SAUDOSA INFÂNCIA (XIX)

 

ASPIRAÇÕES

Lino Vitti

 

Da infância, passa-se à adolescência, uma espécie de infância amadurecida, oportunidade em que os instintos acordam, e nesse despertar, maravilhoso, sem dúvida, vão envolvendo a personalidade do futuro jovem e, um pouco mais longe, do futuro homem. Ao lado do espírito despertante, tanto para o homem como para mulher, apresentam-se as aspirações, como o desejo de um botão para se abrir em flor, como o anseio de um emplumado passarinho que ensaia, ainda no invólucro do ninho, o bater de asas que, logo mais, o levarão a adejar pelo escampado do infinito.

Lembro-me de uma estranha inveja que me abria rachas na alma ao ver colegas, tios, irmão, já de penugem pelífera a brotar no mento; caprichando muitas vezes diante de um caco de espelho para pentear os cabelos, à maneira de gente grande; acompanhando pais e irmãos mais idosos em idas para a cidade, que em minha fantasia aparecia como um terra encantada, cheia de maravilhas, de gente bonita, de trens, e bondes barulhentos, de buzinas chiando em cada esquina, de pessoas engravatadas e sapatos lustros batendo compassadamente pelas calçadas, de casas repletas do doces, pães deliciosos, sorvetes sem conta, etc., etc.

E me punha a sonhar: quando for “grande” terei tudo isso e mais ainda, terei um terno alinhado, umas botinas luminosas, uma cabeleira atraente, passeando pelas ruas e praças da cidade, depois de uma viagem fantástica de trem, nada mais do que velhas marias-fumaça da Sorocabana bufando e chiando os trilhos para chegar até Porto João Alfredo, ou São Luiz, ou ainda Recreio, Charqueada, São Pedro.

Como devia ser bom quando a gente fosse ‘gente grande”, dono de 17 quilômetros, ir à cidade, contemplar aquele mundo de casas enfileiradas de lado a lado, aquele povo vai-e-vem, martelando os sapatos nas calçadas de pedra, algo de dar vertigens na cabecinha do menino repleta de mil inexplicáveis aspirações!

Que sensação impressionante ao ver os moços do bairro de mãos dadas (fora da vigia dos olhos maternos ou paternos que nem isso permitiam então!) preparando-se para o casamento. A mente adolescente fervia em conjecturas na expectativa de um dia, quiçá não muito distante, poder ser também gente grande!

A inveja, ou melhor uma vontade natural de crescer e adentrar na faixa acima, existia até com relação aos fatos domésticos. Aspirava-se ser o “mandão”, devendo os menores ou companheiros mais novos, ficar debaixo do comando de quem sentia a barba crescer e já ouvia os longínquos rumores da juventude a acenar com todas as suas exigências biológicas e mentais! Como o ansioso adolescente gostaria (falamos da roça) de assumir as rédeas de uma carroça, conduzir as bestas, mansas a toda prova, pelos caminhos dos bairros ou pelos carreadores das colheitas, parecendo já ser um homem.

Aliás, essas transmutações humanas não em escaparam de figurar num soneto, tipo “circulo vicioso”. Seria assim que mais tarde, adentrado em anos, meteria em soneto essas impressões:

 

“CÍRCULO VICIOSO”

 

Mal chegada à razão, sofre a criança

desejando já ser um jovem feito.

Sofre o moço, infeliz e insatisfeito,

por não ser homem cheio de pujança.

 

E o homem, vendo o velho que descansa

dos embates da vida sobre o leito,

sofre, por abrigar dentro do peito,

desejos mil de uma velhice mansa.

 

Mas o velhinho, em cujo olhar balança

a lágrima de um sonho já desfeito,

a saudade fugaz de uma lembrança,

 

despoja-se de seu senil respeito,

ele, que é da ilusão o grande eleito,

sofre por não poder mais ser uma criança.

 

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