SAUDOSA INFÂNCIA (XVII)

 

 

A FAZENDA DE PORTEIRA

 

LinoVitti

 

Chamava-se, naqueles idos de infância, de Fazenda ao aglomerado de casas que formavam a moradia do mais velho dos irmãos Vitti, por sinal uma residência aos moldes dos fazendeiros do tempo da escravatura, com dois pavimentos : o superior, alcançado por uma longa escada de madeira (que eu temia subir porque chiava assustadoramente); o inferior, constituído por amplo porão, onde, se dizia , à noite, podia-se ainda ouvir profundos gemidos de infelizes negros aprisionados ou de castigo, presos a argolões e correntes martirizantes e tão sólidos como aquelas pedras rochosas de que era feito o próprio alicerce do casarão senhorial.

Era imponente a moradia dos donos. Ao estilo das que ainda se podem ver pelo Brasil afora, demostrava bem a riqueza que por ela se passava, fruto da era gloriosa dos cafezais imensos, onde mourejavam os escravos. Cheguei a conhecer muito bem a Casa Grande da Fazenda, hoje Santana, todavia, ou por desconhecimento do valor histórico dessas vivendas, ou por entenderem mais adequado uma residência simples, térrea e modernizada, o casarão senhorial teve destino inglório: foi posto abaixo, reduzido a escombros, apagado da memória dos tempos e da história da localidade. Que pena!

Restou aos pósteros, entre os quais me considero, recordar o que viram. E como estou a falar, já por quase vinte crônicas, sobre um passado infantil saudoso, meu estro poético não poderia deixar de dedicar dois versos, ou melhor, um soneto, à velha Fazenda. É assim:

 

FAZENDA

 

A casa grande. O cafezal sorrindo

engrinaldo de florzinhas brancas.

E as trepadeiras de São João florindo

pelas cercas, ao longo das barrancas.

 

Do pomar, sob os pés de tamarindo,

se erguem risadas infantis e francas.

E pelo pasto os alazões fugindo

tremem ao sol as luzidas ancas.

 

É meio-dia. À porta da senzala

o negro velho uma canção murmura

que, triste e doce, ao coração nos fala.

 

Baforando fumaça para a altura

o engenho, todo afã, suando exala

um gosto de garapa e rapadura.

 

Outro monumento histórico que desapareceu sob a ação dos tempos e o parco entendimento do homem foi a porteira, larga, ringidora, estruturada de tábuas de madeira de lei, que dava acesso à casa senhorial e residências adjacentes, formando coroa ao redor dela, onde moravam escravos, colonos e famílias agregadas.

Aos meus olhos infantis, curiosos de poesia, a enferrujada porteira (enferrujada pelas ação das chuvas que durante dezenas, quiçá centenas de anos, a chicotearam dia e noite), aparecia-me como uma sentinela a guardar o acesso de estranhos ou inimigos ao reduto do fazendeiro, seus familiares, à propriedade enfim. Não é de estranhar o trabalho e a voz de uma porteira, guardando os velhos solares de antanho. Ainda hoje (coisa que já tem acontecido comigo) há propriedades agrícolas que conservam o antigo costume de manter à distância respeitável, os visitantes ou quem procura os patrões, com a agravante, nos tempos atuais, de se meterem de guarda terríveis mastins, de cara ameaçadora e dentes afiados à mostra aos primeiros rosnados do guarda animal.

Da saudosa porteira da infância, botei também um soneto, assim:

 

 

PORTEIRA ANTIGA

 

Era ali, na saída do terreiro,

ignoto Prometeu preso aos mourões,

que a porteira, abre e fecha, o dia inteiro,

jeremiava cruéis lamentações.

 

Uma tropa, um estranho caminheiro,

o coche – o altivo coche dos patrões –,

um carro gemebundo, um cavaleiro,

escravos e do vento safanões.

 

Ao “nhééé’ chorado respondia um “báá”

num baque dolorido de canseira,

no mourão grosso de jequitibá.

 

Porém, jamais como ela houve porteira

e igual a ela jamais outra haverá,

assim bondosa e franca e hospitaleira.

 

O descobridor de flechas, machados, e outros instrumentos indígenas coletados pelo meu companheiro de crônicas cá ao lado, arqueólogo Jair Vitti, se não me engana a memória, deve conservar a pedra enorme e trabalhadora sobre a qual a porteira da Fazenda da minha saudosa infância, assentava o eixo do seu tronco giratório, cujo atrito arrancava aqueles gemidos amedrontadores para um moleque de 6 a 8 anos.  

  

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