NO RIO, UM MAL INCURÁVEL
Lino Vitti
Crianças, jovens, adultos, idosos de
qualquer sexo ou qualquer cor, sabem todos que o Rio Piracicaba, via aquosa que
conduziu o Capitão Povoador até a visão excelsa do salto, era piscoso, valente,
brioso, serviçal, poético e amoroso. Nele os cardumes viviam em constante e
feliz reprodução, os quais, de quando em quando, ofereciam o espetáculo da
piracema, numa demonstração de piscosidade reprodutiva e de amor às águas
límpidas e livres de quaisquer resquícios poluentes.
O rio servia à cidade, não só com sua beleza
e oferta de dourados, jaús, pintados, lambaris e bagres, mas também com o
encanto de sua paisagem e de seu carinho recebendo barcos, barquinhos,
barcaças, pequenos navios, pois as águas eram vultosas e a profundidade
cobiçada para o movimento barqueiro, comercial e turístico.
Quem diz porém que o progresso traz
tranqüilidade e prosperidade? É uma faca de dois gumes, pois se trouxe, através
do rio piracicabano, tudo quanto diz respeito à prosperidade e bem estar,
traiu-nos em seguida, com a transformação da nossa via líquida em esgoto,
primeiro, e, depois, leito doloroso, a carregar sobre a sua superfície a morte
de seus cardumes, coletivamente envenenados e colocados a descer a corrente
aquosa rumo à destruição e putrefação asquerosa.
E a tragédia diabólica – pois só pode ser
obra do mal – passou a se repetir, ano a ano, cada vez mais triste, cada vez
mais tenebrosa, cada vez mais violenta, cada vez mais estúpida. E cada vez
menos os piracicabanos entendem, ou melhor, não entendem ainda, por que isso
acontece e acontece, num ritornelo doloroso, ecoando lugubremente tempos
afora.
Será que só a nossa imprensa, que se vê
obrigada a noticiar as sucessivas tragédias da mortandade coletiva dos peixes
do Rio Piracicaba, só ela toma conhecimento desses fatos, sente-se aborrecida
de a cada ano os registrar, mas vendo entretanto que ninguém por quem o assunto
deve ser conhecido, analisado, verificado, constatado, pesquisado e
solucionado, sai a campo para agir, para encontrar os responsáveis, para tomar
as medidas (as eternas providências) que devem ser logicamente tomadas, para
que os piracicabanos não sejam obrigados a assistir a cada ano, em determinado
tempo, a essa mortandade infeliz, para que a nossa imprensa não seja chamada a
noticiar a repetição nefasta do acontecimento, para constatar que os
responsáveis (que os há evidentemente) prometem, mas nenhuma medida efetivam
para que a tragédia não se bise, ou para que seja eliminada de vez, como a
justiça e a lógica requerem?
Não se pode compreender por que diante de
tão cruel evidência não apareça ninguém para colocar um basta, depois de
pesquisar as origens e os sacripantas poluidores que jogam o veneno (só pode
ser isso) e matam sem misericórdia ou qualquer responsabilidade toda a fauna de
um rio nacional. Será que não há Lei, Constituição, Ministério, Secretaria,
Órgão atuante, que tenham em seus programas e serviços, um olho fiscalizador e
uma justiça imediata, para intimar, condenar, acabar com esse estado terrível
de coisas que é a mortandade repetida e matemática dos peixes do Rio
Piracicaba?
Se alguém souber, por favor, aponte-o com o
indicador em riste. E o rio Piracicaba lhe agradecerá de coração.