A PASSOS LARGOS PARA A DESTRUIÇÃO

 

Lino Vitti

       

          A cada dia, a cada hora, a cada momento, nos jornais, nas revistas, na televisão, na Internet, dadas pelos cientistas da terra e do céu, do rês do chão ao espaço infinito, se avolumam as notícias ameaçadoras, e no fundo verdadeiras demais, dos largos passos com que caminha a destruição dos mais preciosos elementos do universo, como a água, o clima, o reino vegetal, o reino animal, o reino mineral – o Planeta, enfim! Não digo do homem, porque o homem é o ser que se compraz em levar avante, com ironia e fatalismo, tudo quanto serve para liquidar, sem remorsos e acentuada ironia, aquilo que lhe é doação divina: a natureza, o ar, o solo, a água, a flora – em síntese, o mundo em que vive de passagem.

          Vou ver se consigo escrever sobre primordiais componentes da vida que o recebedor gratuito do universo usa e abusa e a que tem em teimosa mira procurar destruir, lenta mas decisivamente, embora certo de que essa destruição causará outra destruição pior que é a própria vida humana sobre a Terra.

          Leio, e todos devem ler também, das efetivas e contínuas ações do “homo sapiens” (parece que nesta era de ganância não tão “sapiens”, mas obtuso) contra a natureza, como a “savanização” – novo termo criado por O Estado (ed. de 9/4/2007), que significa transformar a Amazônia em savana, isto é, em imenso pasto, em imenso pampa, desnudado criminosamente de suas florestas, de suas árvores, de seus rios, de suas chuvas, de seus ventos.

          É doloroso e satânico verificar que a derrubada da floresta virgem, altiva, admirável, verdejante e distribuidora de umidade e sombras, provocadora de chuvas diárias, pondo em fuga as altas temperaturas, está sumariamente desaparecendo, a golpes de serras e machados, não só para satisfazer a ganância humana pela sua valiosa madeira, mas para se transformar celeremente em deserto saárico, depois de lhe serem sugadas toda a vitalidade e fertilidade do solo que ainda traz em seu húmus a virgindade diluviana .

          Fatalmente, à floresta seguir-lhe-ão a via crucis da destruição, o que parecia ser o eterno Amazonas, seus afluentes, os demais rios, os córregos, as nascentes, e sobre seus passos o lençol trágico da seca, caminho certo para o advento de novo Saara brasileiro, já com acentuado começo aí no Ceará e nas terras baianas apontadas por Euclides de Cunha, como caminhantes para esse tipo de destruição da natureza.

          Ora somos indefectivelmente otimistas e nunca esperamos possa acontecer o pior, especialmente nesse grave caminhar para a destruição a que estamos levando, ignaros ou maldosos, o país, o Amazonas, as florestas tropicais que são o seu orgulho, os seus rios sem iguais no mundo inteiro, criando a “savanização”, de efeitos terríveis sobre todo o continente. Ficaremos irmãos da seca, do deserto, da falta de chuvas e donos de um clima contundente, infeliz, desastroso, como explicam os estudiosos e como comprovam os cientistas de todo o universo humano e terráqueo.

          O pior é que estamos órfãos de providências oficiais ou governamentais. Autoridades não se incomodam com as ameaças que pairam sobre a cabeça do povo, congressistas discutem amenidades e aumentos salariais, ao invés de dedicarem sua atuação no estabelecimento de leis duras contra a safadeza dos gananciosos exploradores da flora, fauna e solo e deixam que as ameaças caminhem para a concretização que há de vir fatalmente, pois a destruição uma vez feita ela será para sempre.

          E para isso estamos caminhando a passos largos...

         

(2007)

 

 

 

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