CRÔNICA POR QUE?
Lino Vitti
Por
que escrever crônica para um jornal diário? Por que perder espaço, perder
tempo, perder trabalho quiçá, para escrever e oferecer aos habituais leitores
aquelas tiradas cheias de tropos e metáforas, de estilo pegajoso beirando
poesia, locupletado de inverossemelhanças, cheirando muito de antigo e superado
nos tempos? Aliás o próprio termo crônica , por manter-se ligado à cronologia,
já leva os espíritos dos jovens escritores e leitores a supor nela conterem-se
também idéias rançosas, apreciações de antanho, paisagem tristonha que ninguém
gosta de ir ver, especialmente porque lembra fatos, pessoas, datas, história já
colocadas na voragem do ontem, pois cronômetro, de onde cronologia, já diz tudo
o que não agrada ao movimento , à novidade. Cronômetro é exatidão, é mesmice.
Por isso o pouco interesse à crônica, apesar de existirem excelentes
cultivadores dela, locais, nacionais e internacionais.
Crônica!
Ora, a crônica! Que é ela, contrariando tudo o que deixei expresso acima, senão
a manifestação profunda, materializada em letras, de um espírito criativo e
sábio que se propõe a registrar, em ordem e variedade de estilo e
conceituações, uma série de fatos, coisas, história, estados de alma de povos e
indivíduos, política, cultura, acontecimentos, veleidades? A Crônica, a
verdadeira Crônica, é intrujona, bota o nariz em tudo ,e aprecia invadir
qualquer campo de atividade humana, qualquer tipo de evento social, nacional,
internacional, urbano e campestre, grandioso ou do rés da camada popular.
Borboleteia com elegância e saber, pelos mais variados assuntos e situações,
muitas vezes com asas douradas da poesia, outras com a farpa contundente de sua
ira levada ao divino, porque o cronista, como não pode deixar de ser, escreve com
o coração cheio de amor, agora, cheio de ira, logo mais, segundo percebe nos
fatos e nas pessoas os intentos do bem ou do mal. Se um jornal tem um cronista,
é a sua mais valiosa conquista redacional; se uma revista tem um cronista é ter
à sua disposição uma capacidade inimitável de dizer o que precisa ser dito, com
carinho muitas vezes, com sabedoria outras tantas, com chicote da critica
outras muitas. E tudo é feito por ele em ordem, com verdade, com astúcia
literária, pois é um literato de mão cheia que contribui, e como, para um
jornal uma revista, um livro, uma rádio, uma televisão.
Não
faria, velho redator do JP que fui, estas afirmativas, não estivesse eu
estribado numa coluna capital da imprensa piracicabana, dr. Fortunato Losso
Netto. Trabalhava eu no Jornal de Piracicaba, ao lado de brilhantes redatores,
como sói sempre tê-los, e tinha a meu cargo escrever uma cronicazinha diária
chamada “Prato do Dia” . Losso me afirmava constantemente que antes de ler
qualquer coisa na edição matinal do JP, mesmo antes de seus próprios
editoriais, corria para o cantinho da crônica e a lia em primeiro lugar. Lia,
gostava ou não, criticava ou elogiava, mas deixava transparecer sempre a
importância jornalística que dava a uma crônica. E há mais: dez ou quinze anos
depois que deixou de ser escrito o “PRATO DO DIA” este escriba encontrava
muitos amigos e antigos leitores do JP que lhe indagavam: “seu Vitti, por que
não tem mais Prato do Dia?A gente gostava tanto!!!” É, devia ser tão bom como
um café da manhã com manteiga, iogurte, chocolate e o saboroso cafezinho
brasileiro, acrescento eu.
Não
é preciso dizer mais nada. Qualquer leitor entende com estas linhas quão bonita
e apreciada é uma crônica que enfeite um cantinho qualquer de um matutino. Quem
duvidar, pergunte ao espírito de Losso Netto que como um pálio de luz, de
ensino, de carinho e de amor, cobre com seu saber todo o ambiente e todos os
trabalhadores e colaboradores que nos dão o prazer da leitura diária do
centenário e cultural Jornal de Piracicaba, onde gastei gostosamente longos e
saudosos anos distribuindo crônicas aos seus incontáveis leitores.
Ou
então ao querido e saudoso Octaviano Assis, diretor do não menos saudoso e
querido “O Diário”, e mesmo ao caríssimo jornalista diretor de “A Tribuna”,
Evaldo Vicente; aquele, incentivador dos talentos cronísticos que o
procurassem; este, acolhedor sensível e generoso de velhos e jovens cronistas
em cujas páginas de seu jornal brilharam e brilham, sempre carinhosamente
editadas .