SAUDOSA INFÂNCIA XXV

 

 

COROINHAS OU ACÓLITOS

 

    Lino Vitti

 

Coroinha ou acólito é o popular ajudante de missa, muito requisitado nos tempos em que o culto católico usava a língua latina para a maioria de seus atos e orações públicas. Meninos com vocação para o cargo existiam sempre, não só pela curiosidade da função mas por poderem tomar parte direta na recitação do Santo Ofício da Missa. Só porque isso exigia certas virtudes lingüísticas, porque o ato religioso era rezado em latim, segundo regulamentos da época, devendo portanto decorar a parte que lhe competia pronunciar.

Esse conhecimento da língua estranha criava ao coroinha um certo “status” em relação aos demais, uma certa importância no contexto do ato do Santo Sacrifício. Muitas vezes prenunciava também predisposição para a futura vocação sacerdotal, como tenho observado com os muitos padres do bairro Santa Olímpia, coroinhas ao seu tempo de criança.

O haver sido acólito dos barbudos frades que iam recitar missa aos fiéis de Santana e Santa Olímpia e bairros das redondezas, é uma das coisas que guardo no cofre das minhas recordações de infância, quiçá até motivo para que mais tarde tentasse a vida sacerdotal, estudando durante muitos anos no Colégio Santa Cruz, de Rio Claro, Seminário de formação sacerdotal dos Padres Estigmatinos, aos quais sou grato pelo que me ensinaram e me orientaram para a vida que vou levando já nas imediações dos oitenta Natais.

Ser coroinha implicava em não faltar nunca ao “trabalho” de ajudar missa. E fazê-lo da melhor maneira possível, sem erros nem falhas, pois os frades da minha saudosa infância de acólito não brincavam em serviço e qualquer deslize do ajudante era publicamente anotado no momento em que fosse praticado, voluntária ou involuntariamente. E o puxão de orelhas por esses titubeios, calava-me na alma profundamente e era inevitável o rubor das faces e o brotar de um frio suor na testa. Ossos do ofício, diriam os literatos. Essas gafes em geral não iam além do esquecimento de alguma resposta em latim, da quase derrubada das galhetas (pequenas garrafas artísticas onde ficavam a água e o vinho), ou o toque fora de tempo da sineta anunciadora de partes mais solenes da Missa.

Ah! essa sineta (que hoje já não existe) era uma honra e um prazer repicá-la. Que importância o coroinha atribuía àquele seu manusear o sonoro instrumento, pois tinha certeza de que o povo assistente obedecia rigorosamente ao “blim, blim”, despertando-lhe na alma motivos de fé, de respeito, de oração. E quanta vontade atacava o ajudante de repetir longamente aos sinetadas, só pelo gosto de ouvir aquela sonoridade alongando-se pela nave da igreja, mexer com os ouvidos dos assistentes e atravessar as largas portas do templo para avisar aos que permaneciam fora os momentos solenes e mais sacrossantos da Santa Missa!

Difícil para meu cargo de acólito afetivo era quando me chamavam para santas missas rezadas em capelas fora do bairro, em sítios ou bairros vizinhos. Um deles era Santa Lídia, distante alguns quilômetros de Santana. Companheiro de ofício era o Bruno Malusá, madrugador, caminhar rápido de europeu responsável, que me obrigava a erguer-me do leito às 3 ou 4 horas da madrugada, sem tomar café porque se deveria comungar em jejum absoluto desde a véspera, e fazer uma imensa caminhada por atalhos e pela linha da Estrada de Ferro Sorocabana até a capela de Santa Lídia, onde o horário da missa em geral era as 7 horas da manhã. Como era duro acompanhar o colega coroinha, cujo entusiasmo e saúde o faziam percorrer os quilômetros em marcha forçada (como se diz nos Tiros de Guerra) e recebendo eu apodos de moleirão caso reclamasse da velocidade que o Bruno metia nos seus sapatões novos.

Mesmo assim, tenho saudade de minha infância, tenho saudade daquelas andanças feitas para atender o dever de acólito da missa num misto de sacrifício e alegria em companhia de um amigo da infância.

 

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