O inverno e a vida

Lino Vitti

       

      Quiçá a estação menos desejada integrante das quatro tradicionais que ocupam espaço durante o calendário anual brasileiro, seja a que foi denominada Inverno, apesar de rimar maravilhosamente com eterno, fraterno, superno, materno, paterno, e destoar, tristemente, com a rima feia inferno.

      Para as crianças é desagradável, pois os pequerruchos não apreciam absolutamente ficar presos dentro de agasalhos volumosos; para os idosos, igualmente, porque o frio hibernal lhes ataca com violência os músculos e os ossos que passam a doer, transtornando-lhes os prazeres do descanso e do sono, quando não, obrigando-os a dirigir-se freqüentemente a consultórios e farmácias em busca do alívio a que deve fazer jus todo aquele que já deu tudo de si para o mundo e à vida. Os que trabalham não têm lá muita amizade com o dom Inverno porque os agasalhos são sempre motivo de estorvo para o bom executar do seu trabalho, seja manual, seja intelectual, seja educacional, seja leve ou pesado. Dos hospitalizados ou dos que sofrem qualquer tipo de doença, nem há o que falar, fácil que é calcular quanto dissabor lhes causam as baixas temperaturas ambientais.

      A própria natureza fica triste e aborrecida com o frio hibernal. A paisagem se encolhe friorenta, os pássaros se calam, os animais se escondem, as árvores se despem e choram as lágrimas das folhas secas que rodopiam à frialdade do vento sul, borboleteando tristonhamente. Muitas vezes a veste frígida da neblina matinal cobre-na de brancuras cegantes e o sol amarelece dizendo adeuses ao seu soberano calor. Faz frio, muito frio, insuportável frio de que poucos (!!!) ou ninguém mesmo gosta.

       Esse é o inverno criado desde o alvorecer do mundo. Há os terríveis invernos em muitas regiões do universo que se comprazem trazer até os povos, delas habitantes, dona neve, cobrindo extensas paragens, cidades, lavouras, rios, caminhos, sepultando-os na sua imensa brancura frígida, por longos meses. E como que a vida pára e assiste o passar dos dias enrolada no manto alvo da neve, trazida por esse incompreensível personagem, fabricante de terríveis frialdades e inarredáveis incômodos de saúde e bem-estar.

      Até aqui, falamos do inverno material. Entretanto, há um inverno pior, aquele que se instala no homem-espírito, na sua alma, no seu coração, na sua mente, na sua vontade.

      Há então uma hibernação dolorosa, porque os entes humanos esquecem da virtude, da alegria, da caridade, da justiça. A alma embranquece, frígida, inútil. O coração como que estaca e a névoa fria do desamor não deixa penetrar nele os bons e humanos sentimentos. A mente pára, cobre-se e foge deles, pois não suporta a frialdade do inverno que vai lá por dentro de sua vontade, de seus sentimentos, de sua capacidade caritativa e pessoal.

       Ah! como é triste, doloroso e terrível o inverno da caridade! O semelhante, o pobre, o desempregado, o deserdado de qualquer auxílio e de todo o amor humano, não é visto por aqueles que escondem seu olhar atrás da neblina fria desse estranho inverno sentimental. E não se vêem as necessidades, não se vêem os adoentados, não se vêem os pecadores, não se vêem os pobres, não se vêem os pedintes, não se vêem os sem teto, os sem lar, os sem família, os ignorados pela humanidade. Lavra o inverno da impiedade, do esquecimento, do desprezo, do desamor.

            Dizei-me, caríssimos leitores, qual o pior de todos eles? Esta Folha Cidade é uma luz que procura iluminar muitos que estão imersos no inverno da pobreza , da falta de fé, da desesperança, dos sem amor. Graças a Deus, ainda brilha um raio dentro da neblina da descrença e do intenso frio da falta de caridade, que procura levar um pouco de calor para aqueles que estão a tremer, desvestidos que são por uma sociedade insensível e fugitiva.

2006

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