Amor, amor, amor

Lino Vitti

     Tudo e todos, vida a fora, vão em busca desse algo profundo, ancorado no imo da pessoa humana, vislumbrado em todos os escaninhos da natureza, disperso pelo Criador do Universo, quer no convívio dos animais, quer no aconchego dos ninhos das aves, quer no marulhar sem fim dos rios e regatos que buscam o infinito oceano, quer no afago delicado das brisas que beijam as frondes e os capinzais, os jardins e as montanhas, quer no milagre do Sol entregando-nos de graça e com alegria o seu brilho e o seu calor, quer na suavidade dos luares sedosos que empurram para além os temores das trevas, quer nesses milhares de cantos que brotam das gargantinhas sonoras dos pássaros músicos, quer nesse escândalo colorido de flores que pintalgam o mundo, e se transformam em frutos saborosos... E não acabaríamos nunca de mostrar onde a mão e a sabedoria divina colocaram sua inteligência a serviço do amor, para alegria e felicidade de sua criatura!

        Cruzam-se dois olhares jovens, estuantes de vida e de sonhos. Desse minuto de luz, saído da alma pode brotar a chama do amor. Pode e deve, porque a juventude é por excelência o repositório do Amor, desse que lança para longe os possíveis empecilhos, vence todos os obstáculos, enreda-se ao que lhe é correspondido e se transforma num paraíso conjugal, se transforma numa eterna doação, porque o amor é principalmente doação, convivência, perdão, prazer e prece. Ele – o amor – é semente que germina regada pelo prazer e que por extraordinária determinação criadora, se transforma em flores , a que chamamos de filhos, netos, bisnetos. E filhos, netos e bisnetos serão outras tantas forças a levarem para diante, na sucessão dos tempos, a vida e dar continuidade ao milagre profundo do amor.

        Figuremos agora nos encontrarmos num lar onde mora a felicidade do amor. Pais, filhos, todos são tocados por essa divina essência, querem-se uns aos outros, alegram-se uns com os outros, perdoam-se uns aos outros, riem ou choram uns e outros pelas mesmas razões e pelos mesmos motivos. Aí vegeta decerto o amor. Aí decerto há compreensão, justiça, bem-querer, respeito e dignidade, frutos todos pendentes e maduros da árvore generosa do amor.

        E que me diríeis vós, caríssimos leitores, de um cidadão, todo pleno de saúde, todo esperança e futuro, deixar o lar para servir a Pátria ou servir a Fé? Que impulso grandioso abrigarão em seu coração esses jovens desejosos de dedicar sua vida para segurança dos patrícios ou para a esperança do Além, senão o Amor? Quem serve à Pátria ama o seu país, ama seu povo. Quem serve à religião ama da mesma forma a sua terra, os seus concidadãos, e aspira levá-los ao Supremo Amor que é Deus.

        E o que faz o mestre se dedicar, com tanto carinho, com tanta abnegação, muitas vezes com sacrifícios e dores, para transmitir aos alunos, seus semelhantes e compatriotas, os conhecimentos, a cultura, os trilhos de um caminho importante e superior para chegar aos pináculos do saber? Nada mais que o Amor.

        Acaso diríeis que é também o Amor que leva essas legiões de pessoas a desbravar o solo, a lançar nele a semente, a colher e distribuir os alimentos da terra aos seus concidadãos, a abastecer o mundo daquilo com que matar a fome, com que progredir, com que usufruir o bem-estar, com que viver enfim? Respondo que sim, pois o amor é feito de trabalho e de doação da vida em prol de seu semelhante. É caridade e é sofrimento. Mas também alegria e reconhecimento.

        Espio, pela janela. E o que vejo? Azul, o Sol, árvores verdejantes ou florescidas, nuvens viageiras trabalhando de correr céu afora, despejando benéficas chuvas. Tudo para servir ao homem, tudo pelo amor que a natureza lhe devota e o quer ver cada dia mais feliz.

        E se fora eu continuar estas linhas escrevendo desse santíssimo e humaníssimo sentimento que povoa o mundo, não chegaria jamais ao fim, porque o Amor é algo infinito, é algo que vem de Deus e para Deus retorna, se os depositários do amor que somos nós – humanidade – soubermos fazer dele um degrau da imensa escada para o Céu.

 


7/2004

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