OLHANDO PARA TRÁS ...

Lino Vitti

 

Acredito eu estar registrada no Evangelho uma frase categórica que preceitua não deva o homem, trabalhando com o arado, olhar para trás. Com isto a palavra de Cristo nos quer ensinar que na vida se deve caminhar sempre para frente, olhar no horizonte que se desvenda como uma esperança, propósitos dignos de seguir o aceno, embora misterioso, do futuro, pois é lá que estão os objetivos da vida, é à frente que fica o Paraíso a ser conquistado com a graça divina e uma vida condigna e eivada de amor. O passado, o ontem, estão sepultados, por isso o melhor mesmo é esquecê-los, principalmente se não se revestirem da grandeza humana própria de homens cristãos, condignos, tementes a Deus e a seus Mandamentos.

De que vale retornar passos melancólicos sobre pedaços de vida indignos, infelizes, turbulentos, diria mesmo, tristes, atrás dos quais se escondem atos e fatos que só servem para enegrecer os dias deixados atrás? De que vale relembrar e ficar martelando elucubrações que nada serviram para endireitar as curvas e ou encostar os pedrouços do caminho? De que vale ficar remoendo figuras que caminharam ao nosso lado, às quais devemos apenas gratidão e saudade, se nunca mais poderão estar conosco, conversar, abraçar, amar e mesmo orar? De que vale derramar lágrimas pelas oportunidades perdidas, pelos momentos de felicidade desperdiçados, pelos sonhos irrealizados, pelas esperanças combalidas? O esquecimento é ótimo conselheiro, pois apaga alegrias e prazeres que não mais retornarão, e enterra os sofrimentos e as dores que ao longo da caminhada ousaram enredar-nos os passos e somar o sepultamento a mais dores e sofrimentos que já haviam sido sepultados.

É Cristo que lembra não deva o homem do arado olhar para trás, porque quem desvia o olhar do horizonte da frente, para fitar o que se foi, está sujeito a tropeçar no caminho, a perder o rumo certo, a desviar-se da via traçada, para ver seus passos enredados pelos cipoais daninhos e possivelmente tombar e não mais encontrar a senda do seu destino. Além do mais, o lavrador ao arado que se volta não terá como ver e logicamente saber se o animal que puxa o instrumento agrícola vai seguindo a direção certa, vai executando com primor o trabalho que lhe incumbe, podendo apresentar-se o perigo de uma distorção e perda irreparável do labor feito.

O olhar para frente vê o horizonte se aproximando e com ele poderá chegar quiçá um bem, uma alegria, uma luz, uma felicidade, importantes metas aspiradas pelo homem. De outra forma, todas essas justas aspirações humanas, não poderão ser vistas ou desfrutadas se já ficaram para trás, impossível que é vê-las retornar algum dia.

Então, meu único leitor, ao empunhar o arado da vida, atento à palavra de Cristo. Nada de soltar as mãos do arado para ver, mesmo que seja uma espiadela, o que já ficou lá atrás. O digno, o necessário, o importante, o bom em todos os sentidos, é sacar os olhares sobre o iluminado horizonte que se distende como uma promessa e um futuro à frente de você.   

(Julho 2008)       

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