SAUDOSA INFÂNCIA (XXIV)

 

 

O URUTAU

 

Lino Vitti

 

Vou ao Aurélio (dicionarista dos bons) para me certificar se o nome do estranho e pouco ouvido pássaro seria mesmo urutau, como pronunciei-o eu, ou urutago, como o pronunciam as pessoas do sítio onde nasci. O Dicionário, solucionador inconteste de dúvidas, não concordou com a pronúncia do pessoal da roça, mas eu concordo, porque urutago é muito mais tétrico e misterioso do que o simples urutau.

 Vai daí que o bicho-pássaro objeto desta crônica entrou em minha vida exatamente na infância saudosa, resultado de brincadeiras infantis, dirigidas por força do ambiente e do convívio de coisas, pessoas e fatos da vida no campo. E certa feita, noite de lua, calma, silenciosa a ponto de se ouvir vozes de aves e bichos noturnos, de mistura com o coaxar infalível da saparia dos brejos, eu, os primos, os tios ainda adolescentes (tio mais novo do que sobrinho), os filhos dos camaradas e colonos, inventávamos de brincar de passarinho. Um seria o sabiá, outro, o tico-tico; este o pintassilgo, aquele a rola, um outro o nambuzinho xintã (a dupla “Chitãozinho e Xororó” usa erradamente o nome dos nambuzinhos: o da roça é Xintã e o da capoeira é Chororó: X, no primeiro, CH, no segundo).

A brincadeira começou. Cada qual escolheu seu pássaro, cabendo ao meu tio Mário (Deus o tem certamente em sua companhia eterna) o papel do Urutau. E abrindo os braços à moda de asas, punha-se a dar voltas pelo terreiro soltando, de quando em quando, a voz numa espécie de gargalhada soturna, diria até fantasmal: ô...ô...ô, girando em círculos e afirmando “eu sou o urutago...”.

A brincadeira de infância ficou-me remoendo a cabeça a vida inteira, meio descrente da existência daquele pássaro, pois nunca conseguira escutar, nas caladas das noites campestres a gargalhada escalonada do urutau, povoando de mistério e enchendo até de medo, pois outra coisa não pode provocar uma estranha risada, grossa e compassada, nas horas mais quietas e adiantadas da noite roceira, vinda da profundeza da escuridão, sem você conseguir boler com exatidão o ponto onde estaria pousado o esquisito pássaro.

Os anos porém que vão deixando tempos para trás, embora não tenham capacidade de fazer esquecer tudo quanto para trás ficou, costumam muitas vezes usar de fatos reais de hoje para afirmar os de outrora, como os que por milagre do computador natural da memória muitas vezes reaparecem, voltam e confirmam uma realidade que parecia mentira, registram na eletrônica computadorizada que todos temos no âmago do ser, a verdade.

E aos 80 anos, o urutau (para o dicionarista), urutago (que bonito! para os meus familiares e companheiros de vida infantil) voltou a rodear os meus velhos dias de existência. A prima Guiomar, a quem visito semanalmente na sua mansão de Santana, por diversas vezes me contou ter ouvido a gargalhada fantástica do urutau, quebrando o silêncio das noites como que uma ironia a povoar os tempos e o esquecimento, como uma voz que retornava a dizer que a existência dessa estranha ave noturna, que quase ninguém prova ter visto, mas só ouvido, era real e efetiva.

De outra feita, visitando o diretor cinematográfico de Santa Olímpia, sr. Francisco Degaspari, a certa altura do bate-papo informal saiu-se com esta:

– Lino, você já viu o urutago?

Assustei com a pergunta, mas ao mesmo tempo me alegrei pois este seria o fim das dúvidas que caraminholavam pela minha cabeça desde os tempos de criança.

– É claro, Chiqueto, quero ver e ouvir esse personagem lendário e que me cutuca a fantasia desde a meninice.

    Está vendo na ponta daquela árvore seca? Repare que é a figura de um pássaro imóvel. É o urutago (urutau)...

Tremi de emoção. Lá estava o mistério que trazia na memória há tantos anos.

    À noite, continuou o amigo, de tempos em tempos, solta a sua estranha gargalhada. De dia, fica aí, na ponta do galho seco, numa imobilidade de 15, 20 e até mais dias. Depois desaparece ... mas volta. E canta na sua engraçada e inexplicável imobilidade.

Meu Deus, lá se foram 70 a 80 anos! Mas consegui ver o urutau!!!!   

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