A montanha e a vida

Lino Vitti

       
            Tenho um colega – Paulo Negri – como eu egresso de seminário religioso, onde adquirimos estudos para a vida e para a fé, sem chegar porém ao estagio principal que seria o sacerdócio. Nossos anos de juventude foram vividos assim entre paredes severas de uma instituição religiosa em todos os sentidos, material e espiritualmente, e quando, por mão da divina autoridade do céu e da terra, deixamos aquele santuário de ensino, trouxemos conosco todos os elementos necessários a ser alguém na vida: estudo e religião suficientes para atravessar esta jornada condignamente sob a batuta magistral dos muitos e ótimos estudos adquiridos. Trouxemos, entretanto, e parece que assim é com muitos daqueles que mudam de rumo, deixando a vocação sacerdotal, talvez não devidamente cimentada, para ingressar no lufa-lufa da vida mundana, trouxemos, repito, um arquivo imenso de fatos e atos ocorridos naquela quadra vivencial, juntamente com um rol de lembranças que teimam em perdurar pelos anos restantes da vida.
            E de quando em quando, o amigo e ex-companheiro de vocação Paulo Negri vem conversar pessoalmente, ou mesmo via telefone, sobre nossos passeios dos tempos idos, de modo muito especial e com muitos detalhes ele recorda as jornadas lúdicas que os seminaristas faziam ao Gorita, uma montanha cônica e isolada que aparece na Serra de São Pedro, fazendo parte de seu conjunto, nas proximidades de Ipeúna. E o Paulo tem saudade, transmite-me toneladas de saudade, e a todo custo, quer retornar àquele passeio, garimpar de novo pelas faldas do monte acima e lá no topo, contemplar a imensa paisagem que se alarga até onde a vista alcança, aspirar a pureza do ar, sentir mais perto o afago do sol, não ver nada do alto que lembre a vida complicada que circula cá em baixo no sopé da montanha.
            A montanha é o solo que foge do chão e quer galgar o céu. É um anseio do universo terráqueo que gostaria de se transformar em estrela, ou ao menos, tocá-las, afagá-las, apanhá-las para levar de presente às crianças desta terra. O Gorita, tão desejado pelo ex-colega de seminário, é a montanha que quer alcançar as nuvens, dizendo adeuses de distâncias aos que caminham cá ao rés do chão pela poeira das estradas, tão distantes e tão diversas e da poeira luminosa das estradas do infinito, por onde perambulam cometas e estrelas em profusão.
            Lá no topo do Gorita, Paulo Negri e os que queiram galgá-lo, esquecem do que existe ao sopé da montanha e em toda a extensão por que vai a paisagem terrena e humana estendida a seus pés. Esquecem das dores e das misérias da vida; esquecem da guerra e das convulsões sociais, esquecem dos inimigos gratuitos ou involuntariamente conseguidos; esquecem de que é preciso ganhar o pão com o suor do rosto ou sob o impacto das dores criadas no corpo pelo trabalho; esquecem da política rasteira e ignominiosa dos homens que cuidam muito mal dela e de suas conseqüências; esquecem que o mundo é cheio de pobreza e estupidez, de muita ignorância e mentira, de muita inveja e insensatez; esquecem que há riqueza mal dirigida, pois enquanto abarrota uns poucos de confortos e felicidade, arrasta atrás de si legiões de miseráveis que não encontram nem pão para comer, nem feijão para distribuir aos familiares; esquecem que há doenças rondando a toda a hora e a todo o dia, os lares, as cidades, as nações, espalhando dores e devastando vidas ; esquecem que há ateus e descrentes, perseguidores do Bem e da Fé, inimigos dos cristãos e de seu Deus, que é preciso orar, que é preciso amar, que é preciso salvar os náufragos da vida que lutam nas águas turvas do mundo; esquecem, esquecem... Porque do cume maravilhoso do Gorita não se vê a humanidade, não há como olhar para baixo porque a encosta da montanha tolda a visão e ao olhar para o alto, o homem que subiu até a grimpa montanhosa só vê o céu azul, atrás do qual está Deus a sorrir para quem teve a coragem e a ousadia de escalar montanha.
            Nem todos sabem subir a montanha. Fazem-no com espírito apenas aventureiro, numa demonstração de simples força ou valentia física. Não estão preparados para receber a lição que aflora no topo do monte e se espalha pelas distâncias imensas do espaço. Lição de vida, lição de encanto, lição de amor. Sim, o Gorita que ouviu meus passos ainda jovens e estuantes pisá-lo com entusiasmo e embasbacado pelas maravilhas descortinadas do pico azul, ensinou-me que a montanha tem vida, estua vida, oferece vida, é um elo de vida entre Deus e o homem.
            Às vezes, contemplando o pico anilado do Gorita, noto que ele dialoga com o infinito azul. Falam da grandeza da criação, comentam a degradação da humanidade, lastimam as atitudes da criatura ante a suprema divindade. E percebo, depois, que entristecem porque o céu despeja sobre a montanha a lágrima divina da chuva.
        Caríssimo amigo Paulo Negri: se Maomé não vai à montanha, ela virá a Maomé, diz-me um fraseado antigo, por isso, impossibilitados de irmos até o Gorita, porque os anos são muitos e pesam sobre as pernas, chamemos o Gorita para que venha até nós. Vamos matar saudade, vamos restabelecer o diálogo das belezas humanas e celestiais.
Julho 2005

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