SAUDOSA INFÂNCIA (XXVII)
PERSEGUIÇÃO GALINÁCEA
Lino Vitti
Não se trata certamente do tipo da perseguição do governo em cima dos desistimulados e desrespeitados funcionários públicos; não se trata de perseguição policial à caça de bandidos e narcotraficantes; não se trata nem de perseguição amorosa, esse tipo de conquista que muitos encetam, avivam como fogueira e a toda força e por qualquer maneira querem chegar a um resultado feliz; nem se trata de perseguição de juiz de futebol que muitos craques supõem existir; nem mesmo da perseguição de um belo ideal ou vocação para vir a ser alguém na vida; não é nada de perseguição científica para descoberta de curas milagrosas contra esse exército de males que desancam a vida humana.
Diria que é uma perseguição
tipo detetive, amiúde levada a efeito por mim e pelos irmãos a mando da senhora
mãe, tendo como objetivo do olho perseguidor dos moleques nada mais, nada menos
do que uma inocente, mas esperta galinha cacarejante.
Gente da cidade, tenho
certeza, desconhece esse tipo de policiamento arregimentado para fiscalizar as
escapadas misteriosas de algumas penosas para longe do quintal ou do
galinheiro, onde se haviam instalado jacás, caixotes, capim seco, locais
escondidinhos, em que as aves pudessem deitar seus ovos. Era só elas quererem.
Mas não, havia algumas, quiçá mais civilizadas, que não atendiam ao trabalho da
respectiva patroa em preparar-lhes os ninhos poedeiros. As belezinhas,
principalmente frangotas de primeira produção, entendiam de procurar lugares
distantes, entre capinzais, plantações, pés-de-café frondosos, e aí, às
escondidas do olhar da sua dona, construir a “casa” para a futura ninhada,
desconhecendo certamente o perigo dos depredadores silvestres que volta-e-meia
rondavam os galinheiros e os quintais da roça.
As aladas espertalhonas, instruídas
pelo seu instinto de galinha, ao botar, não cacarejavam, como de praxe, nas
instalações do ninho desconhecido, para não despertar suspeitas. Elas se
distanciavam 200 ou mais metros do esconderijo e só então esguelavam o cacarejo
denunciador.
Para descobrir a ninhada era
preciso mesmo instituir um serviço de detetive. Eu, Valter, o hoje Pe. Arthur,
(em vias de completar 50 anos de sacerdócio em dezembro próximo) éramos
nomeados os detetives perseguidores das endiabradas galinhas misteriosas que se
julgavam no direito de botar sua oval produção longe da fiscalização materna. Não
era fácil o serviço. As aves nos driblavam, como se soubessem que as estávamos
perseguindo. Dobravam à direita, à esquerda, iam e voltavam, inventavam
ceminhos outros que no o verdadeiro, ciosas decerto de guardar o segredo de sua
ninhada, em geral de 13 a 15 ovos. Era de ver os espiões, firmes no mister,
perseguindo cuidadosamente as penosas, perder-lhes um movimento sequer, ora passos
bem lentos e sem ruídos, ora em marche-marche acelerado para conseguir alcançar
a perseguida. A descoberta em uma façanha e valia um ovo cozido ou uma
gemadinha como prêmio ao excelente trabalho.
Muitas vezes, porém, as
batidas persecutórias não resultavam em nada, mas em compensação um belo dia o
quintal ou o galinheiro eram premiados como uma linda chocada de 13 ou mais
pintainhos amarelos e pipilantes, trazidos ao lar pelo orgulhosa choca, que se
arrepiava toda, num zelo de mãe valente, para proteger os pompons que
conseguira gerar longe dos olhares da gente, o que afinal de contas não fora tão
ruim, nem condenável.
A infância passou. Todos esses
maravilhosos fatos foram se afastando da vida, não porém desaparecendo da memória.
E como os idosos, como este escrivinhador, vivem mais da memória, nada impede
que botem em letras algumas coisas preciosas guardadas nesse baú da memória,
para alegria própria e quiçá para alegria de quem se dispuser e colocar olhos e
leitura sobre essas desconexas mas verdadeiras linhas escritas.