O sabiá

Lino Vitti

 

Poetas e escritores gastaram páginas e páginas, rimas e tropos, para dizerem algo sobre esse pássaro-símbolo, personagem do mundo alado que se está tornando, ao menos nesta região piracicabana, cada vez mais raro, cada vez mais fugidio, tanto que, suponho, as próximas gerações nem sequer saberão da existência por estas plagas de uma ave tão canora, tão significativa, tão poética..

          Quando este impenitente rimador se propõe a escrever sobre esse tipo de coisa, de entes que povoaram um passado sublimado, de animais ou pássaros que se perdem na penumbra do ontem, recorre aos seus dias infância, deliciosamente vivida na rusticidade gostosa da vida campesina, pois é aí, em meio a esse ambiente puro e divino que vivem na saudade e na lembrança tantos fatos belos, tantas situações encantadas, tantos inícios de sonhos e esperanças nem sempre concretizados.

E é lá, nesse país mirífico, habitado pelas belezas naturais e pelos seres silvestres que encontro motivos e coisas que me governam a dedilhação do instrumento que serve para colocar em letra de forma tudo aquilo que o cérebro esquenta e tira dum mundo ido e desaparecido. E dentre esses longínquos motivos surge, numa visão enriquecida de recordações, a figura singela, mas musical, do sabiá.

Eu diria que o sabiá é o amanhecer e o entardecer, São essas suas horas prediletas de apanhar sua flauta vocal e dedilhar sonoridades imorredouras. O homem, quando o sabiá descerra o bico para flautear sua canção canora pára. E põe-se de ouvido atento.. Quando o sabiá canta a natureza pára para ouvi-lo e saborear aquela melodia entrecortada de melancolia. Quando o cantor dos laranjais desfia sua ária, num canto escondido da paisagem, todos os pássaros param para escutá-lo e para aprender como se musicaliza uma tarde tristonha ou um amanhecer generoso.

Dizem e escrevem que quando o uirapuru se põe a dobrar, toda a floresta silencia para ouvi-lo, numa homenagem encantadora e sublime. A floresta amazônica cessa os seus rumores para desfrutar daquele musical único no mundo, digno pois do silêncio de todas as outras aves. Diria assim que o mesmo ocorre quando o sabiá de peito vermelho, no recesso de um laranjal desfia sua melodia, a ecoar pelo recesso florestal e a paisagem morrente da tarde engalanada de luz.

O homem da roça escuta e medita. Recorda e sonha ao sabor daquele canto. Nada mais belo do que, ao despertar do dia, ouvir-se um sabiá madrugar, desfiando suas notas canoras, como que uma saudação ao sol luminoso, como que um clarim a clamar que já é dia. As brisas levam pela distância além o trinado maravilhoso desse pássaro especial da ornitologia brasileira. enchendo de notas melodiosas os vales e as colinas, musicalizando a alma das tardes e das manhãs rurais.

Há muitos sabiás que não desfrutam da amada liberdade. Não importa porém, porque mesmo por entre grades o pássaro não esquece de sua melodiosa incumbência, premiando os seus donos com horas de lazer canoro. Muitas vezes tive oportunidade de ouvi-lo em cativeiro, quando o angustioso trinar da avezita não deixa de sublimar a vida e encantar o homem.

(2007)

 

 

 

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