ECOLOGISMO
Lino Vitti
Acaba de ser editada lei
federal estabelecendo multas e castigos para os depredadores ecológicos, quer
no campo, quer na cidade, quer individual, quer coletivamente, como que
coroando a longa luta em que se envolve a nação para acabar com essa
perversidade humana de matar a natureza.
“Matar a natureza” é a
expressão certa para esses gestos e atos sócio-destrutivos da terra e de tudo
quanto nela vive, sejam árvores, bichos, moradores de águas, pássaros, plantações
e a própria espécie humana, esta envenenada pelo mesmo mortal inteligente
chamado, ironicamente, “Homo Sapiens”.
Quando infante, em meio
aqueles festivais da natureza, mal ou nada compreendendo da ciência ecológica,
não fui muito respeitador do mundo alado, pecando, inocentemente é verdade,
contra os mandamentos ecológicos. Hoje, porém, quando muitos anos dão pancadas
sobre essa coisa profunda e íntima do homem que é a vontade, despertando nela a
gravidade da prática contra essa imensa dádiva de Deus que é o mundo, e tudo
quanto nele viceja, e se move, e cresce, e canta, e ruge, e pipila, e floresce,
e frutifica, o antigo menino transformou-se num Dimas, invertendo totalmente os
papéis. Assim é que os derradeiros remanescentes ecológicos dos bairros da
infância longínqua, recebem, como penitência confessional daqueles
inconscientes desvarios, repastos volumosos de alimentos, duas ou três vezes
por semana, deixados em clareiras adrede preparadas nos resquícios florestais
que ainda, por uma casualidade talvez teratológica, sobrevivem à destruição
arrasadora dos machados e moto-serras que andou pelos meus pagos natais.
Primos e amigos testemunham
comigo esse ato de salvação, acompanhando-me até os locais silvestres onde
deposito, como se fosse uma gesto de amor e de fé, litros imensos de milho,
quirera, painço, etc. para sustento de juritis, nambus, rolas, trinca-ferros,
saracuras, coatis, caxinguelês, grundis, e, raríssimas vezes, chororós
remanescentes. Tigüeras e sementeiras, árvores frutíferas do mato desapareceram
com a avanço dos canaviais, que recebem por cima ainda a ação venenosa dos
agrotóxicos que substituem as velhas enxadas, as desaparecidas foices, a ação
incinerante do fogo. E é de ver como as sobreviventes de uma era de vacas
gordas papam o alimento semanal, esfomeadas que estão pela ação do progresso e
da capacidade invectiva do homem.
E para encerrar este perlenga
sobre os dias idos de antanho, transcrevo dois sonetos compostos em homenagem
às campanhas pró natureza que andaram por aí e à lei editada pelo governo, na
expectativa de que de fato sejam seus artigos conhecidos por todos, obedecidos,
e, em caso de abuso, aplicados na devida proporção e rapidez com as multas e
castigos previstos, inclusive quanto às depredações ecológicas feitas em nome
do progresso e da riqueza.
São assim, os referidos
sonetos:
ECOLOGISMO (I)
Outrora a natureza, ao
palpitar do dia
vibrava toda inteira aos
cânticos alados.
Havia em cada fronde a
perene alegria,
cada flor parecia envolvida
em trinados.
O sol cumprimentava a
natureza. Havia
um oceano de luz com seus
raios dourados
a tingir vivamente, em
rúbida porfia,
a paisagem feliz, vales e
descampados.
A floresta vivia ao lado da
fazenda,
os ninhos, num clamor de
bicos em contenda,
piavam no verdor das frondes
do quintal.
E vinham a brincar as frágeis
borboletas
bebericando mel nas flóreas
caçoletas
das flores do jardim, transfeito
em festival.
O segundo soneto, em continuação ao que aí fica, diz:
ECOLOGISMO (II)
Hoje a vida no campo é
horrível abantesma,
tudo morto e deserto, é a
vida que se esvai
num medonho suicídio atroz
sobre si mesma,
a golpes de destruição a
natureza cai.
Desde árvore gigante à
inominada lesma
se ouve um tétrico adeus, se
ouve um longo báibái.
Para um verso compor-lhe eu
gasto muita resma,
e faço muita prece ao Eterno
Deus Pai.
A morte, atra e feroz,
domina e soberana,
poluído anda o mundo em
triste e desumana
batalha de destruição
estúpida, infernal.
Por isso é que não ouço os
pássaros cantando,
por isso é que não há mais
flores perfumando,
é o mundo destruído em podre
bacanal.