SAUDOSA INFÂNCIA (XXI)
OS CÃES – CRIATURAS DE DEUS
Lino Vitti
A revista “Atualização”, de divulgação teológica para o cristão de hoje, de Editora de “O Lutador”, jornal católico de Belo Horizonte, do qual sou assinante a mais de 20 anos, é responsável por esta crônica de hoje, tratando dos animais irracionais conhecidos como cães ou cachorros.
O professor da Universidade
Católica de Minas Gerais, cônego Pedro Terra Filho, escreveu interessante,
profundo e inimitável trabalho sobre essas criaturas caninas, enaltecendo-as,
provando com argumentos cristãos e humanos, e documentando aquele com situações
históricas bíblicas, desde a salvação das espécies por Noé em sua milagrosa
arca, passando por historiadores, poetas, escritores latinos, gregos, passando
por filósofos, moralistas, poetas e literários de todos os tempos, provando,
repetimos, que os nossos amados cachorros são criaturas de Deus, por Deus
criadas para servir, amar, defender, dar alegrias e guarda ao Homem, privando
de uma contínua e férrea amizade entre o Ser inteligente e o irracional
doméstico. Lembra aquele professor universitário, cônego por título sacerdotal,
que a Igreja mantém até um ritual de bênçãos dirigido aos animais, aos
quais São Francisco de Assis, como sabem os cristãos e ateus, chamava
carinhosamente de “meus irmãos”.
E por causa da leitura desse
trabalho, como disse e como de fato é, algo inédito para as minhas convicções
religiosas cristãs, surgiu esta crônica em que, um tanto poeticamente e outro
tanto saudosamente, vou recordando tempos de infância.
Que teriam a ver,
entretanto, os mastins tão filosófica e sabiamente tratados pelo cônego Pedro,
da PUC-MG, em seu maravilhoso artigo, com os dias de minha meninice roceira?
Exatamente agora que pretendia, como escrevi, nas ultimas crônicas, esquecer um
pouco desse longo discorrer sobre anos saudosos, quiçá em vias de esgotar a
paciência dos leitores de “A Tribuna”, dos meus colegas também cronistas e
articulistas deste matutino diário, há poucos dias completando jubileu de
circulação, de algum curioso que, errando a mira na leitura das melhores
publicações que pontilham em colunas de respeito daquela folha, lance as
pupilas sobre estas cansadas linhas de um quase octogenário poeta piracicabano.
Culpa, repito, do “Eles (os
cães) são criaturas de Deus”, do professor da PUC MG. É que esses caretas de
incisivos férreos (a ponto de trincarem ossos!) existiram, lado a lado, comigo
na longínqua primavera da infância. Lembro-me: Seguro, Duque, Fido, Tupi,
Mateiro, o nome de alguns desses heróicos bichos domésticos, heróicos porque
dificilmente encontravam, como os felizes cães de hoje, pratos feitos,
especiais, onde não entra osso duro de roer, tudo na hora certa, canil bonito,
limpo, às vezes até atapetados, quando não os próprios mastins ou pequenezes
moram na casa senhorial, como membro integrante da própria família. Os cães da
minha saudosa infância davam duro para encontrar mesmo uns restos de comida
sobrados das refeições, e quando isso ocorria comia mais aquela “fera” mais
valente e que arreganhasse mais temerosamente as presas e o senho assustador.
Não sei porque eu atribuía
nos ditosos tempos de então aos amigos animais uma personalidade: assim, o
Seguro, era assentado, meio dorminhoco, parco de latidos, parecendo apreciar a
solidão; o Duque, já mais especulador, juntamente com o Mateiro, vivia
procurando lebres, preás, coelhos, raposas, tatus, iam à roça com os
trabalhadores quem sabe para descobrir, entre os capinzais alguma presa melhor do
que os restos do almoço do pessoal; o Tupi, parecia criança grande, brincando
às correrias, latindo à toa, pulando sobre as pessoas, indo buscar pedaços de
pau lançados pela criançada ao longe e outras aventuras próprias de um cão
alegre e feliz; o Fido, coitado, baixinho e gordo, vivia na humildade, sofrendo
as agruras de sua pequena estatura. Era assim que eu via os cachorros da roça
em que vivi, ao que parece, bem diversos dos citados pelos historiadores e pelo
trabalho do reverendo cônego Pedro, lá de “O Lutador”.
Das filhas, duas têm
predileção especial pelos cães: Dorinha e Fabíola. Ao freqüentar-lhes a casa,
morro de medo, pois os bichos não acostumados com poesia, literatura ou
preciosidades outras da vida, desconhecem grau de parentesco com as suas donas
e aí acontece avançarem sobre o velho, em atitudes de feras. Aliás, uma das
filhas – Dorinha – bióloga e que desde a meninice vivia às voltas com
borboletas, besouros, grilos, taturanas e outras amabilidades silvestres, teve
o cuidado de botar à porta um aviso que conheci nos tempos de estudo do Latim:
“Cave Cane” ou “Cave Canem”, que querem dizer : toma cuidado, aqui há cachorro.
E se mandam te cuidado é porque os tais devem ser zangados e avançadores sobre
as visitas.
Infelizmente de quando em
quando, a imprensa registra e a televisão mostra que os “amigos” cães não são
lá tão amigos, e sabem, como os homens, imitar-lhes muito bem a repudiada
violência.