Nuvens do céu, nuvens da alma |
Lino Vitti |
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Vejo o
dia deslumbrante despontar para a vida do universo. Está azul de horizonte a
horizonte, numa gloriosa demonstração de serenidade e limpidez. O espetáculo
costuma ser freqüente, o que alegra e entusiasma a contemplação dos poetas e
daqueles que, mesmo não sendo poetas, soem apreciar , por puro diletantismo, o
alvorecer do dia ou como anda a concha imensa do infinito. Vezes há em que o céu se anila desde o surgir matinal ao ocaso,
entretanto, em outras, a limpidez azulínea celestial, passa para o fenômeno
inverso, e o espaço é tomado, sem mais delongas, pela aparição de nuvens
andejas, nuvens que se movem, ora velozes e algodoadas, ora tarjadas em sua
base pela cor de aço, ameaçando desmancharem-se, de uma hora para outra, em
chuva grossa ou em temporal trovejante. Aprecio, como cronista e poeta, essas transformações por que
passa o céu, tendo como responsáveis as nuvens enigmáticas e corredeiras , ora
alvas como linho e acolchoadas como travesseiros, ora estufadas e negras,
bojudas e ameaçadoras, prometendo trovoada. Às vezes, elas se estiram pelo
anil, numa indolência preguiçosa, a demonstrarem tranqüilidade e mansidão e ai
ficam numa longa imobilidade, descansando ou dormindo, sabe-se lá o que querem
e o que pensam nuvens do céu! E de tanto aprecia-las em seu andejar sem fim, de tanto vê-las
mudando de formas e, do branco de algodão para o preto do aço, que me envolvo
em poesia e em prosa – essas duas personagens amigas que me acompanham e até me
atormentam a vida inteira – e fico a imaginar que se há nuvens a ocuparem o céu
do universo , há nuvens também ocupando o céu da alma humana, e como aquelas,
assumindo formas e cores, aspectos e movimentos diversos, ora passageiras ao
sabor dos ventos, ora compactas ameaçando dilúvios. Sim, a alma de cada um é um céu, por onde passam como as que
correm pelo azul, muitas nuvens, ora céleres e alegres e brincalhonas, ora
acumulando-se bojudas e compactas, mostrando ameaças e trovoadas. Quando o céu interior se sente feliz é porque nuvenzinhas de
alegria, de fé, de esperança, de amor, se movem de cá pra lá, levam paz e
tranqüilidade, apresentam sorrisos diante da luz do sol da vida e do azul do
céu da alma. São nuvens de felicidade, são nuvens de amizade, são nuvens de
educação, são nuvens de cultura, são nuvens de amor, são nuvens de adoração a
Deus, a passarem pela alma que nada mais é do que um infinito céu de mistérios,
de anseios, de busca,de sonhos, de poesia. O céu anil que nos cobre, entretanto, de súbito muda e toda a
sua tranqüilidade e mansidão fogem, e a vida se tolda de tristezas, amarguras,
infelicidade, desesperança. Ameaça a tempestade interior, escurecem-se os
sentimentos nobres, trovejam os ódios, as inimizades, e no céu da alma arma-se
o temporal, os ventos maus zunem, os trovões do mal rugem. E aquele céu que há
pouco ostentava toda a beleza e a paz do azul, se apresenta negro como as
negras nuvens dos temporais. Como seria bom se a alma humana vivesse sempre sob a cúpula do
azul, ignorando as nuvens tempestuosas que costumam toldar-lhe a felicidade da
vida! São de temerem-se, e muito, os momentos aflitivos do céu da alma, quando
os maus ventos tangem nuvens de negror espiritual e sentimental. E como é bom
quando se vê o céu da alma todo azul, por onde facilmente entra o sol da
felicidade e da paz. |