casualidade, embora ocorrida em local não muito grato qual seja os corredores de um hospital, serviu para um rápido bate-papo e a evocação de algumas das incontáveis recordações de tempos idos, de tempos vividos lá atrás quando ainda não botávamos a atenção ao número de anos de vida, nem se era obrigado a, volta e meia, correr seguidamente para os tristonhos corredores de santas casas, hospitais, unimedes e INSSs, pavorosos para quem quer que seja.

Embora local tão impróprio para encontros saudosos, aquele momento me fez fugir do presente e da tristeza de um hospital, para voltar, num fantástico galopar do corcel da saudade para os dias da juventude, vendo o amigo sorridente e prestimoso apresentar o “desempregado” Lino Vitti ao então prefeito Jorge Pacheco Chaves para uma vaga de bibliotecário na Biblioteca Pública Municipal que seria para o futuro “príncipe dos poetas piracicabanos”, digamos assim, o pasto adequado para as suas vindouras elucubrações no mundo do jornalismo, da crônica e da poesia. Quereis melhor função para um sonhador do que tomar conta e distribuir livros nesse curral sublime de intelectualidades e estudiosos, como é uma biblioteca onde repousam milhares de outras intelectualidades do além, já passadas por este mundo onde deixaram luminosidades imorredouras e astrais?

Cidadão, ou melhor servidor público no exato sentido do termo – MÁRIO ORSI – é o nome do amigo responsável pelo encaminhamento deste “príncipe das arábias”. Como Mário Orsi sabia tratar as crianças leitoras! Em suas mãos repousava o empreendimento educacional infantil da biblioteca. Ele, diria eu, era um semeador de cultura. Distribuía as sementes valiosas e gloriosas dos livros à garotada que, em bandos álacres, como verdes tuins chilreantes que conheci nas matas da minha infância, acorria a sua seção bibliográfica.

Que beleza, Mário Orsi! Eu pensava ao ver aquela algazarra e estudantes infantis que você também virasse uma criança (e olhe lá que não estou muito errado), entrosando-se totalmente naquele papaguear e querer saber, numa demonstração divinal de que o mundo é belo, e encantado, enquanto as pessoas como você, o fizerem encantado e belo.

Ah! como seria bom, como seria importante, como seria maravilhoso, se neste mundo houvesse tantos semeadores de cultura como o Mário Orsi!

Já pensou, Mário, quantas crianças você transformou em gente, graças às sementes que você semeou no coração e na inteligência delas?

Eu acho que elas se encontram felizes hoje, como eu me encontro, e como você deve se encontrar, embora os achaques da idade, por haver sido um semeador tão bondoso, tão responsável, tão amoroso.

Há um provérbio que diz assim: quem semeia ventos, colhe tempestades. O semeador Mario Orsi, entretanto semeou brisas perfumadas, logo só poderia colher flores e tranqüilidade, colher a alegria e o amor daquelas crianças cuja brisa olorosa levou a elas o perfume das leituras, o encanto dos livros. Ele deve ser recordado por aqueles que receberam de suas mãos tantas histórias bonitas infantis como um personagem saído dessas mesmas histórias, cercado de uma auréola de luz e felicidade.

 

(Jornal de Piracicaba, 13/2/2008.)

* * *

Carta de Mário Orsi no Jornal de Piracicaba, em 20/2/2008, p. A-3:

 

“Querido amigo Lino Vitti, no auge dos meus 88 anos, tenho muito que agradecer a Deus, em especial, pelos amigos que fiz e também por me tornar um semeador tanto da cultura quanto da Palavra de Deus. Confesso que fiquei surpreso ao ler seu artigo publicado neste matutino em 13/02, uma vez que não é muito comum  a pessoa ser homenageada em vida. Como você relatou, realmente pude contribuir para que a “porta” do serviço público se abrisse ao amigo, mas com sua competência você conquistou o seu espaço e se tornou um homem respeitado e admirado por muitos, digno de ser chamado servidor público (no exato sentido do termo). Que Deus te abençoe, príncipe dos poetas piracicabanos, e espero não encontrá-lo mais nos corredores dos hospitais, mas sim num ambiente mais propício e agradável.”

 

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