SAUDADE DAS FERROVIAS

 

Lino Vitti

 

          Piracicabanos há, aos milhares, que ignoram termos sido fim de linhas ferroviárias e assim também povo premiado com duas empresas desse ramo de atividades sócio-econômicas nacionais, com atividades ligadas a grandes cidades e centros industriais e turísticos. Sorocabana e Paulista eram os nomes dessas heróicas entidades ferroviárias que nos serviam. A Paulista, levava-nos e aos produtos desta região, até a capital do Estado, e a Sorocabana nos ligava com grande número de cidades, menores mas não menos importantes, e tinha o capricho sadio e feliz de distender seus trilhos pela zona rural piracicabana, favorecendo e dando prosperidade a bairros e povoados do município, como Corumbataí (Sta. Teresinha hoje) Santa Elidia, São Luiz, João Alfredo, por um ramal, e Vila Resende, Costa Pinto, Recreio, Charqueada, São Pedro, por outro ramal. Desse transporte se aproveitavam inúmeros povoados, entre os quais os meus bairros de infância, Santana, Santa Olímpia, Fazenda Negri. Como apreciava ver dos meus pagos natais, os trenzinhos caipiras que bufavam através das roças e pastos, distendendo no ar o penacho branco de fumo de suas chaminés, como que a retratar os esforço da máquina para galgar trechos de terrenos com mais declive!

          Os governos, entretanto, seja federal, sejam estaduais, sejam municipais, não gostam de poesia e por isso resolveram sumariamente um dia destruir e apagar aquela beleza de trens e linhas férreas cortando territórios rurais . E o seu encanto e a sua utilidade para o homem da roça do município piracicabano e de seus vizinhos, se foram para sempre.

          A ação destruidora governamental das ferrovias entretanto não se conteve apenas em apagar do mapa as pequenas redes ferroviárias. Ela se estendeu a outras maiores e por todo o país, principalmente o Estado de São Paulo, onde empresas como a grande e famosa Paulista e Sorocabana acabaram sumindo de vez para restar apenas na saudade dos mais idosos e no desconhecimento dos jovens e adultos que os sucederam.

          Afinal, por que estou eu a relembrar essas tristezas administrativas nacionais, num tempo em que a ferrovia nada mais é do que um fantasma do passado? Estou porque sou poeta e porque tenho saudade incruada na velha cabeça dos trens e das suas estações que ficaram lá atrás na penumbra do ontem. Estou ainda revivendo esses acontecimentos extintos porque, não faz muitos dias, em passeio de visita ao monte cônico da Serra de São Pedro, conhecido como Gorita ou Morro dos Macacos, tive a grata surpresa de rever, por acaso, uma das milhares de estações de trem que serviram de ponto de embarque. Pequena, triste, abandonada, caminhando inexoravelmente para ruína, contemplei-a com uma penumbra de saudade intensa dos meus tempos de seminário, pois era aí, nessa estaçãozinha da então poderosa Companhia Paulista, que aguardávamos o trem que nos levaria de volta ao seminário que ficava em Rio Claro.

          No entanto, não era só a impressão do tempo ido que me entristecia a alma naquele instante. Eu via naquela minúscula estação, que ao tempo de seminário me parecia enorme, todo um passado de prosperidade das empresas ferroviárias que engrandeciam especialmente o Estado de São Paulo, cruzado que era ele por grande número de paralelas férreas, condutoras de gente e produtos de uma cidade a outra, de uma região a outra, das riquezas do interior para os portos com destino a inúmeras partes do mundo. Ferrovias importantes, administrativamente poderosas, promissoras de prosperidade futura, hoje desaparecidas, extintas, inutilizadas, nada mais restando do que aqueles pedaços de coisas indicativos de um passado florescido em movimentos humanos, industriais, lavorísticos, um movimento valioso de riquezas levadas de uma cidade a outra, um vai-vem de progresso, de criatividades, de povo se deslocando em busca de trabalho, felicidade e esperanças.

          Ao botar olhos saudosos sobre aquela mortalha de um passado que foi próspero e brilhante, eu recordava do meu trenzinho que desembarcava gente no Caiapiá, ou na Santa Lídia, ou no João Alfredo, ou no Recreio, ou São Pedro, poeticamente chamado, o trem, de Maria Fumaça, localidades todas que guardavam como um tesouro suas estaçõezinhas de embarque e desembarque, iguais a do Itapé, que estava a contemplar num momento de saudade e tristeza, porque jamais haveriam de ressuscitar da destruição a que foram relegadas pelo homem.

 

Piracicaba, 16/1/2006

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