Lino
Vitti
Desde o
instante em que meu olhos se abriram para a luz do universo, foram premiados
com a figura geográfica da Serra de São Pedro, azulada, regular, terminando, entretanto,
do lado norte com uma representação irregular do terreno, erguendo-se em um
monte isolado, figurando um cone imenso, como que a vigiar o final da serrania.
Não estou em condições de dizer porque a regularidade serrana que tanto me
impressionou a infância e agora vem mexer com a saudade na velhice, sofreu o
impacto daquela montanha tão diferente do restante da revolução telúrica da
região de tal forma a sobressair à vista daqueles que venham a percorrer
rodovias e caminhos paulistas no quadrante geográfico onde mora o sobredito
monte, por mim conhecido, como Gorita, mas para outros Morro do Macaco. Não
vamos esclarecer, porque o espaço jornalístico não é muito, as razões da
diversidade nominativa.
Só posso
dizer que aquela configuração montanhosa foi não apenas uma impressão de
infância, mas algo que me acompanhou a vida inteira, meus tempos de seminário
religioso e as saudades de hoje, quando os anos se multiplicaram. Tive a
ousadia, quando estudante para o sacerdócio, de visitar o Gorita algumas vezes,
pois os seminaristas em férias na Fazenda de Santana, hoje às margens da
rodovia Washington Luiz, éramos levados a passeio pelos padres, até a
espetacular montanha. E depois de uma caminhada a pé de muitas horas, tínhamos
a ousadia ainda de galgar as encostas do monte e alcançar o seu pico, e daí,
contemplar a maravilhosa, extensa e variegada paisagem que se desdobrava desde
o sopé até onde os olhos podiam alcançar o horizonte.
Dentre os
amigos dos anos de estudos sacerdotais conto com um especial que mora nesta
cidade. É Paulo Negri. O amigo é tomado por imensas saudades dos tempos de
seminário e em especial dos passeios que fazíamos ao Gorita, por isso as suas
constantes recordações e desejo de retornar mais uma vez até o fenômeno da
natureza que parece uma vigia constante e eterna da serra azulada dos meus
tempos de infância. E graças à amizade que me uniu a Silvio, um professor da
Unicamp, ligado por laços familiares, tivemos – eu e Paulo, e de lambuja o
engenheiro agrônomo dr. Policarpo Vitti – a felicidade de matar as longas e
felizes saudades dos passeios ao Gorita. Silvio, de carro (não mais no pé dois
como antes), levou-nos até as imediações do saudoso monte.
Poucos decerto sabem as emoções que invadem
aquele cantinho cerebrino onde se guardam as recordações! Como por encanto
voltei aos tempos de seminário, aos dias em que em caravana estudantina,
conduzidos por um padre geólogo e amante da natureza – Alexandre Acler –
buscávamos a companhia daquela maravilha geológica, subíamos pelas sua faldas
eriçadas de mata, e só nos satisfazíamos quando, no topo, se desvendavam à
nossa vista jovem as distâncias sem fim, emocionando-nos e dizendo-nos de quão
grande era a obra divina da Criação.
Na verdade, só a inteligência de um Deus
poderia plantar na terra uma erupção telúrica tão perfeita e tão demonstradora
de sua sapiência e poder, para gáudio da vista e prazer humanos, para motivo de
contemplação e até de insinuação de que há um Criador do universo, uma
divindade única, para premiar o bicho homem, sempre ingrato e devedor a Deus,
de tudo quanto lhe foi dado. Em momentos assim, o poeta se perde em
elucubrações, quer tentar traduzir em versos a maravilha que lhe surge ante o
olhar, mas coisas assim, diria espantosas, até que não cabem num soneto, numa
estrofe, numa rima. Apesar disso, apesar de fraqueza humana que a qualquer um
visita, tentei um dia traduzir outro fenômeno da montanha, no soneto com o qual
concluo, estas linhas saudosas.
SER MONTANHA
Lino Vitti *
Anseio de
infinito, oh! cósmica montanha,
que
buscas nesse afã silente, e pétreo, e vão?
Queres
talvez deter, numa invasão estranha,
esse
pálio estelar luzindo em profusão?
Vais
abraçar o sol? Que impossível façanha!
Beijar,
quem sabe, a lua em toques de emoção ?
E
quando o temporal em chuva e vento banha
o
mundo, não te faz bater o coração?
Quando
vejo surgir no horizonte o teu porte,
qual
vontade do pó de se elevar na altura
fugindo
desta terra onde comanda a morte,
um
profundo desejo a erguer-se me acompanha:
quero
ser como tu, fugir desta clausura
e
não ser nada mais que uma simples montanha!
(*
Príncipe dos Poetas Piracicabanos)
Piracicaba,
16-1-2006