SAUDOSA INFÂCIA (XXX)
O QUE VAI, O QUE FICA
Lino Vitti
Pelos algarismos romanos aí prá cima indicados,
escalo a trigésima crônica, escarafunchando tempos idos, tempos engolidos pelo
próprio tempo, tempos gravados no imo da personalidade da gente, que nada mais
valerão para a vida prática, para a vida materializada, para a vida da terra, e
provavelmente, nem para a vida do além. Quando muito servirão de viagens
recordatórias a um tempo de felicidade fugidia que não mais retorna, senão que
em forma de saudade, essa coisa indecifrável a que o poeta definiu como “delicioso
pungir de acerbo espinho”. Ah! esses poetas! Só na cabeça deles pode ser
deliciosa uma ferrada de espinho, desses que eu bem sei o que são, pois em
minhas saudosas andanças pelos matos nativos, quer como menino, quer como
jovem, quer como adulto, quer como idoso que hoje sou, eu sei bem, repito, quão
dolorida é a agulhada de tais injeções que a floresta guarda em seu âmago, não
sei se para se defender, não sei se para se embelezar terrivelmente, à espera
do tolo humano que lhe queira penetrar os mistérios, a solidão, a
impenetrabilidade flórea e foliácea.
O poeta, que talvez nunca se tenha dado ao trabalho
ou à aventura de penetrar a mata onde moram espinharais e árvores de troncos vestidos de alto a baixo por longos
e penetrantes acúleos, o poeta, repito, aquele mesmo que acha “delicioso” o
cotucar de aguçado espinho, mudaria de idéia se alguma vez me tivesse acompanhado
pelas matarias da infância por qualquer motivo dos muitos que meninos da roça
amealham para seu lazer, desfastio, aventuras silvestres.
Mas, me pergunta você, por que o “Que vai e o que
fica” do título?
É verdade. Divaguei, perdi-me em outro assunto que,
em último caso, é um daqueles que ficam perdidos nesse tempo dito infância.
Tudo o que escrevi nessas trinta crônicas sobre saudade de infância, fazem
decerto parte do “o que vai”, ou melhor “o que foi”. Não sei onde essas coisas
ficam! Se na memória, se num andar invisível do mundo para isso reservado, se
num recanto talvez feliz do outrora, cuja porta é guardada por guardas
insensíveis, frios e calculistas, se num céu diverso do que pregamos e
recomendamos conquistar para a eterna felicidade!
Tudo quanto os anos nos ofereceram naquela
inesquecível quadra da existência – pessoas, fatos, locais, natureza, serviços,
coisas, etc – é o que vai. Caminha com pés de corrupira, ou seja, voltados para
trás, porque é assim que faz o passado, se distanciando cada vez mais de nós,
se diluindo tristemente no esquecimento, perdendo-se na cerração compacta do
nunca mais! É o que vai, o que dolorosamente vai! Um adeus sem fé, nem
esperanças!
E o que fica? Fica o “delicioso pungir de acerbo
espinho”, muito bem bolado pelo poeta amigo, cujo nome este príncipe vagabundo
da poesia piracicabana, não sabe vos dizer. Quem sabe seja um bem, porque assim
deixará de levar algum desaforo de gente que não gosta de poetas que fabricam
versos misteriosos como esse que aí fica como parte componente desta crônica,
para fazer jus ao título dela de como algo que fica. Fica a saudade! Pode ficar
também o consolo de haver aproveitado com todas as energias vitais da alma e do
corpo aqueles dias que não são bem “acerbos espinhos”, mas verdadeiras flores
perfumadas,como as tantas que moram, vivem e morrem no seio da floresta, das
plantações, dos campos, das margens dos córregos e lagos por onde andaram os pés
descalços da infância saudosa de muitos.
Ficam as recordações das coisas, fatos e pessoas, alegres
ou tristes, atraentes ou repulsivas, queridas ou odiadas. E ficam cada qual com
seus efeitos bons ou desagradáveis, aos quais não se pode acrescentar ou tirar
qualquer pedaço. E isto fica, acompanhando o que vem depois da infância sem
possibilidades de se lhes aumentar ou reduzir um átimo.
Fica, sobretudo, essa mania de escritores, poetas,
cronistas, discursadores, trazer sempre às suas linhas de prosa, aos seus
versos, pouco compreendidos, às suas crônicas fantasiosas, alguma coisa para
mexer com saudades, com passado, com perdidas horas de felicidade, com
tristonhos momentos de viver, como acho ter eu feito ao longo destas, quiçá,
cansativas, trinta crônicas, eivadas ainda, prá mal dos pecados, de poesia.