Casulos

Lino Vitti

         

          Casulo não parece nada. Invólucro de seda, apenas enrolado, enrolado, enrolado, dia e noite, pelo bicho-da-seda, fechado hermeticamente, como um túmulo, sem luz, sem ar. E dentro dele vegeta a vida, escondem-se maravilhas. É o botão donde brotarão asas e antenas, para procurar o mel das flores coloridas e atraentes. Daquela escuridão sairá a luz como se madrugasse num minúsculo mundo. Imóvel, contem o rumor de asas, contem o vôo da borboleta, contem a trombazinha móbil que suga as corolas. E da mobilidade vegetativa surgirá o movimento que vai de flor em flor, de vergel em vergel, sorvendo mel e pólen.

Quem vê um casulo, vê morte, mas quem sabe o que é um casulo vê vida, vê ressurreição, pois desse emaranhado tecido sobre si mesmo, prenuncia-se a borboleta. E que é uma borboleta ? Por que uma borboleta ? Ela é a beleza saída da feiura, é o encanto saído da larva. Porque a borboleta é a antípoda da feiura, é o vôo do que era inerte, é o sonho de um raio de sol. É a larva a quem dão asas coloridas e sedosas, para bebericar nos cálices floridos. Ao contemplar uma borboleta jamais a nossa incapacidade de julgamento dirá que dentro de breves dias a morte deterá o vôo do inseto que deitará sobre o limbo verde da folha os óvulos de futuras larvas que comerão a seda da folhagem e num processo sublimado de transformação, farão logo casulos de seda e rebentarão em novas flores esvoaçantes ao calor da vida e à vida do sol.

Não há no mundo fábrica de tecidos tão perfeita como a dessa larva que constrói o seu casulo, diria o seu túmulo para a ressurreição, um tempo de treva absoluta para ressurgir – pequena imagem da ressurreição de Cristo – para a glória de uma efêmera vida, voadora e doce. Está para aparecer quem trabalhe tão intensa e continuadamente como o fabricante de um casulo. O homem falece diante do inseto. A inteligência sucumbe diante da perfeição.

          Casulo – sarcófago que abarca a vida ao invés da morte – que enfurna a beleza na figura de uma feia e desengonçada larva, prenúncio de uma borboleta encantadora e dona da amplidão azul.

          Tempos houve em que convivi com a criação dessa sabedoria da natureza que é a transformação do verdor da folha da amoreira em fio longo e intérmino de seda, através do tecedor bombix, comumente dito bicho-da-seda. A princípio, é necessário estender o amoreiral, o quanto mais próximo do rancho ou salão onde se pretende criar as larvas. Basta simplesmente enfiar no solo pedaços de varas da planta, para em breve surgir a plantação verdejante, de um verde-escuro, folhas largas, tenras, fresquinhas para o paladar do bicho-da-seda. Colhê-las e estendê-las sobre os imensos tablados onde formigam as larvas, é operação curiosa pois, esfomeadas como são, devoram em poucos minutos quilos e até toneladas do alimento verde e macio, ouvindo-se ressumar de sob a forragem um rumor de milhares de pequeninas dentaduras “serrando”, “serrando” gulosamente. Passadas poucas semanas aquelas larvinhas quase invisíveis, viram larvas graúdas, quase do tamanho e grossura de um dedo que, paulatinamente, vão amarelando, amarelando, tomando a cor do casulo, quando se diz estarem “maduros”. Começa então a faina construtiva. O bicho inicia a operação tessitura, requebrando-se por entre ramagens secas, adrede preparadas, de um lado para outro, sobe e desce, vira à direita, vira à esquerda, gira e regira sobre si mesmo em voltas infinitas, levando pela boca o fio sedoso e aí se percebe que o casulo vai fechando, vai fechando e envolvendo dentro de si o próprio inseto fabricante. E o casulo toma a forma definitiva, sem porta e sem janela, mas trazendo enterrada dentro de si a larva construtora que, em breve, a deixará escapar do invólucro em forma de feliz e efêmera borboleta.

          E o ciclo então se repetirá, e a borboleta porá no mundo milhares de novos ovículos, para gáudio do criador e para a vinda de novos milhões de “fabricantes” de seda valiosa e linda que um dia foi uma simples verde e lustrosa folha de amoreira.

 

(2007)

 

 

 

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