SAUDOSA INFÂNCIA (XXVIII)

 

 

MEU NINHO NATAL

 

Lino Vitti

 

Costuma-se chamar o local de nascimento de berço natal, o que é justo e cabível. É um berço em grandes proporções, pois não implica apenas naquele movelzinho balouçante ao lado da cama materna, ampla e generosamente talhada para o amor a dois adultos. A vida, gerada na grandeza de um leito, é recebida pelo pequenino espaço de um berço, onde mal cabe um serzinho rosado e chorão. Depois, porém, quando esse fiapo de vida se transformar em adulto, e criar um pouco de fama como homem público, poeta, escritor, jornalista, político, etc., o epíteto de berço passará a abranger não só o quarto, a casa, onde veio ao mundo, mas o bairro, o município, o estado, o país. Aí se diz então que o berço natal de Lino Vitti, por exemplo, não é apenas aquela casinha humilde (mostrada há dias atrás em foto nesta coluna), mas os bairros Santana e Santa Olímpia, o Município de Piracicaba, o Estado de São Paulo, o Brasil, segundo a referência abranja uma dessas localidades dentro das quais, num bercinho de colchão de palha, eu vim ao mundo, em 16 de janeiro de 1920, segundo calendário materno, e em 8 de fevereiro do mesmo ano, segundo o cartório de registro de Vila Rezende daquele longínquo ano.

Na roça, outrora os partos eram todos naturais e nem sequer deveria existir ainda a operação cesárea, de tão amplo uso em nossos tempos modernos. Daí os nascimentos aconteceram todos em casa, no mesmo quarto do casal, assistidos e completados pela habilidade de alguma senhora idosa, em geral realizados com todo êxito e se por acaso, houvesse enguiço, estavam aí o dr. Garboggini e o dr. Cera (ainda vivo) que atendiam com tanta dignidade médica a gente da roça na própria moradia da parturiente. Logicamente, a criança vinha ao mundo no largo leito dos pais, passando imediatamente ao berço, a esse berço que lhe serviria toda a vida de referência, caso viesse a se projetar em algo na vida, mesmo como teimoso poeta que sou eu, orgulhoso porém de ter tido como berço a roça, nesse mesmo oupado por nada menos que 12 futuras personalidades da família José e Angelina Vitti, personalidades que vão desde donas de casa, mestras, diretor, historiador, poeta, aliás, agraciado com o gostoso título de príncipe dos poetas, e assim também funcionários públicos.

E um dia, quiçá saudoso da infância e daquela terra que é meu berço, tive a ousadia de homenageá-lo como minha natal com o soneto seguinte, sob esse título mais poético. Assim:

 

MEU NINHO NATAL

 

Minha terra natal, minha doce Santana,

onde os sonhos plantei, com amor nobre e terno.

Onde a vida floriu, gostosamente humana,

da qual, ainda agora, aspiro o amor materno.

 

Santana dos avós – escola soberana –

de onde bebi o saber de muito amor fraterno.

Ninho de crença e fé, marco do qual emana

uma história infantil de sabor santo e eterno.

 

Dedico-lhe, Santana, este pobre soneto

feito mais de tristeza e muito desencanto,

composto de um passado extinto e obsoleto.

 

Banham-me o rosto as lágrimas de espanto...

É da saudade o longo e agudo espeto

brincando de ferir-me o coração de pranto!

 

Dias atrás alguém me arruma um presente: uma foto da casa onde nasci. O tempo que ignora haver sido aquela tapera (como alguém a chamava ao ver-lhe o retrato), o ninho de um poeta, o lar de um “príncipe da poesia”, o tempo, repito, nada respeitou. E aquele que deveria ser um monumento, tombado até pelo município como tal, virou consultório médico, posto de saúde. Excelentes finalidades sem dúvidas que superam a cultura e a poesia, atropeladas hoje em dia pela evolução das coisas e dos homens.

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