Crer ou não crer ...

Lino Vitti

       

Disse um dia Shakespeare: “ser ou não ser, eis a questão”. Dispenso o inglês porque sei que os meus prováveis leitores não são, em sua imensa maioria de meia dúzia, nenhum poliglota. Digo eu, agora, em vernáculo imitativo: “crer ou não crer”, eis o problema.

Trata-se, portanto, de dúvida transcendental, de saber-se se o convencimento de cada um crê ou não crê, porque assim receberá pela mesma linguagem da terra de cada qual o derivado gramático - lingüístico de Cristão ou de Ateu. O primeiro, convicto de que Deus existe; o segundo, não muito convicto de que não exista, e mesmo sem convicção, teima em defender a inexistência de um Ser Supremo que deve presidir, governar e levar avante essa coisa incompreensível que é o universo em seu todo e em seus detalhes, que é o Homem, masculino e feminino, em sua carne e em seu espírito.

A imponderabilidade e a transcedentalidade são atributos de Deus, para quem crê. O Nada, o Vazio, são momentos naufragáveis de quem não crê.

Estava eu a enfeixar frases, argumento, termos, explicações para esta difícil inexplicabilidade de Deus, quando, num átimo imprevisível adentrou-me a janela o fulgor de um raio e no mesmo átimo o fragor da deflagração instantânea da trovoada, um e outra espantalhos de crentes e ateus, pois essa luz, esse rumor, detonados do alto, sem aviso e sem condescendência, não dizem antecipadamente onde cair, a quem atingir. Ferem, matam, aniqüilam! Haverá acaso no âmago do infinito, em dia ou noite de tempestade, um Marconi, um Franklin, um Vulcano, um Volta, um terrível Ser Humano, ligando ciclópicos fios, ligando titanescos interruptores, fabricando usinas gigantescas de energia para deflagar, num só corisco, a enormidade espetacular dos elementos que se unem para assustar, destruir, matar? Para quem crê, é Deus que rege o Cosmos, por Ele Mesmo criado do nada; para o ateu, é um ponto de interrogação.

Serenou o temporal. Deixei, por momentos, o teclado martelinho. Estas crônicas são todas digitadas nesse museu datilográfico que a minha escrivaninha detem com todo o orgulho. Vou a um passeio pelo quintal, onde a esposa sustenta, a poder de vontade e perseverança, com a ajuda nem tanto, deste escriba, flores, folhagens, orquídeas, vasos e canteiros que são o terror dos fiscais dos pernilongos. E que vejo, nesse pequenino mundo em que há plantas, folhas e flores? Vejo a mão de Alguma Força Suprema, capaz de fazer brotar do solo, maravilhas florais, folhagens esplêndidas, orquídeas espetaculares. E fico a imaginar. Como pode esse metro quadrado de chão, criar uma roseira, fazê-la florescer com todas as cores e formas? Que mistério é esse em que este galho colore pétalas róseas, aquele outro, amarelas, outro ainda, brancas, angelicais; folhas redondas, folhas imitando coração, folhas oblongas; caules, a princípio delgados como um barbante, depois num se avolumando até ultrapassar a grossura de um dedo e de um braço humano. Eu me pergunto: por que estas primaveras se enfeitam de roxo, como semana santa, aquelas outras, de róseo como tonalidades do amanhecer? Por que estas orquídeas lembram tamancos holandeses, enquanto outras tremem e dançam (chamam-nas bailarinas) ao simples afago de uma brisa passante? A que força, a que ordens, obedecem todas essas plantas para assim se reproduzirem sempre as mesmas, anos após anos, séculos após séculos, iguais na forma, diferentes na categoria? Será que ouvem a voz de Deus, será que obedecem a um código divino que se perpetua tempos a fora?

Onde essas criaturinhas vegetais que me povoam o quintal e povoam, em expansão infinita, o universo, vão buscar tantas magnificências coloridas, tantas diversidades vegetais, tantos encantos para alegrar os olhos, tantos perfumes para agradar o olfato?

Seria loucura cronística querer, em lauda e meia, colocar a imensidade da criação, a obra de Deus Sumo, o espetáculo comprovador de sua onipotência e divindade. As Ciências que continuem pesquisando, as filosofias que continuem em sua eterna procura silogística, os incrédulos, tentando provar que Deus não existe! Cada vez mais nos convencerão que Deus tirou tudo isto que vemos, de que usufruímos, de que usamos e abusamos, simplesmente do Nada, inclusive o próprio Caos que antecedeu o Éden.

Crer ou não crer, é o quanto basta.

E concluo com dois versos do imenso poeta inglês Joyce Kilmer (Antologia Escolar para a Juventude de Henriqueta Lisboa, p. 91) :

“Qualquer néscio como eu sabe fazer poema, / mas quem pode fazer uma árvore? – Só Deus!”


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