SAUDOSA INFÂNCIA XXIII

 

 

ECOLOGISMO

 

Lino Vitti

 

    Acaba de ser editada lei federal estabelecendo multas e castigos para os depredadores ecológicos, quer no campo, quer na cidade, quer individual, quer coletivamente, como que coroando a longa luta em que se envolve a nação para acabar com essa perversidade humana de matar a natureza.

    “Matar a natureza” é a expressão certa para esses gestos e atos sócio-destrutivos da terra e de tudo quanto nela vive, sejam árvores, bichos, moradores de águas, pássaros, plantações e a própria espécie humana, esta envenenada pelo mesmo mortal inteligente chamado, ironicamente, “Homo Sapiens”.

    Quando infante, em meio aqueles festivais da natureza, mal ou nada compreendendo da ciência ecológica, não fui muito respeitador do mundo alado, pecando, inocentemente é verdade, contra os mandamentos ecológicos. Hoje, porém, quando muitos anos dão pancadas sobre essa coisa profunda e íntima do homem que é a vontade, despertando nela a gravidade da prática contra essa imensa dádiva de Deus que é o mundo, e tudo quanto nele viceja, e se move, e cresce, e canta, e ruge, e pipila, e floresce, e frutifica, o antigo menino transformou-se num Dimas, invertendo totalmente os papéis. Assim é que os derradeiros remanescentes ecológicos dos bairros da infância longínqua, recebem, como penitência confessional daqueles inconscientes desvarios, repastos volumosos de alimentos, duas ou três vezes por semana, deixados em clareiras adrede preparadas nos resquícios florestais que ainda, por uma casualidade talvez teratológica, sobrevivem à destruição arrasadora dos machados e moto-serras que andou pelos meus pagos natais.

    Primos e amigos testemunham comigo esse ato de salvação, acompanhando-me até os locais silvestres onde deposito, como se fosse uma gesto de amor e de fé, litros imensos de milho, quirera, painço, etc. para sustento de juritis, nambus, rolas, trinca-ferros, saracuras, coatis, caxinguelês, grundis, e, raríssimas vezes, chororós remanescentes. Tigüeras e sementeiras, árvores frutíferas do mato desapareceram com a avanço dos canaviais, que recebem por cima ainda a ação venenosa dos agrotóxicos que substituem as velhas enxadas, as desaparecidas foices, a ação incinerante do fogo. E é de ver como as sobreviventes de uma era de vacas gordas papam o alimento semanal, esfomeadas que estão pela ação do progresso e da capacidade invectiva do homem.

    E para encerrar este perlenga sobre os dias idos de antanho, transcrevo dois sonetos compostos em homenagem às campanhas pró natureza que andaram por aí e à lei editada pelo governo, na expectativa de que de fato sejam seus artigos conhecidos por todos, obedecidos, e, em caso de abuso, aplicados na devida proporção e rapidez com as multas e castigos previstos, inclusive quanto às depredações ecológicas feitas em nome do progresso e da riqueza.

    São assim, os referidos sonetos:

 

ECOLOGISMO (I)

 

Outrora a natureza, ao palpitar do dia

vibrava toda inteira aos cânticos alados.

Havia em cada fronde a perene alegria,

cada flor parecia envolvida em trinados.

 

O sol cumprimentava a natureza. Havia

um oceano de luz com seus raios dourados

a tingir vivamente, em rúbida porfia,

a paisagem feliz, vales e descampados.

 

A floresta vivia ao lado da fazenda,

os ninhos, num clamor de bicos em contenda,

piavam no verdor das frondes do quintal.

 

E vinham a brincar as frágeis borboletas

bebericando mel nas flóreas caçoletas

das flores do jardim, transfeito em festival.

 

 

    O segundo soneto, em continuação ao que aí fica, diz:

 

ECOLOGISMO (II)

 

Hoje a vida no campo é horrível abantesma,

tudo morto e deserto, é a vida que se esvai

num medonho suicídio atroz sobre si mesma,

a golpes de destruição a natureza cai.

 

Desde árvore gigante à inominada lesma

se ouve um tétrico adeus, se ouve um longo báibái.

Para um verso compor-lhe eu gasto muita resma,

e faço muita prece ao Eterno Deus Pai.

 

A morte, atra e feroz, domina e soberana,

poluído anda o mundo em triste e desumana

batalha de destruição estúpida, infernal.

 

Por isso é que não ouço os pássaros cantando,

por isso é que não há mais flores perfumando,

é o mundo destruído em podre bacanal.

 

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