A polenta é um prato tipicamente trentino-tirolês, singelamente
composto de água e fubá. Ferve-se a água e pouco a pouco vão se juntando a ela
punhados de fubá peneirado, mexendo com a colher de pau até ficar cozida e
endurecer, feita um bolo. Vai sal apenas. Quando no ponto, despeja-se numa
tábua que em dialeto trentino se chama “tabiel” e cada comensal vai tirando seu
pedaço e devorando junto com mistura que pode ser queijo, lingüiça, carne de
panela, tudo coberto com molho adrede preparado. A polenta deve ser comida
quente.
Lembrei-me de redigir esse pequeno histórico desse prato das
famílias trentino-tirolesas, dos conhecidos bairros Santana, Santa Olimpia e
Fazenda Negri, hoje Viocil, ao receber convite da Comissão de Festas de Santa
Olímpia, para participar da Festa da Polenta, homenagem a um dos principais
pratos dos conhecidos tiroleses, celebrada anualmente por aquela comunidade,
como uma de suas tradições e como forma de angariar fundos para as suas obras e
vida religiosas. O prato, diga-se de passagem, é muito apreciado quando
saboreado com “mistura” outra, como carne, bacalhoada, ao lado de um caprichado
arroz ou uma fumegante macarronada, com o delicioso vinho de fabricação
própria, estritamente de uvas e sem finalidades comerciais. Gente da cidade ou
de outras comunidades adoram uma polentinha à moda de Santa Olímpia, daí o
comparecimento de muitos apreciadores que vão ao salão festivo para degustar
com gosto e carinho o fabuloso prato. E ao que se pode saber, são muitos com
pendores pantagruélicos, que comparecem à costumeira festa, para gáudio da
Comissão do Bairro e dos responsáveis pela condução comemorativa da Festa da
Polenta.
Ao escrever estas rápidas linhas sobre o apreciado prato
tirolês, volto a meus dias de infância e adolescência, quando a primeira
refeição do dia, preparada pela minha saudosa mãe, aliás como em todas as
famílias dos bairros Santana, Santa Olímpia e Negri, era nada mais nada menos
do que polenta em largas fatias, assada na chapa, sob os olhares gulosos dos
primeiros a deixar o leito, e picada no leite fervido misturado com café, tudo
fumegando e espalhando um olor de coisas deliciosas e sadias.
Assim a Festa da Polenta já vem de longínquos tempos (hoje já
beiro os 90 anos) e se constitui numa feliz e importante continuidade da
alimentação daqueles povos rurais, repassada aos dias de hoje, porque o que é
bom, o que é importante, o que é condigno, devem prosseguir carregando consigo
a beleza e a tradição históricas de comunidades laboriosas e participantes da
vida de um município, como sempre foram as de meus bairros nativos que, de
fazendas onde reinava a escravatura, se transformaram em exemplares núcleos
independentes e prósperos de economia livre e laboriosa.
Cumprimentemos assim ao festejante bairro de Santa Olímpia, por
sua ambição feliz de relembrar anualmente a digna Polenta, a dizer verdade,
principal prato que acompanha aquela gente desde os imemoriais tempos de sua
fundação e crescimento e decerto, como o demonstra a comemoração, continuará
sendo pelos dias vindouros, de fazer inveja ao herói Pantagruel, glutão da
literatura francesa criado pelo escritor francês Rabelais.
E por tudo, graças a Deus!
(Julho 2008)