SAUDOSA INFÂNCIA (XVIII)

 

 

O SOL

 

  Lino Vitti

 

Será que o sol de hoje, neste meu ocaso da vida, era igual ao sol da infância, quando em minha vida era manhã promissora, manhã encantada da roça, manhã descontraída e despreocupada?

Ninguém ignora o sol, ninguém, tenho certeza, deixou de espiar, por segundos que seja, e meio de esguelha para não queimar as pupilas, o astro diurno, flamejando imensidades de luz, de calor, de vida.

Será que existe alguém tão insensível, tão cego, que deixe de se embasbacar diante da figura do astro-rei, rompendo as muralhas das trevas e seguir, com todas as suas pompas de infinitas luminosidades, para despertar o mundo, as pessoas, os animais, as aves, as plantas, as lavouras, os oceanos, o universo enfim?

O clarim da luz solar toca o despertar. E tudo se apresta para a atividade que lhe compete, integrante que é da dança solene do Cosmos, parte indispensável que é desse mover-se para a vida, para a labuta, para mais um dia de amor à própria existência, para mais um momento de reflexão sobre grandeza de tudo quanto nos cerca, de tudo quanto nos alegra, de tudo quanto nos sustenta.

O acordar do dia é uma orquestra de felicidade, porque tudo tange o seu instrumento, tudo se une para essa harmonia musical sublime, pois o vir de um novo dia é um canto de aleluia a percorrer de extremo a extremo a natureza, desde o singelo acordar da roça, ao trepidante abrir d’olhos das metrópoles caóticas.

Eu vejo, agora, o meio-dia. Raios diretos do céu sobre o homem e as coisas. Sobre os telhados e a paisagem verde da campina. O calor sua em bica no rosto do manejador da enxada ou do trator; o calor provoca palavras de reclamo no homem dos escritórios, das repartições, das ruas e praças, de todos quantos mourejam debaixo do forno em que se transforma a urbe aos raios lúcidos e queimativos do sol de meio-dia.

O entardecer! O pôr-do-sol! Quantos poetas, quantos escritores, quantos oradores, quantas almas contemplativas, não se embasbacaram diante desse espetáculo de beleza e de tristeza que é despedida do sol! E por mais que os poetas, os escritores e as almas contemplativas tentem explicar a doce angústia dessa hora crepuscular, nada consegue apagar do espírito humano essa dolorosa impressão de morte que se apodera do ocaso e do mundo quando o dia diz adeus e a cosmologia milenar resolve meter em trevas o astro da luz.

Como poeta roceiro, não poderia concluir esta crônica sem mostrar ao querido leitor, o que vi, poeticamente falando, sobre esses três momentos do universo:

 

MANHÃ CAIPIRA (composição sem verbos).

 

Aleluia de sol! Manhã na roça!

Polifonia de aves matinais.

O longínquo rumor de uma carroça.

E mugidos amigos nos currais.

 

O charuto de fumo sobre a choça

em grisalhas e lentas espirais.

E uma nítida voz, suave e grossa,

perdida na extensão dos cafezais.

 

Um perfume de flor de laranjeira,

o riso vegetal da trepadeira,

cacarejos e pios no quintal.

 

Um gosto bom e forte de café;

a cabocla feliz e já de pé,

com o milho no bojo do avental.

 

 

Poetei assim o meio-dia:

 

SOL A PINO

 

Profuso o sol caustica a natureza,

e no ar treme irisada ofuscação,

qual se a paisagem se encontrasse presa

dentro de gigantesca bolha de sabão.

 

Pesadamente cai sobre a devesa

o torpor formidando da estação.

E, ao longe, a areia branca põe, acesa,

revérberos de luz pelo estradão.

 

O silêncio acolheu debaixo d’asa

as dependências todas da vivenda,

donde nenhuma fala se extravasa.

 

Verão ... Mas de repente, em algazarras

acodem os meninos à merenda,

e o pomar rompe um coro de cigarras.

 

 

A tarde também mereceu meus versos. Assim:

 

TARDE PIRACICABANA

 

Entardece. Tremeluzindo de ânsias

vai se apagando a luz nas clarabóias.

E as serras espichadas à distância

são monstras e granitícias jibóias.

 

Nuvens feitas de rútila substância,

navegando no céu são grandes bóias.

Vêm-nos, então, recordações de infância

que nossa alma guardava como jóias.

 

Refresca. Vem de longe, vagamente,

o soturno rumor do salto enorme.

A brisa, de mansinho, passa o pente

 

nos canaviais longínquos ... Uniforme

desce a sombra ... e a cidade, lentamente,

põe vigias elétricas ... e dorme.

 

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