SAUDOSA INFÂNCIA (XX)

 

 

NO DESVIO

 

Lino Vitti

 

        Muitas vezes a vida tem lapsos de continuidade. O menino, o adolescente, o moço, são vítimas do tempo, são pilhados em alguma arapuca da existência, tal qual acontecia com os incautos pássaros aprisionados por meus instintos de menino da roça nas armadilhas adrede colocadas em pontos estratégicos das tigüeras, das matas, dos cafezais.

Digo “instintos” porque a caça aos inocentes alados como que atacava a todos, sendo raro encontrar algum moleque pouco afeito a armar arapucas, alçapões, gaiola, laços, visgos e mais espécies de ardis contra a legião de aves ou avesitas que na minha saudosa infância, povoaram a liberdade roceira, resultando evidentemente da proliferação de sementeiras e frutas encontradas em abundância.

Deixando o seminário, na quase juventude, meu destino foi voltar aos pagos natais. Esses “quiproquó”, vindo numa hora mais do que inoportuna, considero-a eu uma armadilha com que a vida me presenteou.

Mudar de rumos nessa idade é uma aventura, é uma incógnita, é uma operação algébrica de difícil solução. A vítima dessa arapuca colocada no meio do caminho sente-se desarvorada, desarrumada da vida, ainda mais quando o inesperado acontecimento alcança uma figura em transição etária, transposta da roça para a cidade, de um ambiente rústico e variegado para um imenso casarão de diversos andares, metodizado, onde se orava e estudava das seis da manhã às 10:30 horas da noite, organizado em filas para tudo, com largos períodos de silêncio e estudo, recebendo ordens emanadas de toques de sinos ou sinetas, de apitos ou gestos sem rumor.

Se a transição da humilde mas feliz casa da roça foi difícil e coroada de lágrimas, não menos difícil foi a transição inversa, isto é, do seminário à roça de novo. Senti-me prisioneiro, como deveriam sentir-se as avesitas das minhas arapucas e alçapões da infância, com a agravante de que, enquanto elas reconquistavam a plena liberdade depois de satisfeita a minha curiosidade infantil, a mim as arapucas da vida deixaram-me então no desvio. Faltavam rumos e encruzilhadas para onde enveredar os passos. Perguntava às árvores, aos ribeiros, às plantações, aos animais domésticos e selvagens, às brisas passantes, ao sol tremendamente luminoso, à noite estúpidas sem lua, ou às noites soberbas de lua cheia e de faiscantes estrelas, para onde ir? O futuro era um mistério, o passado não mais retornaria, o presente era um imenso ponto de interrogação.

Estava, pois, no desvio. Rumo que não leva a nada. E nos desvio os dias se sucedendo, numa monotonia enervante, num interrogatório constante do “por-vir”, dias lânguidos e intermináveis do “não-ter-o-que-fazer”. Em plena porta da juventude, seria vergonhoso entregar-se aos brinquedos e lazeres da infância cada vez mais fugindo para trás, e nos umbrais da mocidade a vida exigia definições concretas, decisões diria imediatas, sendo condenável decerto uma permanência indefinida naquilo que me parecia um desvio na caminhada dos anos.

Deus, entretanto, criou a sabedoria paterna, dando-lhe condições de prever e prover. Um pai tão cioso como o que a vida me reservou, desgostoso decerto por ver algum filho no “desvio”, engendrou, sob inspiração divina um projeto salvador. Não permitiria nunca que o ex-menino da roça, das arapucas e das pescarias, se perdesse na ociosidade do desvio, essa armadilha inglória que o tempo muitas vezes arma contra as pessoas, mormente quando em mudança etária. E direcionou o caminho do ex-semiarista, não para o trabalho rústico e difícil do campo, mas para a cidade, para o lufa-lufa da urbe onde as oportunidades seriam maiores e mais numerosas.

Cimentava-se assim mais uma etapa de vida, como que descendo-se a cortina de um palco saudoso, onde se representou o teatro de uma existência maravilhosa e feliz. A partir de então outros seriam os acontecimentos, outros as personagens e atores teatrais, outros os sonhos e, certamente, outras as tristezas e dores.

Se não me faltar engenho e arte quem sabe contarei aos pacientes leitores algumas peripécias dessa nova etapa em que me envolveu e me arapucou a vida. 

 

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