Em busca do que? |
Lino Vitti |
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Em
busca de nada dirão os de espírito amorfo, desconexo,
materialista, incrédulo e
incréu. Para estes não há o Além, porque
só o corpo é realidade, só matéria
palpável, que os olhos vêem e o tato afaga, que a luz do
sol beija e as trevas
escondem. Apenas há o homem corpo, em seu conceito
esdrúxulo, desprovido de
quaisquer atributos espirituais, sem aquilo que nós outros
entendemos chamar-se
alma. Ambos, para mentes mais evoluídas, reunidos numa só
constituição
simplesmente chamada Homem. São aqueles que não se
dão ao trabalho de
interrogar, daqueles que varrem para debaixo do tapete as
dúvidas que
porventura teimem em aflorar na mente, como um eco a clamar as origens
Por que?
Para quê? De onde? Para onde? São as interrogativas que
ficam a bater-lhes `a
porta da compreensão, ecoando em vão pela noite dos
tempos.. Em
busca de uma eternidade dirão outros, de espírito limado por luzes de fé,
iluminados pelo amor, conscientes de seu destino pelas estradas do mundo. Estes
também interrogam, mas têm ouvidos atentos às respostas que do fundo da
consciência ouvem o seu clamor, seus desejos de Bem, seus intuitos de amor
divino, sua vontade de saber por que e para que acolheu-os este mundo, este interregno
de eternidade, os que enxergam no ente humano algo mais do que moléculas e
carnes, veias e músculos. Estes confiam em alguma coisa, esperam um prêmio ou
um castigo, segundo seu livre arbítrio os levou para o caminho pedregoso da
virtude ou a avenida asfaltada do pecado. Em
busca dos amores e dos prazeres oferecidos por um mundo ludibriado e enganador,
dirão aqueles que só vêem nesta existência o que interessa aos desejos de
instintos, o que sustenta os prazeres, o que coloca acima de tudo e de todos
gozar a vida, obedecer ao dinheiro que tudo compra, à carne que tudo exige, aos
acenos dos divertimentos que matam a vontade e estraçalham as famílias. Buscam
o que é terra e o que é da terra sumariamente, de olhos voltados sempre para o
chão, sem jamais lembrar que por sobre a cabeça brilha o sol, brilha a lua,
brilham as estrelas. Muitos
poucos buscam a santidade. São pessoas desprendidas, espíritos especiais, que
se alimentam do maná celestial do Bem, da Virtude, dos exemplos santos, de olhos fitos numa eternidade
feliz. Dentre os que vos cercam os dedos da mão serão suficientes para contar
esses que se preocupam e buscam a santidade. Por que ela é renúncia, ela é
desapego, ela é sacrifício, ela é divinal. Aproxima-nos assim da própria divindade. E que dizer daqueles que só buscam o
dinheiro, a vileza da moeda, o encanto do papel de primeira água que parece
reluzir ao fitar dos olhos sequiosos de riqueza. Quem busca apenas esse que
chamaram de vil metal fica cego a tudo quanto de bom e bonito circula pelo
mundo. Não se fala aqui daqueles que fazem do trabalho e da esperança um meio
de cobrir as necessidades e aspirar a fartura, porque estes são justos, mas
daqueles que amealham avaramente o dinheiro para viver nababescamente, negar
uma esmola, esquecer-se de Deus e de uma vida futura onde não haverá mais
riquezas a acumular, onde riqueza nenhuma comprará o paraíso E o que buscais todos vós,
trabalhadores, estudantes, lavradores, mendigos, chefes de famílias, mães
extremosas, filhos abandonados, passageiros do mundo, guerreiros em luta sem
fim, mestres dedicados, médicos responsáveis, industriais laboriosos,
comerciantes lutadores, pilotos e marinheiros, assaltantes e assassinos? Que
buscais todos vós, nesse trepidar passos para diante, sempre para diante, sem
descanso, dia a dia, de olhos postos nesse mundo quadrado de nossos dias,
incapaz de arranjar uma hora de sossego, de contemplação, de sonho, de
sabedoria? Que buscamos todos nós, escritores, jornalistas e poetas, traçando linhas e compondo poemas para as latas de lixo, para esses milhões e milhões de analfabetos que povoam a terra e que nunca chegarão a botar olhos sobre nossos produtos de espírito? (julho 2006)
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