As lavouras
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Lino Vitti
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Lavoura, ensinam os
dicionários, é tudo quanto diz respeito à agricultura, como o preparo da
terra, a aração, a gradeação, o plantio, a capinação e a colheita, seja para grãos
(milho, arroz, feijão, soja) ou gramíneas (cana de açúcar) ou fibras como
algodão e ainda tubérculos, como a batatinha e a mandioca. Lavrador pois se chama
aquela pessoa que cuida da lavoura ou roça, ou roceiro como gostaria muito de
ter sido na vida. Na vida porém nem sempre acontece como a gente quer ou
gostaria de ser. Voltando a falar da
lavoura posso dizer sem errar que esse tipo de coisa praticamente não mais
existe nos meus bairros de infância e decerto nem em todos os bairros rurais
do município, pois com o andar dos tempos mudou muito o modo de viver daquela
boa gente de minhas origens. As gerações de hoje só conhecem a lavoura
cana-de-açucar, existindo jovens e crianças que ignoram como foram as
plantações de arroz, milho, feijão, batatinha, algodão e outras. Desconhecem
outrossim as belezas naturais dessas lavouras. Nada mais belo do que ver o
mar verde do milharal se estendendo pelas terras, brilhando ao sol, afagado
pelas brisas, apendoado por cabeleiras de flores, espichando espigas encabeladas
e coloridas, embonecando e engranando, como que a anunciar a fartura da
colheita. O arrozal, em geral plantado na várzea, ondulava sempre tangido por
frescos ventos, embarrigava (é a palavra que se usa entre lavradores) para
soltar em seguida a maravilha dos cachos engranados, para a alegria dos donos
da colheita. A “malhação” do arroz é um ato do roceiro que jamais se apagará
da minha lembrança. Esta lavoura, além de rendosa, bonita e alimentar,
constituía-se em motivo de alimentação dos pássaros campestres, como
rolinhas, nambus, pombas e a sementeira, depois da colheita, atraia
papa-capins, tizius, pintassilgos, em grande profusão. Plantava-se algodão e
café, duas espécies de lavoura que desertaram daquelas localidades, Que
maravilha um algodoal em ponto de apanha! O solo virava um lençol de
brancuras macias que o pessoal recolhia em enormes sacos e aventais,
parecendo todos mulheres à espera de nenê no último mês de gestação. Hoje meus bairros natais
como que perderam a beleza da policultura, a graça e o encanto da lavoura
variada, dando lugar à monotonia dos canaviais! Plantações lindas como as de
café, algodão, arroz, milho, batatinha, talvez nunca mais. Só na saudade dos
mais velhos ainda vivos. As novas gerações não sabem o que perderam. A natureza cria
maravilhas, encantamentos, preciosidades. Nada mais lindo do que ver a
exuberância verde de um arrozal ou milharal, um cafezal mostrando seus grãos
maduros, vermelhos, pedindo apanha. Quando uma roça de milho começa a
embonecar, isto é, a mostrar os primeiros fios dos cabelos da espiga, o homem
do campo se alegra pois é uma promessa real de que a safra será muito boa. Ah!As roças de antanho!
Tudo na base do manual: machados, foices, enxadas, podões, sem luvas,
chapeirões de palha, sapatões rústicos, roupas grossas e encharcadas em geral
de suor! Almoço e café da tarde, em meio à roça, à sombra de alguma árvore
eventual, muitas vezes entre nuvens de pó erguidas pelo vento forte, água de
corote (um tipo de barrilzinho) quase morna, descanso sentado num tronco
cheio de saliências espinhentas, nada para minorar as agruras da tarefa
roceira. Hoje é o trator, é o arado mecânico, é o caminhão, é o guindaste.
Tudo fácil, tudo mecanizado, dispensando totalmente a participação saliente e
física do homem Apesar das dificuldades
que acometem o lavrador e as dúvidas que surgem às vezes diante das mudanças
e indecisões do tempo, a lavoura ainda vale muita coisa e serve como estímulo
para uma vida mais feliz. (2007)
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