ANÔNIMAS CRUZES

 

Lino Vitti

 

 

            Quando menino roceiro, vivendo e desfrutando a liberdade da roça, como a desfrutaram as aves e bichos silvestres dos tempos de então, era salutar costume e diversão alegre percorrer os caminhos , aliás os velhos caminhos, cujo destino levava a bairros diversos ou a bairro nenhum, talvez a roças e propriedades vizinhas , como escoadouros dos produtos da lavoura.

            Como à época ainda se podiam contemplar, florestas virgens luxuriantes, bordejavam aqueles caminhos silentes. Digo silentes porque não havia o rumor dos motores de transporte ou de serviços rurais, das carretas, dos tratores e dos arados mecânicos, hoje tão comuns e tão barulhentos que chegam a espantar a vida rural silvestre , afugentando pássaros e animais . Como ficaram distantes no tempo, o uso e o trato de burros, bois, cavalos, com os quais viviam os lavradores em constantes “bate-bocas”, porque parecia à minha infância que burros, cavalos, e outros animais usados na roça, eram um tanto xucros e teimosos.

            Não é disto entretanto que pretendia discorrer nesta crônica . Escrever sobre cruzes, eram meus propósitos iniciais. Vieram à burla outros assuntos porque os caminhos de que tencionava discorrer estão simbiosamente ligados à roça, á vida campestre, ao homem que mora distante ás vezes da urbe. E esses mesmos caminhos se unem à existência dessas cruzes anônimas que os povoam muitas vezes, surgindo à margem deles, como uma advertência, um símbolo, uma notícia acontecida, um fato ou pessoa marcados dentro da história que os envolve.

            Uma cruz, erguida, solitária e triste, à beira de um caminho rural, é fatalmente uma indicação inarredável de morte. Fala que alguém encontrou aí o fim de sua existência, seja por acidente, seja por crime, seja por uma fatalidade qualquer, como um raio, uma queda, um afogamento, uma árvore que tombou pela força da ventania, sobre algum infeliz que sob ela se abrigara.

            Muitas cruzes anônimas das estradas campestres indicam vingança, ódio, ou amor. Sim, porque na roça as desavenças em geral findam dessa forma, e o desiludido ou traído no amor escolhe sempre a solidão de um caminho para tirar o rival de sua frente, ou para dar fim à vida de sua ex-amada. Os compadres que não se entendam, os vizinhos que não consigam combinar, os roceiros esbulhados pelos colegas de lavoura, as falcatruas nos negócios, as tentativas de enganar-se um ao outro, acabam em geral num ponto do caminho onde casual e fatalmente se encontraram os comparsas da desavença. Os namorados ou maridos traídos, ao topar ou avistar o rival em meio de um caminho, não pensam duas vezes e a vingança é rápida e integral: a garrucha estronda ou a faca reluz ao sol ou à lua. E depois, a cruz, a cruz anônima é fincada tosca e tristonha no local do crime, para contar muda e indubitavelmente aos que passam por ela, a trágica história de uma traição amorosa, de uma vingança pessoal, de uma tramóia prejudicial a uma das partes, de uma negociata escabrosa.

            Cruzes há cujo destino é mais glorioso do que aquelas míseras cruzes que falam tristonhamente pelos caminhos rurais. São aquelas que se alcandoram no topo das torres das igrejas ou das capelas da roça, ou sobre as lápides dos campos santos. Destino mais condigno, o destas cruzes, pois simbolizam uma vida que foi rica em trabalho, em vitórias, em conquistas. Aqui jaz... e lá surge um nome pomposo e famoso, bem diverso, daquele toscamente gravado nos braços da cruz da estrada, onde não há flores que as enfeitem como aquelas, onde não há quem se ajoelhe para uma oração àquela ou àquele que aí jaz.

            E que me dizeis, vós amigos e leitores, daquela cruz imensa, sangrenta, que um dia se ergueu, como um troféu de salvação, no alto do Gólgota? É a cruz onde pregaram um Deus! Onde um Deus Filho clamou pelo Pai, onde um Deus Filho sofreu sede e se esvaiu em sangue, e morreu para que não houvesse cruzes ao longo dos caminhos campestres e os caminhos da vida! Na sua imensidade e no topo de um monte, bem daria para ser vista e compreendida por toda a humanidade porque salvação da humanidade ela é, síntese de todas as cruzes do mundo!

 

(jan. 2006)

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