Meus primeiros versos, escritos a medo, pois o seminário
religioso não admitia alunos poetas porque a poesia de nada servia para a vida
sacerdotal, foram de cunho religioso e dedicados a Nossa Senhora. Não os
guardei, mas lembro perfeitamente que agradaram a um clérigo poeta vindo de
outra congregação de religiosos para a dos Padres Estigmatinos, e que
vaticinou-me: o senhor vai ser um poeta de verdade.
Profecia cumprida. Há mais de 60 anos assumi o grato dever de
poetar, publicando meus sonetos e poemas nos jornais, revistas e semanários da
terra piracicabana, cuja conseqüência foi a edição de 7 livros de poesia e
contos, distribuídos aos milheiros ao povo de Piracicaba e, ao que sei,
aprovados por ele, tanto que a Academia Piracicabana de Letras me honrou com o
significativo título de “Príncipe dos Poetas Piracicabanos”. Guardo-o com
carinho, com alegria, como troféu e prêmio maravilhoso aos meus longos e
felizes anos dedicados à arte escrita e rimada dos Bilacs, dos Raimundos Correia,
dos Guilhermes de Almeida, dos Gustavos Teixeira, dos Franciscos Lagreca, das
Marinas Tricânicos e de outros mais que dignificam a poesia desta, chamada que
foi, de Atenas Paulista.
O professor universitário de literatura de São Paulo,
Hildebrando de André, meu companheiro de seminário no Colégio Santa Cruz de Rio
Claro, em correspondência trocada entre nós, afirmou sempre que Piracicaba era
uma terra privilegiada, uma terra de poetas verdadeiros, um santuário de poesia
– dizia ele – que tem a graça de contar com a cooperação feliz dos seus jornais
matutinos, semanários, ou revistas, aqueles oferecendo semanalmente uma página
de sua edição à poesia dos seus poetas, como podemos ver na sexta-feira, em A
Tribuna e aos sábados no Jornal de Piracicaba, a cargo dos
escritores Ivana Maria F. de Negri e Ludovico Silva.
Poucos têm a felicidade
de ver seus poemas e ou sonetos publicados durante seis décadas para mais, por
isso me julgo honrado pelos nossos jornais, dignificado pelos leitores da minha
terra, realizado na arte dos versos, estrofes e rimas, graças à compreensão dos
diretores, editores, paginadores, distribuidores, leitores e todos quantos
trabalham para nos entregar a cada manhã, um nobre jornal como o Jornal de
Piracicaba, a Tribuna de Piracicaba e o semanário Folha Cidade,
todos acolhedores incontestes de minhas elucubrações poéticas de mais de 60
anos.
E diante de tão
flagrante acolhida, diante do respeito que em Piracicaba a Poesia merece,
diante da proliferação da arte que dignificou poetas como Dante, Shakespeare,
Victor Hugo, Olavo Bilac, Gustavo Teixeira, Vicente de Carvalho, Guilherme de
Almeida, Camões, e uma infinidade de nomes gloriosos e reais poetas, eu me
curvo em dar graças a Deus, Poeta Criador do Universo, do Homem e do Amor, por
haver premiado o mundo de Poesia e Poetas, e agradecer igualmente aos poetas do
mundo e do universo por terem aprendido a Poesia de Deus, e por lhe darem
continuidade até a consumação dos séculos, com tanta dedicação e tanto carinho
como merece essa graça de Deus.
A Poesia é a história dos povos, escrita em estrofes, em versos, em baladas, em sonetos, em poemas, em rimas. Numa linguagem sublimada, figurada, sintetizada, onde falam mais a alma e o coração do que as datas, os fatos, as personalidades, a ciência. Ser poeta é ser beija-flor: sugar o mel da vida, ao librar das asas sempre no espaço e sem tocar o desencanto do solo. É sonhar que se é angelical e não ser nunca envolvido pelo pó. Ser beija-flor, cujos beijos pousam sobre qualquer tipo de flor, sem olhar para a cor, sem olhar para as alturas em que ela bebe a luz do sol, buscando sempre o dulçor melífluo que se esconde no âmago de cada uma delas. Ser poeta é isso: buscar sempre o que é belo, cantar sempre as harmonias das coisas e da vida, ter os pés na terra, mas o olhar nas alturas do infinito. Poesia há de ser alegre, pois se for triste não será poesia, será dor.
São mais de 60 anos que poetiso. São mais de 60 anos que me
sinto feliz, pois a minha poesia rendeu frutos, foi lida, foi julgada, foi
amada. Haja vista que se tempos atrás os poetas eram raros como os diamantes,
hoje eles florescem como seara e a poesia deles espalha um perfume de beleza,
de sonhos, de encantamento.
Graças a Deus, a picada que tentei abrir está transformada em
caminho florido.
(Julho 2008)