SAUDOSA INFÂNCIA (XXVI)

 

 

OS IRRACIONAIS

 

Lino Vitti

 

Costumam chamar de irracionais, isto é, sem inteligência ou entendimento os animais, com especial deferência aqueles que servem ao homem, nos trabalhos do dia-a-dia, como cavalgadura, ou produtores de alimento (leite). Assim, irracionais seriam os burros, os cavalos, as vacas, as cabras e aqueles outros que convivem com a pessoa humana. Interessante observar que não se aplica, ou pouco se aplica, o epíteto aos animais silvestres, feras, tatus, cachorros-do-mato, lebres, pacas, etc.

O desagradável adjetivo de irracional pespegam-no de modo particular ao burro, pois é de “burro” que costumam xingar-se uns aos outros os próprios racionais, querendo com isso confirmar quanto desabonador é o qualificativo gramatical para as pessoas humanas.

Minha capacidade intelectiva de poeta não aprecia, entretanto, lançar sobre os irmãos burros esse desgastante apelido, pois são criaturas tão serviçais, tão apegadas aos seres inteligentes, caracterizados mormente no homem, que não merecem servir de termo de comparação com a espécie inteligente.

Os burros – irracionais, é bom que se destaque – fizeram parte de minha saudosa infância, em grande número aliás, porque à época todos os serviços da roça, rijos e alongados pelo dia afora, eram executados pelos animais chamados de burros. Puxando o arado, a grade, o plainé, as carretas.

 

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