SAUDOSA INFÂNCIA (XVI)

 

 

A POLENTA

 

Lino Vitti

 

Cada povo tem a comida que merece. Japão tem seus quitutes; Estados Unidos, seus sanduíches; Alemanha, seus crautis (ou chucrutis como denomina o Bruno Malusá); Argentina tem seu Mate; o Brasil, seu feijão com arroz; etc. etc. O Tirol tem a polenta que acompanhou os seus imigrantes por todas as partes do mundo para onde o destino os levou.

Parcela muito boa e especial desses forasteiros peregrinos acabaram por escolher u bairro rural de Piracicaba, hoje ostentando o nome bonito da avó de Cristo, Santana (no meu tempo de escola escrevia-se “Sant’ Anna”). Aí se enraizaram, aí proliferaram em tagarelismo, em trabalho, em filhos e filhas, acabando par ser um dos mais prósperos bairros de Piracicaba, dotado de todos os melhoramentos públicos, como energia elétrica, água, esgoto, iluminação pública, asfalto, modernas casas, igreja de rara arquitetura, escola de 1º e 2º graus, muitos carros particulares, tratores, pesqueiros, casas comerciais e até uma cantina, de propriedade da ex-funcionária municipal Brígida Vitti, mais conhecida pelo apelido Dim. Possui ainda um Círculo Trentino, como casa de preservação das memórias e tradições. Lá moram até pilotos de importantes empresas de aviação nacional e internacional, na família Trudi-Ignês. Há um bispo – Dom Moacyr –, um padre – Arthur –, algumas freiras e é sobre tudo a minha terra natal, onde nasci, estudei, lí de ponta a ponta o livro da natureza, da gente e das coisas, que me deram material suficiente para meus poemas, minhas crônicas, meus trabalhos jornalísticos. É de Santana o primeiro Diretor do Poder Legislativo, aposentado através de todos os tempos. No bairro trentino-tirolês mora o maior tocador de sax – Jair Vitti – metido também a escrever crônicas neste jornal.

E tudo o que ficou dito aí por cima adora a polenta, alimento fácil de fazer, - água com fubá e sal -, bem cozido e bem mexido com a estrumela própria, imitando uma colher bem grande de madeira. Dá um pouco de trabalho para atingir o ponto ideal, sem o que fica uma droga. Minha mãe e minha mana Vige, eram especialistas, sorte minha e dos manos e manas porque degustávamos com fervor a deliciosa polenta por elas arquitetadas. Fria, quente feita na hora, tostada (brustolada, em dialeto), com frango e molho profuso, com carne de panela, com leite e café, sem nada (biota, dizíamos na língua de então) em forma de cucanha, a polenta mereceria não apenas uma, mas um poema épico, à moda dos “Lusíadas”, do poeta caolho Camões.

Dias atrás, gente de Santa Olímpia, de semelhanças lingüísticas e origens idênticas ao povo de Santana, celebrou, com pompa especial e incomensurável alegria, com a presença de milhares de pessoas, a Festa da Polenta. Significativa prova de que o alimento que vem do milho, não só é indispensável à saúde, mas que também é algo muito amado daqueles bairros tiroleses-trentinos, engajado entre os melhores produtos alimentícios, digno0 de figurar como prato de qualidade numa festa em sua homenagem.

Minha infância conviveu feliz com a polenta. Era, torrada e misturada em pedacinhos ao leite com café, a primeira refeição matinal da família, responsável quiçá pelo fato de a meninada tirolesa apresentar-se sempre de faces bem coradas e rechonchudas e ter uma disposição incrível para as brincadeiras, peripécias e correrias pelo sítio, atrás de inocentes passarinhos, coloridas borboletas, esfuziantes cigarras, ou quem sabe até pela estatura atlética de muitos adultos e jovens de agora que chegam a assustar os “baixinhos” de tempos idos.

Não tenho, para terminar esta crônica, como costumo fazê-lo nas anteriores, um soneto sobre a querida polenta. Quem sabe até um dia não falte a abençoada inspiração para compor uns versos de gratidão para essa que pode ser causa de ainda eu ter forças para redigir estas crônicas.

         

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