CLAMOR PAPAL: “OUÇAM A TERRA!”
Lino Vitti
Há
muitos que entendem não deveriam padres, bispos, cardeais, o Papa – a Igreja
enfim – imiscuir-se em assuntos que não tratem de Fé, de Moral, de Deus e da
própria Igreja, tarefa a ser atendida pelos leigos, na pessoa do governo, dos
parlamentos, das escolas, das sociedades civis, da imprensa, da televisão.
Têm razão diriam
simplesmente os agnósticos, mas a nós, a mim que pertenço aos dois times
humanos - religioso e civil – e a todos os cristãos de qualquer credo, é lícito
e como que obrigatório tratar de todos os problemas e temas que existem ou
estão por vir, através de prognósticos fundamentados na vida e em tudo quanto
acontece no mundo, ligados à própria humanidade.
Muitos supõem e
defendem a tese de que só os especializados devem cuidar, por exemplo do uso da
terra, só os diplomados, só os profissionais que lidam com ela. É bom, é
louvável, porém,nesse caso, todos compreendam que interessa universalmente e a
cada um empenhar-se para sustentar a defesa do Planeta, naquilo que ele tem de
mais importante, valioso e indispensável: o bom uso do solo.
De outro modo, estaremos
condenados a uma quase, diria, vingança da Terra, pois o abuso humano sobre
aquilo que é a mais sagrada fonte de produção de alimentos, da condução e
conservação das águas, do equilíbrio universal do clima, de fator preponderante
na continuidade da vida, poderá ser atingido pela desgraça de um morte árida,
de uma transformação, lenta mas fatal, de um solo fértil, em deserto, de uma clima
produtivo em falta de umidade pluvial. Conseqüentemente faltarão as colheitas,
faltará o pão nosso de cada dia.
“Ouçam a Terra” clama o Papa,
num apelo profundo àqueles que ainda tenham a sensatez de respeitar o meio
ambiente de forma eficaz e real e despertar a consciência daqueles que, ao
contrário, parece ignorarem que abusar do meio ambiente é um gesto fatal de
destruição É ! Sobram motivos ao Santo Padre para conclamar o homem à razão. A
Terra fala, a Terra protesta, a Terra sente, a Terra adoece.Ela pede ajuda, ela
mostra as feridas provocadas pelo abuso humano, ela quer viver. Pede socorro,
grita que sejam respeitados seus direitos e valores. É mister então, como diz
Sua Santidade, cuja inteligência e cujos conhecimentos são proféticos, devem
ser ouvidos e levados em conta, que ouçamos a voz agoniada da Terra, como todos
sabemos, submetida a um processo desumano e abusivo de devastação, pela
ganância sibilina e fatal do homem, a quem foi ela entregue pelo Criador, como
prêmio e como razão de ser de sua alimentação, de sua continuidade de sonhos e
esperanças de riqueza, de bem-estar, de felicidade. Quando se põe abaixo pelo
poder da serra ou do machado, uma árvore, a Terra protesta, gemendo, roncando,
chiando, chorando ao cair do tronco em baque sobre o solo: quando se estende o
lençol de fogo das queimadas pode-se ouvir o clamor das frondes ou dos
capinzais, ou notar os gemidos e sentir o cheiro dos animais e pássaros
tostados pelas chamas, como se fosse o choro da natureza, como se a Terra
soluçasse diante da fatalidade atroz da sua destruição. E aquele fumo que
demanda o céu nada mais é do que a voz da Terra rumo a Deus, para que ele veja
o que a sua criatura é capaz de realizar em matéria de destruição.
E assim, através de
outros processos condenáveis, é fácil ouvir o murmurar da Terra, em dores e
agonias, morrendo tristonhamente, ululando de sentimento e impotência de se
defender.
Que fatos são esses,
que dignidade é essa, a que loucura humana estamos assistindo, tão dolorosos a
ponto de um Sumo Pontífice, voltar para eles a sua profunda atenção, fazendo-o
proclamar um tão doloroso clamor: “Ouçam a Terra, ou se arrisca a destruir sua
própria existência”?