SAUDOSA INFÂNCIA (XXII)

 

 

OS CAMINHOS

 

Lino Vitti

 

    Coisa importante para vida rural, não só naqueles saudosos tempos de infância mas para os dias modernos também, eram as estradas, evidentemente de terra, uma vez que o asfalto era algo desconhecido pelos sitiantes de então, talvez um sonho a encher a fantasia roceira. Gente da cidade só padeiros, frangueiros, mascates, mesmo assim de raro em raro, ocupavam aqueles caminhos para levar aos moradores da roça algum dos confortos, objetos ou necessidades oferecidos pela cidade aos que nela habitavam.

    Rústicos, esburacados, difíceis eram os caminhos dos bairros que são minha terra natal. Palmilhávamo-los, pés descalços, para ir à escola, à venda do tio, à igreja para as raras missas, à roça para o trabalho, a qualquer vizinhança e sob qualquer intempérie.

    Em épocas de estio, os pés nus, pele engrossada como calo pela falta de uso de sapatos, sandálias ou tênis, as estradas viravam leito de areia fina, de pó esvoaçando, e ao caminhar por eles, afundavam-se as pernas até a canela, como se aquela terra se estivesse transformado numa espessa camada de talco, o que, em última análise, constituía motivo de alegria para a criançada a esbaldar-se naquele lodo seco, provocando nuvens de pó vermelho levadas pelo vento em diabruras pelo ar. A brincadeira, ao final, serviria de zangas maternas, pois a roupa era uma tragédia de imundice poeirenta, dando insano trabalho às lavadeiras, exigindo muito sabão, muita esfregação, muito bater nas tábuas das tinas cansadoras.

    Se esses eram os problemas das estradas quando as chuvas espaçavam, não menores eram aqueles amealhados com o vir das chuvaradas. Meninos e meninas da roça pulam de alegria quando o céu derrama aqueles maravilhosos aguaceiros que duram pouco tempo, mas são suficientes para deixar os caminhos um rio de gorgolejantes enxurradas, fugitivas, ficando atrás delas um solo grosso de lama, de poças reluzentes, tudo propício para aventuras infantis. E como se brincava na estrada barrenta e povoada de pocinhas de chuva remanescente! Nos países onde neva diverte-se a gente atirando uns nos outros punhados de gelo, nos países tropicais, criaturinhas infantis da roça, como acontecia nos meus saudosos dias, brincavam de pastelão, atirando-se punhados de barro, no que fora transformada a poeira de horas atrás. E de novo, as vítimas desses combates inocentes eram as mamães, forçadas a um duplo trabalho de lavar, lavar, a roupa da criançada.

    Culpados de tudo isso só podiam ser os caminhos da roça, coitados, sujeitos ora ao pó, ora à chuva, aproveitados sempre num e noutro caso, pelas travessuras da meninada folienta.

    As estradas campestres, embora estreitas, esburacadas, mal cuidadas, barrentas ou poentas, são as artérias por onde passa o sangue da produção rural. Lembro-me das dificuldades como os roceiros conseguiam transportar as colheitas das safras, -sobras da produção destinada antes para o próprio sustento, -para os locais de consumo, para o mercado citadino. Lembro-me também que autoridade pública nenhuma (prefeito, vereadores ou que tais) se dava ao trabalho de visitar fazendas, sítios ou colônias espalhadas pelas terras municipais, como seria de seu dever. Visitar e providenciar o atendimento de suas necessidades, especialmente a arrumação e melhoria das estradas por onde viriam para a cidade o arroz, o milho, o feijão, a mandioca, a batatinha, as frutas, as verduras, etc., atendendo exigências populacionais. Nada disso. Meus avós, pais e tios, em mutirão, reuniam-se aos demais proprietários de sítios vizinhos ou terras entregues a colonos para consertar as próprias estradas, porque se fossem esperar pela municipalidade, poderiam esperar sentados para não se cansar demais.

    E uma vez por ano, enxadas, foices, enxadões, picaretas, pás e facões se reuniam num exército de boas vontades e árduo trabalho para “consertar as estradas” que o município ignorava.

    Felizmente isso tudo foi na minha infância. Hoje, oitentão, já de Fiesta (há pouco de Maverick), rodo pelos caminhos de então “pisando” bonito asfalto, obra do governo estadual, apoiado por outras entidades públicas e articulares, e conseguida, segundo se sabe, por arte política e bairrista do ex-vereador Guido Negri que se colocou à frente para concretizar acalentada reivindicação. Merece, sem dúvida, o bate-palmas daquelas comunidades trentino-tirolesas.

    Quem não deve ter apreciado muito é a meninada brincalhona que ainda teimava patinar na lama ou no pó, conforme a estação o recomendasse.

 

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