Um hino silvestre |
Lino Vitti |
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Nos
meus felizes tempos de meninice, passada por entre gente e paisagem da roça,
tinha especial predileção pelos caminhos ou pelos atalhos cujo destino podia
levar a um bairro, um sítio, uma fazenda ou nenhuma dessas coisas para ser
então um simples final de estrada que levava à lavoura, a uma lagoa, a um mato
virgem, a um ribeirão onde moravam traíras, bagres e lambarís, felizes, porque
sem poluição das águas pelos venenos agrícolas assassinos. Como
era agradável, como era saudável, como era encantador enveredar pelas velhas
estradas, muitas vezes erguendo nuvens de poeira ao sopro manso de qualquer
brisa; outras, enlameadas pelas chuvas; hoje dando passagem ao chiante carro de
bois, a transportar grossas toras de jequitibá ou peroba para a serraria dos
Negri onde virariam tabuas para as residências em construção, ou então,
oferecendo o espetáculo de uma carroça puxada por várias bestas fogosas,
ofegantes com a carga pesada de produtos agrícolas, rumo aos paióis ou tulhas
acolhedores. Quantas vezes os caminhos rurais serviam de passagem de tropas de
muares ou manadas de rezes, o que para a curiosidade dos olhos infantis ou
adolescentes se constituía num belo espetáculo! Todavia,
não só disso vivia a paisagem campestre de então. Em geral, as estradas eram
enfeitadas em suas margens por trechos maravilhosos de mataria virgem, ou
surgiam, como um milagre verde, árvores imponentes, orgulhosas de haverem
fugido da sanha dos machados, palco indefectivelmente procurado por pássaros de
porte ou avesitas canoras, como sólio de seu descanso ou local ideal para
exibirem as suas melodias musicais. E o passante, como sempre o fazia eu, fosse
ao despertar matinal ou ao entardecer luminoso do dia, não deixava de aplicar
seus ouvidos às manifestações das aves, feitas um hino de vida e alegria, ora
em conjunto, ora em solo teatral e cuja sonoridade tinha o poder mágico de
atrair e encantar o meu passeio. Ouvir
um sabiá desfiando suas melodias para saudar o sol nascente ou se entristecer
com o ocaso do sol morrente , não é coisa para qualquer um. É preciso amar a
roça, é preciso amar-lhe todas as manifestações, é preciso ouvir com ouvidos de
carinho e atenção, aquele desdobrar de notas vindas de um pássaro, pequenino às
vezes como um pintassilgo, maior, outras, como o sabiá de que vos falo. Seja
daquele, seja deste, é sempre um hino que vai ao ar, que toma conta do espaço,
que leva sonoridades enigmáticas e ao mesmo tempo felizes aos ouvidos de quem
resolveu colocar-se como ouvinte da ópera matinal da roça. A
ciência ornitológica ensina que, ao iniciar o seu canto, o uirapuru, ou o seu
bailado os tangarás nacionais, têm o poder de fazer calar todas as outras aves,
para que todas e tudo fiquem embevecidos daquela sublimada festa de sons e
ouçam com amor e atenção o hino daquelas gargantinhas de ouro e felicidade que
está a se exibir com maestria e perfeição divinais. Ouvindo, quer ao raiar do dia, quer ao apagar dos estertores saudosos da tarde, o hino do sabiá ou do pintassilgo à beira da estrada, confesso, como que esquecia de tudo e de todos e a vida nada mais seria do que aquela voz alada a dobrar notas e mais notas musicais, de que aquilo não iria além de uma demonstração, em ponto pequenino do que existe no céu, reservado apenas para ouvidos terrenos que tivessem tímpanos sensíveis e arejados para ouvir o hino preparado por um sabiá ou por um pintassilgo, rústicos e diminutos Beethovens ou Mozarts colocados no universo pelo seu Criador, para nosso lazer, nosso encanto, nossa felicidade. Eu sei que muitos dos caríssimos
leitores não tiveram e nunca terão quiçá essa oportunidade de se extasiar, como
inúmeras vezes o fiz, diante de um pássaro madrugador ou entristecido pela fuga
da luz do dia, que resolve postar-se à beira de um caminho, no topo de uma
árvore, e aí desfiar, para quem passa ou simplesmente para a natureza
circundante, o milagre de seu canto, o hino que aprendeu quando ainda, homens e
aves moravam no Éden. Só pode ser de lá que nos veio, por obra e arte santas coisa
tão bela, coisa tão divina.
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| 2005 |