AS LIÇÕES DAS FÁBULAS
Lino Vitti
Acredito que dentre os
estimados leitores deste generoso semanário sócio-religioso, pouquíssimos ou
mesmo nenhum deles ignorem o que seja uma fábula. Nada custa todavia relembrar
rapidamente do que se trata, para que mais gente fique ao par dessa forma de
literatura universal que tem atravessado os séculos, carregando consigo e
transmitindo aos povos, lições de moral e sabedoria de uma maneira agradável,
simples, compreensível e exata.
A Fábula é um repositório de
cultura. É uma historieta de poucas linhas onde se descrevem ações humanas,
onde se acentuam lições de moral universal, onde se mostram fatos que envolvem
toda a categoria de pessoas, tudo sintetizado ao máximo, sendo a pessoa humana
em geral representada por animais domésticos ou selvagens aos quais se atribuem
os dons da fala, do pensamento, da ação, unindo-se homens e irracionais para
expressar sentimentos, desejos, anseios, paixões e ensinamentos. Da historieta,
o fabulista extrai um conceito final de moral pública ou individual, resultante
do conteúdo da própria fábula.
Como maiores fabulistas da
História pontificam dois nomes: Esopo, entre os gregos e Phedro entre os
latinos. Centenas e centenas delas chegaram até nós, embora seja certo que
outras tantas devam ter-se perdido na voragem dos tempos, por falta de quem as
transmitisse através da arte literária até nossos dias.
Escolhi para conhecimento
dos meus leitores, mas certo de que todos os que correm as linhas deste zeloso
semanário saberão apreciar, uma fabulazinha do latino Phedro (lê-se Fedro, com
F), tratando, já naqueles longínquos tempos, de um assunto muito atual: a
política e os pobres. E como é curtinha, peço licença aos queridos editores
para a publicar na íntegra. É assim:
“Um humilde ancião apascentava
seu burrinho no campo. Amedrontado por súbito clamar de inimigos, persuadiu o
burro a fugir, para não ser capturado. Então, calmamente, ele (o burrinho)
respondeu:
– Acaso julgas que o
vencedor não iria me impor as mesmas duas albardas (sacolas ou malas) que
carrego?
O velho disse: – Não.
– Portanto – continuou o
asno – que importa a mim a quem deva servir, uma vez que tenho de carregar
sempre as mesmas albardas?”
A moral da historieta: Na
mudança de governo, muitas vezes o nome do dirigente, mas em nada muda a
situação dos pobres.
Esta pequena fábula nos mostra que isso é verdade. Sim, é verdade.
E continuadamente nós, povo, mormente pobres e trabalhadores, verificamos essa
afirmativa e a moral da fábula. Verificamos que elegemos governos, mudamos
dirigentes executivos e legislativos, mas a situação continua sempre a mesma:
carregados de impostos, falta de empregos, salários mixurucas, aumentos de
preços, falcatruas entre membros de Câmaras altas e baixas, roubalheiras, CPIs,
falta de decoro, criminalidade às pampas, etc., etc.
O burrinho representa, na
fábula fedriana, o povo sofredor em qualquer tempo e sob qualquer governo, e o
desalento de que estamos tomados por verificar que se mudam governos, mudam-se
pessoas, mudam-se dirigentes, mas nada muda em favor das classes sociais menos
favorecidas e mais sujeitas às dificuldades da vida.
E assim tem razão o burrico
da velha fábula.