Suzana
Aguiar Santos
Lúcia
Miguel Pereira[1]
disse, na biografia que fez de Machado, ser ele tímido, introvertido e
reservado em sociedade. Mas em sua obra, parece-nos que ele revelou-se
exatamente o contrário: conversador e comunicativo, fala ao leitor às vezes de
maneira até carinhosa.
Diz
Eugênio Gomes[2]
que Machado aprendeu com Fielding e Thackeray a demonstrar em seu texto a
preocupação com o leitor. Henry Fielding conversava com o leitor de maneira a
deixá-lo à vontade, assim como Thackeray. Gomes também acha que o humor de
Swift, assim como sua estilo de formas livres (também manifesto em Xavier de
Maistre) exerceram influência em Machado, que era
leitor destes romancistas ingleses.
Este
romance é narrado em tom de confissão. A personagem, no fim de sua vida, conta
ao leitor como esta se desenrolou, colocando no centro de tudo o romance que
viveu. O tom em que é feita a narração permite-nos imaginar o narrador, tendo
o leitor sentado a sua frente, a contar sua história, numa atmosfera de
absoluta intimidade. Machado fala diretamente ao leitor em diversas passagens do
livro, e o leva aos locais onde aconteceram os pequenos fatos que compõem a
trama, colocando-o junto a Bentinho em seus flashbacks de Bentinho. Podemos
imaginar aí leitor e narrador andando juntos como dois camaradas .
O
objetivo deste trabalho é analisar como também como é o leitor imaginado por
Machado e como ele trata esse leitor ao falar com ele, e ainda quais suas intenções
durante esta fala. Analisei.
No
Cap. I, já pensando que o leitor
gostaria de saber o que inspirou o nome do livro, Machado conta o fato que
trouxe-lhe tal nome à idéia. Então, vem a primeira fala direcionada ao
leitor: “Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que
eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo.”
No
Cap. II, 1º parágrafo, ele diz: “Agora que expliquei o título,
passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a
pena na mão.” Antes de contar ao leitor a história, ele dá-se ao trabalho
de explicar por que resolveu contá-la e até mesmo por que deu ao livro o nome
de Dom Casmurro! É um livro feito em interação com o leitor, ou pelo menos
com o leitor imaginado por Machado.
Machado
de Assis, em Dom Casmurro, cria um leitor que torna-se também personagem do
romance. Isto ele até confessa, ao chamá-lo “leitor das minhas entranhas”[3].
E como é esse leitor que ele imagina?
Em várias
passagens, Machado caracteriza seu leitor, chamando-o por vezes de amigo[4]
quando o imagina um, ou dizendo “senhores”
[5]
quando imagina uma platéia de ouvintes a quem está a contar a história. No
Cap. LVIII, ao contar das imagens femininas que assaltavam sua imaginação, e
mostrar que em seu ponto de vista estas visões eram pecaminosas, Machado, de
dentro de sua personagem Bentinho, invoca seus leitores para adivinhar como
venceu estas visões, chamando-os de “Sábios da Escritura” [6].
Aqui ele imagina um conjunto de leitores religiosos, que saibam o que são as
tentações da adolescência.
Machado
também pensou nas mulheres que leriam seu livro, e dirigiu-se a elas. Em
algumas passagens, ele as trata casualmente,
como no Cap. CV, 3º parágrafo, em que
compara os braços da leitora com os braços de Capitu: “Eram
belos,...” (os braços) “... não creio que houvesse iguais na cidade,
nem os seus, leitora...”. Nesse “leitora” ele inclui as leitoras moças
e as que ainda não haviam nascido na data, que foi: “... a primeira noite que
(Capitu) os levou nus a um baile...”.
Machado
invoca a leitora também no Cap. CX, 9º par., ainda de maneira
casual: “A leitora, que ainda se lembrará das palavras...” e cobra sua atenção!:
“... dado que me tenha lido com atenção...”.
Mas
em outras passagens o tratamento à leitora é respeitoso, e ele a chama de
“dona leitora”[7]
ou de “leitora castíssima”[8],
emprestando um dos superlativos de José Dias (uma das personagens do romance).
Apenas
depois de cento e dezenove capítulos de conversa Machado fala com a leitora de
uma maneira mais carinhosa e próxima. Acrescento aqui o capítulo, por ser
curto.
NÃO
FAÇA ISSO, QUERIDA
A leitora, que é minha amiga e abriu este
livro com o fim de descansar da cavatina73
de ontem para a valsa de hoje, quer fechá-lo às pressas, ao ver que beiramos
um abismo. Não faça isso, querida; eu mudo de rumo.”
O
capítulo foi copiado exatamente como está na edição de Dom Casmurro
utilizada, e sublinhei as passagens que julgo serem um tratamento íntimo de
Machado à leitora. O fato de ele falar da rotina da leitora (indo de uma festa
a outra) também mostra que ele imagina a esta altura uma intimidade, tanto que
“sabe” o que ela está fazendo.
Além
de pensar nos leitores homens e nas leitoras, Machado limitou entre estes
“leitores” os padres, na passagem em que fala do seu costume de
prometer orações e não cumprir: “Padre que me lês, perdoa este recurso;
foi a última vez que o empreguei.”[9];
e os rapazes, no capítulo chamado “Amai, Rapazes!”[10]
Mas
a pessoa que eu mais me admiro de ter ele imaginado lendo seu livro foi D.
Sancha. Sim, ele fez um capítulo para D. Sancha, o Cap. CXXIX: “A D.
Sancha”, que começa assim: “D.
Sancha, peço-lhe que não leia este livro;...”!
Ainda
nas características do leitor concebido por Machado, podemos dizer que este nem sempre é passivo, embora suas
atividades sejam sempre reações a estímulos do narrador ou dos fatos narrados
por ele. E o leitor é ativo ao tomar conclusões com Bentinho: “Como vês,
Capitu... tinha já idéias atrevidas...” (Cap. XVIII, parágrafo 27) e Cap.
XXX, 1o. par.: “Terás entendido que...”; é ativo ao achar
exagero na declaração de Bentinho no Cap. XXXIII: “Se isto vos parecer enfático,
desgraçado leitor, é que...”; é ativo ao abanar a cabeça, incrédulo,
jogando longe o livro, no Cap. XLV, 1o. parágrafo; também ao
censurar Bentinho e Capitu, no Cap. XLIX e principalmente ao ler o livro que
Bentinho está a escrever – consulte para conferir, o Capítulo CXIX: “Não
faça isso, querida”, anexado
logo acima.
E
finalmente, o leitor que Machado imagina é curioso. Por isto Bentinho já começa
a história explicando o nome do livro e por que resolveu escrevê-lo; e o Cap.
CXLIV, “Uma Pergunta Tardia” é feito em torno de uma pergunta do leitor.
Podemos
perceber então, que em Dom Casmurro, além das personagens comumente
reconhecidas, há o leitor-personagem, também criado por Machado de Assis. E
este personagem, que é universal ao incluir todos os leitores, movimenta-se
pela trama caminhando ao lado do narrador e olhando os mesmos quadros que este
está a ver, comentando-os, concordando com o autor ou discordando dele em suas
opiniões.
Sempre
que numa passagem de seus livros Machado fala ao leitor , ele tem uma intenção,
fato óbvio em si. Vamos analisar aqui quais são as intenções perceptíveis
no livro Dom Casmurro.
Já
apontei que no início do livro Machado fala ao leitor para explicar-lhe o nome do livro e a razão de tê-lo escrito.
No
Cap.II, localizamos mais uma fala de Machado ao leitor. É no último parágrafo:
“Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde...”. Aqui ele convida o
leitor a participar de suas reminiscências, e para a confecção do livro
resultado desta interação escritor-leitor.
Logo
mais no Cap. VIII, Machado inicia o capítulo assim: “Mas é tempo de tornar
àquela tarde de novembro...” , e este texto tem a função de retomar com o leitor a narração
da história, após uma digressão.
No
Cap. X, Machado chama o leitor de “amigo”, e de “meu caro leitor”[11].
Após revelar um pouco de si, Bentinho (e dentro dele Machado de Assis) trata o
leitor de forma mais íntima. Estes vocativos tem o objetivo de criar a
intimidade buscada pelo escritor.
Há
no Cap. XVI uma palavra que Machado insere em seu texto com a intenção clara
de fazer o leitor sentir-se dentro da trama, e fazê-lo acompanhar
a personagem Bentinho em sua viagem de reminiscências. É no 1º parágrafo:
“...mas a mulher, esta D. Fortunata
que ali está à porta...” (grifo nosso). Ao usar o pronome demonstrativo
“esta”, Bentinho está mostrando ao
leitor algo que vê: o leitor está lá também, dentro da história!
Mais
uma mostra de que Machado busca interagir
com o leitor encontra-se no Cap. XXX, 1º par.: “Terás entendido
que...”. Após contar do coche imperial que viu passar e das fantasias que
teve após isto, Machado chama o leitor a tirar
conclusões juntamente com Bentinho. E
no Cap. LXII, Machado diz ao leitor: “... se o não achas por ti mesmo,
escusado é ler o resto do capítulo e do livro, não acharás mais nada, ainda
que eu o diga com todas as letras da etimologia.”[12]
No
Cap. LIX, pensando nas falhas que possa cometer Machado prepara o leitor para
perdoá-lo caso as encontre: “...preencho as lacunas alheias; assim podes também
preencher as minhas” (último parágrafo). Em outra passagem, Machado chama o
leitor a ajudá-lo com a correção do livro para dar-lhe coerência:
“...avisa-me, leitor, para que o emende na segunda edição.”[13]
A
intenção de acalmar o leitor, quanto
às suas frequentes digressões, aparece em algumas passagens como a do início
do Cap. CI: “Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si,
morto de esperar, e vá espairecer a outra parte;”, e também no Cap. CIII, 1º
parag.: “... não as ponho aqui para ir poupando papel...”.
Durante
a narração, quando Bentinho lembra-se de um fato que relaciona-se ao que ele
está a contar no momento, ou quando surge um fato secundário ao enredo
principal ( história dentro da história), Machado insere capítulos ou falas
introdutórias que são como pequenos prefácios aos assunto que será
acrescentado. Ele dirige-se ao leitor em um destes “prefácios”
no Cap. CXXX, 2º parágrafo: “... Perdão, mas este capítulo
devia ser precedido de outro, em que contasse um incidente, ocorrido poucas
semanas antes, dois meses depois da...”. O Cap. CXXXIII também é um capítulo-prefácio:
neste capítulo, Bentinho fala de como ele teve uma idéia que conta apenas no
capítulo seguinte.
Segundo
a análise feita, Machado dirigia-se ao leitor de Dom Casmurro com intenções
específicas: para dar-lhe uma explicação, para colocá-lo dentro da trama,
para retomar com ele um assunto, para mostrar-lhe algo, para pedir do leitor
conclusões, para prepará-lo para os erros que poderá ter o livro, ou para
introduzir um assunto.
Conclusão
Fica a idéia: se Lúcia Miguel Pereira registrou que em público Machado mostrava uma personalidade introvertida e pouco se abria, e em sua obra ele revelou-se falante como Fielding, o desembaraçado conversador inglês, não seria isto porque Machado sentia-se íntimo do leitor que criou enquanto que com as pessoas que encontrava no meio social ele não ficava à vontade? Miguel Pereira afirma também do desprezo de Machado pela sociedade. Podemos dizer então que ele não era tímido, apenas desconfiado e talvez desdenhoso...
Isolado do convívio social e
misantropo, Machado criou o leitor-personagem para ser depositário de suas
considerações literárias, para poder revelar a alguém seu modo de ver o
mundo. Mas este tema já é matéria para outra análise, e esta termina aqui.
ASSIS,
Machado de. Dom Casmurro. 9a. edição. Ed. Ática, São Paulo, 1979.
GOMES, Eugênio.
“Fielding”, “Thackeray” e “Sterne” em: Machado
de Assis - Influências Inglesas. Editora e Distribuidora Pallas S.A em convênio
com Instituto Nacional do Livro - MEC, 1976.
PEREIRA, Lúcia Miguel. Machado de Assis. 4a. edição. Gráfica Editora Brasileira Ltda, São Paulo, 1949.
[1] No livro “Machado de Assis”, Cap. I.
[2] Estas considerações foram registradas por Eugênio Gomes em seu livro “Machado de Assis - Influências Inglesas”
[3]
Cap. LXII, 3º parágrafo.
[4]
Cap. X, 2º parágrafo: “Eu, leitor amigo,....”; Cap. LIV, 1º
par.: “Não, senhor meu amigo;...” e ainda Cap. XLI, par. 21: “Por
outro lado, leitor amigo, ...”.
[5]
Cap. LV, último parágrafo.
[6]
Cap. LVIII, Parágrafo último.
[7]
Cap. LXIII, 1º parágrafo.
[8] Cap. LVII, 1º parágrafo.
[9] Cap. LXVII.
[10] Cap. LXXXVI.
[11]
Ambas as referências são ao 2º parágrafo.
[12] 4º parágrafo.
[13] Cap. LXVII, antepenúltimo parágrafo.