ELE PASSOU DE NOVO
Lino Vitti
Quem?
Quem? Quem passou por aqui e não teve notada e anotada a sua passagem? Acaso
algum Presidente da República, algum Governador, o Prefeito, um rico
industrial, um personagem importante do estrangeiro, um cantor famoso, um ator
de tevê, um escritor, um músico? Quem, afinal, ousou passar por nós, anônimo,
rapidinho, apressado e não ligou para ninguém ou ninguém ligou para ele?
Caros
amigos, prezados leitores, nobre diretor desta folha
cristã, não vos apoquenteis, pois quem passou mais uma vez por
esta cidade, pelas nossas famílias, pela sociedade, não tem nada a ver com os
títulos dispensados acima. Ele é humilde, ele é generoso, ele é desapegado das
riquezas e dos bens materiais, não procura honras, não busca popularidade, não
pede votos, nada quer dos bancos, dos governos, dos políticos, das riquezas,
do eleitorado. Ele é simples,
como simples somos nós que escrevemos, distribuímos, oferecemos e lemos este
jornal, porta-voz do amor humano, da dignidade cristã, do trabalho de ajuda
àqueles que procuram, ainda, neste mundo um pouco de caridade, um pouco de
felicidade, um pouco de bem-estar, um pouco de compreensão e até um pouco de
pão para saciar o anseio de vida.
Ele – esse personagem bom e amoroso – costuma passar por nós uma vez por ano, quando a Igreja de Cristo nos convida a renovar a lembrança de sua vida, de sua passagem pelo mundo, de sua vinda do Céu para a Terra, de seu nascimento num presepe em meio de pastores e cordeiros, da sua pregação divina do evangelho e do amor de Deus para Salvação, de sua ignominiosa condenação e morte na Cruz, de sua insigne ressurreição e volta ao Pai Eterno, deixando para seus seguidores a doutrina do amor e da oração, da pureza e da felicidade terrena e eternal. E a cada vez que por nós passa, aumenta mais a sua ternura divinal, prorroga mais o tempo de perdão aos pecadores, e a distribuição do Bem aos que o acompanham na Fé, no Amor, na Justiça, na fuga do pecado, na dedicação às coisas do Reino de seu Pai que, por sua generosidade repassou a nós, com a vinda até aqueles que O amam e observam seus mandamentos.
E
o que fazemos nós, como recebemos essa visita de Cristo Salvador, a cada vez
que o passar dos tempos, nos apresenta a recordação solene dos acontecimentos
que culminaram com o estranho abandono temporário, por Ele, do paraíso
celestial, para assumir a humilde e triste personalidade do homem e aqui ,
feito homem também, sujeitar-se a todas as peripécias de uma vida terrena e
morrer nos braços de uma Cruz, numa triste tarde de Jerusalém, condenado a ela
exatamente por aqueles mesmos a quem veio salvar? Será que o mundo - esse mundo
atrapalhado, negativo, aproveitador, falso, desumano – se digna ao menos
curvar-se por um momento, meditar, orar, arrepender-se dos males que pratica ,
espalha, injeta sobre a sociedade de todos os tempos? Será que nos esquecemos
por momentos, por um dia, de nossos anseios de pecado, de prazeres condenáveis,
de falcatruas contra irmãos, de roubos, de crimes, de falso testemunho, de
desprezo, de guerras, de falta total de amor e carinho?
Ao
deus da loucura carnavalesca, espoucam-se rojões, cantam-se hinos, dança-se até
semi ou nus mesmo, passam-se noites em claro sob a luz dos holofotes, bebe-se,
pratica-se o sexo às escâncaras... Mas ao Deus que veio buscar –nos para levar
a humanidade ao Céu, totalmente ingratos, nem sequer lembramos de volver um
olhar de arrependimento e perdão, para o topo daquele monte escalavrado, onde a
Cruz se ergueu e de onde o Cristo, no alto, via o mundo inteiro para cuja salvação
agonizou e morreu.
Voltemos
ao menos nossa vista para esse túmulo que se abre para dar passagem a um
Salvador Divino que ressuscita, que retorna ao Céu, mas não mais como vítima do
nosso pecado, mas como glorioso mensageiro entre o Céu e a Terra, entre o Pai
e os seus filhos, entregando-Lhe
às mãos eternas o cetro da salvação humana.
A
Páscoa coroa, assim, a obra da Redenção humana. Ao menos nesse dia, sejamos
pessoa real, não só glorificando ao Cristo, mas confraternizando-nos entre
irmão do mundo, com o abraço do Amor e da Paz.
(abril 2006)