SAUDOSA INFÂNCIA (XV)
AS FESTAS
Lino Vitti
Recordação importante e muito incrustada no limbo da saudade, são as festividades que meus bairros de infância promoveram e ainda promovem (um pouco diferente é verdade), em homenagem, dizia-se, aos padroeiros das igrejas locais Santa Ana, no bairro dos Vittis, e Imaculada Conceição, no bairro dos Stênicos, Corrers e Cristofolettis.
Lembro-me dos preparativos
com que eu, irmão e irmãs, nos aprestávamos para o evento, alguns deles
podem-se dizer principais, como as roupas de festa, a indefectível confissão no
sábado, sempre véspera da festividade, e a consecução de moedas paternas para a
aquisição dos doces favoritos. As mães, esmeravam-se em deixar as roupas
engalanadas, bem limpas e bem passadas, pois a assistência obrigatória à Santa
Missa dominical devia ser solene, festivamente preparada em corpo e espírito.
Os pais, quando mão-aberta, alongavam tostões, quinhentos ou um mil reis, em
casos extras, dois mil reis, o que era para nós muito dinheiro para gastar em
doces e sorvetes, depois de haver deixado um miserável níquel no “coador” do
seu Clemente que era quem recolhia o dízimo durante o ato religioso. Era de ver
o homem, vastos bigodes de assustar crianças e voz de baixo profundo, correr a
nave da igreja, canto por canto, sacudindo o instrumento coletor, com certa
imponência, razão porque as moedas tilintavam surdamente, como um aviso
antecipado de que todos deveriam contribuir para pagar as despesas da festa.
O pátio da igreja regurgitava
de moradores dos bairros Santana e Santa Olímpia, ao lado de moradores de sítios
e fazendas vizinhos, todos participando com alegria, há muito sopesada pela expectativa
da comemoração religiosa.
E havia banda de música, com
um longo e bonito repertório, sob a batuta de um maestro (lembro-me do Genário
Donadio, um italiano de alta estirpe musical), executando marchas, dobrados, valsas,
a bem dizer o dia todo. Como aquilo soava bem, como ecoava pelas colinas e
barrocas, até bem longe, o musical das festas da roça! Especialmente a “voz” do
baixo, tocado pelo tio Jaco, pai do Jair das crônicas aqui do lado.
Outro ponto importante,
principalmente para a criançada, eram os “banquetti”, nome dado às barraquinhas
de ambulantes vindos da cidade, para deliciar a festa com seus doces de batata,
cocadas brancas e pretas, torrones, paçoquinhas, pudins, algodão doce,
sorvetes, pés-de-moleque, uma infinidade de quitutes que atraíam indubitavelmente
as moedas que avaramente havíamos conquistado dos bolsos paternos.
Havia o leilão e as
quermesses para gente grande. Que animação! Que barulheira danada de vozes, oferecendo
lances para arrematar prendas, frangos e cabritos ou leitoas, assados! O leiloeiro
(lembro-me saudosamente do David Zontelli) esgüelava a mais não poder, berrando
o valor das ofertas, e convidando alguém a oferecer mais e mais, numa
verdadeira pechincha entre os ofertantes de preço.
As quermesses das quais participávamos
eu e irmãos, uma espécie de rifa cujo ganhador resultava da rodada de um estranho
aparelho ( para nós sem dúvida!) em forma de disco, cheio de casas, a que
correspondia um número, apontado por uma eslática tirinha de osso, e que
deveria corresponder ao que tivéssemos adquirido previamente pelos chorados
tostões, para ganhar a valiosa prenda. Acontecia, porém, existirem pessoas que
tinham uma sorte danada e sempre abiscoitavam a prenda da rodada. O que
aborrecia os costumazes perdedores.
Ponto alto da festa, eram as
procissões, com a benção final do Santíssimo Sacramento. Como eram bem
organizadas! Em duas filas indianas, as crianças na frente, seguindo-se as congregações
de moços e moças, em seguida as associações de mais idosos, entremeados de andores,
destacando-se no final a imagem do padroeiro ou padroeira da festa, tudo
seguido pela banda musical que encerrava o cortejo. Cantava-se, rezava-se,
tocavam-se hinos religiosos, sob as bênçãos de um sol morrente camarada, e
almas e corações estourando de fé e ideais religiosos.
De quando em quando subia ao
céu, pipocando na altura, um rojão que as crianças temiam, tapando o ouvido com
o dedo indicador, e fazendo latir pelo bairro afora, muitos cães assustados.