FESTA PANTAGRUÉLICA

 

(Homenagem à polenta)

 

Lino Vitti

 

      A polenta é um prato tipicamente trentino-tirolês, singelamente composto de água e fubá. Ferve-se a água e pouco a pouco vão se juntando a ela punhados de fubá peneirado, mexendo com a colher de pau até ficar cozida e endurecer, feita um bolo. Vai sal apenas. Quando no ponto, despeja-se numa tábua que em dialeto trentino se chama “tabiel” e cada comensal vai tirando seu pedaço e devorando junto com mistura que pode ser queijo, lingüiça, carne de panela, tudo coberto com molho adrede preparado. A polenta deve ser comida quente.

      Lembrei-me de redigir esse pequeno histórico desse prato das famílias trentino-tirolesas, dos conhecidos bairros Santana, Santa Olimpia e Fazenda Negri, hoje Viocil, ao receber convite da Comissão de Festas de Santa Olímpia, para participar da Festa da Polenta, homenagem a um dos principais pratos dos conhecidos tiroleses, celebrada anualmente por aquela comunidade, como uma de suas tradições e como forma de angariar fundos para as suas obras e vida religiosas. O prato, diga-se de passagem, é muito apreciado quando saboreado com “mistura” outra, como carne, bacalhoada, ao lado de um caprichado arroz ou uma fumegante macarronada, com o delicioso vinho de fabricação própria, estritamente de uvas e sem finalidades comerciais. Gente da cidade ou de outras comunidades adoram uma polentinha à moda de Santa Olímpia, daí o comparecimento de muitos apreciadores que vão ao salão festivo para degustar com gosto e carinho o fabuloso prato. E ao que se pode saber, são muitos com pendores pantagruélicos, que comparecem à costumeira festa, para gáudio da Comissão do Bairro e dos responsáveis pela condução comemorativa da Festa da Polenta.

      Ao escrever estas rápidas linhas sobre o apreciado prato tirolês, volto a meus dias de infância e adolescência, quando a primeira refeição do dia, preparada pela minha saudosa mãe, aliás como em todas as famílias dos bairros Santana, Santa Olímpia e Negri, era nada mais nada menos do que polenta em largas fatias, assada na chapa, sob os olhares gulosos dos primeiros a deixar o leito, e picada no leite fervido misturado com café, tudo fumegando e espalhando um olor de coisas deliciosas e sadias.

      Assim a Festa da Polenta já vem de longínquos tempos (hoje já beiro os 90 anos) e se constitui numa feliz e importante continuidade da alimentação daqueles povos rurais, repassada aos dias de hoje, porque o que é bom, o que é importante, o que é condigno, devem prosseguir carregando consigo a beleza e a tradição históricas de comunidades laboriosas e participantes da vida de um município, como sempre foram as de meus bairros nativos que, de fazendas onde reinava a escravatura, se transformaram em exemplares núcleos independentes e prósperos de economia livre e laboriosa.

      Cumprimentemos assim ao festejante bairro de Santa Olímpia, por sua ambição feliz de relembrar anualmente a digna Polenta, a dizer verdade, principal prato que acompanha aquela gente desde os imemoriais tempos de sua fundação e crescimento e decerto, como o demonstra a comemoração, continuará sendo pelos dias vindouros, de fazer inveja ao herói Pantagruel, glutão da literatura francesa criado pelo escritor francês Rabelais.

      E por tudo, graças a Deus!

 

(Julho 2008)

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