EVOLUÇÃO CARNAVALESCA

 

Lino Vitti

 

 

    Tenho um estranho costume: escrever sobre assuntos e datas depois que já passaram, em parte devido à falta de atenção que presto ao calendário universal, ou porque habituei-me a escrever meus trabalhos para os jornais sempre com antecedência. Assim, por exemplo, sobre a Semana Santa, o Natal, o 7 de Setembro, o Dia das Mães, etc. em geral esmiúço o assunto sempre depois da data haver ocorrido. Da mesma forma está ocorrendo hoje, pois vou focalizar um acontecimento que já passou e ficou para trás na senda da História: o Carnaval.

    Vou tentar uma comparação entre a Festa Momesca de ontem e a de hoje que, como tudo neste mundo, teve sua evolução, não diria para melhor ou para pior, pois é uma questão que a humanidade, se chamada a julgar, emitiria uma sentença metade pró e metade contra. Eu, pessoalmente me coloco contra o Carnaval de hoje, pelos ares imorais que tem assumido ao passar de cada ano.

    Hoje, o Carnaval é ousado. Vai além do que deveria ser, como um divertimento da maioria dos seus defensores, como manifestação de alegria, como demonstração de diversão sadia, como motivo de arte representativa, como a sinalização de cultura. Realmente isso que aí foi escrito deveria envolver os três dias mais notáveis da festança carnavalesca. Assim não é todavia. Não é pura a alegria manifesta porque aquele barulho musical e cantante esconde atrás de muitos participantes a tristeza que ficou no lar, na repartição, no trabalho, no pagamento salarial, na falta de Fé, no desmanche das famílias e dos casais, na impossibilidade de adquirir conhecimentos culturais, na falta de dinheiro para médicos e remédios, as doenças incuráveis, nos desastres e tragédias, nos ódios e inimizades, nas derrotas esportivas, no desencanto do amor em todas as suas manifestações humanas. E cada um daqueles dançantes que parecem alegres e festivos, esconde atrás da própria máscaras um desencanto, um problema, uma dor,uma amargura . Bem considerado os foliões cantam por fora, mas choram por dentro.

    Depois dos três dias de trepidação corporal e envolvimento moral das consciências, volta-se ao statu quo de antes, sem nada de solução de problemas e dificuldades financeiras e familiares, trabalhistas e religiosas, educacionais e artísticas, culturais e financeiras e o aluvião de dificuldades que o dia a dia coloca em mãos e conhecimento de cada um, tenha-se mascarado ou não, durante o tríduo momesco.

    O Carnaval de hoje apresenta, outrossim, o grave problema da sexualização. Os governos e interessados, coletiva e individualmente, oferecem aos participantes e não participantes, milhões de condons (camisinhas). Por que e para que ? Ora, para evitar a propagação de doenças venéreas e evitar gravidez indesejada. Então o Carnaval é isso? Propagador de doenças e filhos espúrios? Que raio de festa é essa que traz males ao invés de bem?! E tudo isso, arregimentado por uma demonstração coletiva de nudez quase total, desfilando diante de arquibancadas repletas e olhares felinos de desejos carnais.

    Outrora, não muito lá atrás, o Carnaval me pareceu mais alegre mais motivado, mais limpo e divertido. Exaltava-se uma alegria singela e demonstravam-se, ao invés do sexualismo e carname humano, as belezas da roupagem sem exageros núdicos, a diversidade das fantasias e máscaras, a novidade de canções com um linguajar enaltecedor das qualidades morais e sociais do homem, ficando muito longe essa maluquice de mostrar e usar dos instintos sexuais, portanto nem sequer se falava nisso nos hinos dos cordões, nem havia sido inventada a tal de camisinha tão importante hoje na festança do Rei Momo. Não havia, ao que lembro, o perigo da gravidez espúria. Não se disputava, como hoje, concurso e prêmios, a cargo de comissões exorbitantes, pois quem julgava as belezas e as novidades das manifestações carnavlescas era o próprio povo. Os bailes primavam pelo respeito e pela arte dançante dos foliões, bem diverso do que ocorre agora, que se transformaram em foco de abusos sexuais e desrespeito à tradicional arte da dança.

    Aí estão algumas palavras que me vieram à cabeça redatora ao passar deste já ocorrido Carnaval. Ao leiro cabe direito de concordar ou não com as idéias expostas, pois diz o provérbio: cada um desce do bonde como quer. O diabo é que não há mais bondes.

(fevereiro de 2008)

 

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