SAUDOSA INFÂNCIA (XXIX)

 

 

INFÂNCIA ACABA?

 

Lino Vitti

 

Em princípio e por minha própria experiência de cultor das letras e artes, a infância não acaba. Morre-se idoso, alquebrado, um bagaço no corpo, mas o espírito – essa coisa invisível mas de efeitos concretos – prossegue infantil pela vida afora e provavelmente assim vá também para o Além, celestial ou infernal, segundo os ensinamentos da teologia da Igreja ou não, segundo outros ensinamentos religiosos divergentes daquela.

Assim é, talvez, por causa desses argumentos, bem ainda por perceber em mim mesmo que ainda vivo na infância. Basta ver que já estou me lambusando nela através de quase trinta crônicas escritas que dariam para compor um tratado sobre o assunto. E como podem perceber os leitores, pacientes e amigos, como que vivo ainda naquela quadra de felicidade apesar da amargura inarredável dos 80 inaceitáveis anos, uma longa estrada caminhada passo a passo, ora por trechos asfaltados e alegres, ora (em bem menores proporções) por pedaços ruins de pedrouços e desníveis, essa coisa que arrebenta carros e às vezes arrebenta vidas humanas, mormente quando surgem de improviso e nos apanham de surpresa.

Que ando pois eu a fazer, mergulhado nessa distante paisagem bonita e gostosa da vida, senão viver, ou melhor reviver a vida que foi infância, uma fita cinematográfica que se afasta quanto mais os anos somam tempo, agruras, felicidade, decepções, sofrimentos e alegrias. É um caminhar para trás até onde pode chegar a memória já calejada, mas teimosa em manter vivos anos tão belos, quadros tão sublimes, diversos acontecimentos tão diversos dos de hoje oferecidos, revendo, como se fosse realidade rostos de pessoas amadas inesquecíveis, trazidas por não sei que força profunda dos arquivos da memória, para novos e quiçá últimos momentos de vivência, nesse encantado jardim das recordações.

A infância, a saudosa infância que exponho nestas linhas escritas com a pena das reminiscências, para mim não acabou e tenho a convicção pessoal de que morrerá apenas quando estes olhos forem obrigados pela imposição terrível dessa força que ninguém explicou jamais, a cerrarem-se, a tombarem na eterna treva, onde não há auroras, sóis a pino, tardes maravilhosas, noites soberbas de estrelas e luas-cheias. Estes olhos que viram tantas coisas lindas, que se extasiaram diante de tantos olhos amigos, que amaram esposa, filhos, netos, parentes, amigos e fortuitos seres humanos encontrados ao longo do tempo. Estes olhos que se extasiaram diante dos milagres da natureza, das árvores, das flores, dos pássaros, do oceano, das cordilheiras, das frutas, das searas, dos rios e riachos! Estes olhos que viram muitos rostos sorrir, muitas faces       chorar, muitos amigos e parentes e personagens ilustres desaparecerem para sempre! Estes olhos que beberam sofregamente tantas páginas de jornais, de revistas, de livros, de versos, de poemas, de contos, de romances, tantas horas de futebol ao vivo e a posteriori, tantos filmes chocantes, ou ternos, ou. líricos, ou apavorantes!

Estes olhos que graças ao Senhor, chegaram intactos até o pico da montanha da vida e ainda continuam a sondar as faldas da montanha e descerem para o vale do desconhecido futuro.

Se eu tivesse a capacidade da imagem literária de Victor Hugo eu diria que os olhos são a vida! Que os olhos são o mundo! Que os olhos são o amor! Que os olhos são a felicidade! Que os olhos são a imortalidade.

E tudo isso se fechará quando os olhos se fecharem para o nunca mais. E deverá ser então nesse momento de treva absoluta que também a Saudosa Infância destas crônicas memoriais deverá acabar, deverá sepultar-se reino doloroso e tétrico que se chama esquecimento.

Perdoe-me, caro leitor, se esta crônica não saiu a seu gosto. Seja talvez porque esta é uma crônica de abomináveis realidades!

 

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