O silêncio dos pseudo inocentes
Não se pode afirmar que a nossa
geração é calada no sentido literal da palavra, de forma alguma. Ela emite fonemas, ruídos,
resmungos, ora imperceptíveis, ora veementes, embora, através dos mesmos, freqüentemente nada
diga de substancial ou inédito. Há, felizmente, raras e brilhantes exceções. Porém,
são, sobretudo, raras.A juventude brasileira sabe muito bem repetir o que lê e ouve e o faz insistentemente,
com certa desenvoltura até.
Com o passar do tempo, aperfeiçoa-se
nesse "método inconsciente", utilizando-se de avançada técnica em prol do "plágio
ideológico", ainda que não intencional, ainda que sem má fé. Tal procedimento
é, no entanto, compreensível, haja vista que é mais fácil reciclar o que já
está pronto do que tentar criar algo inédito. É menos estressante, mais cômodo, por
exemplo, tomar as crônicas de Arnaldo Jabor como verdades incontestáveis e fazer resenhas a respeito
das mesmas, do que tentar encontrar uma nova linha de pensamento.
Será que a culpa disso é
da "Folha de São Paulo", da "Globo" ou do "governo"? Será que se pode
responsabilizar apenas os meios de comunicação pela "audição em uníssono"
da opinião pública dos jovens, pela visão coletiva dos fatos e progressiva deturpação
do senso crítico individual? Será que os próprios jovens não têm a sua parcela
de culpa considerável nesse processo?
Tem. E, talvez, muita. Afirmo isso a partir
do momento em que a maioria dos estudantes, quando tem de se defender de acusações como: "Vocês
são uma geração calada, inexpressiva", se prende à desculpas esfarrapadas que
nem de longe se aproximam de uma justificativa, tais como colocar a culpa no governo, na família, nos meios
de comunicação ou na sociedade num âmbito geral pela ausência de capacidade e/ou criatividade
ao expressar suas idéias.
É fato consumado que o governo
tem culpa nisso, bem como os meios de comunicação, o sistema educacional deficitário, os professores
mal preparados e até mesmo o núcleo familiar, direta ou indiretamente. Porém, isso não
justifica a preguiça mental, o comodismo e a fuga à evolução intelectual por parte
de uma maioria relevante dos estudantes desse país. Não se pode ficar esperando que o governo resolva
investir expressivamente na educação, que os meios de comunicação priorizem os programas
culturais (até porque são empresas que, como qualquer outra, visam lucro e portanto mostram aquilo
que a maioria brasileira quer ver, pois, se fizerem o contrário, quebram. E a programação
de nossos meios é, sobretudo, o espelho de nossa cultura); não se pode aguardar que surja de fora
o incentivo à leitura, à formação do senso crítico, à busca da opinião
própria e da visão clara dos fatos. Não se pode permanecer preso à utopia de que "as
coisas vão melhorar".
A "imunidade ideológica"
de um ser humano, a liberdade de enxergar as coisas como elas são sem influências desta ou daquela
corrente, a fluência na colocação de suas idéias, seja verbalmente ou na forma escrita,
não é conquistada facilmente, mas através de muito empenho pessoal, de muita força
de vontade, de um espírito grandioso que clama por liberdade não somente de expressão, mas
de criação.
Um jovem estudante brasileiro, seja de
qual grau for, tem duas escolhas: assume a responsabilidade pela sua própria formação intelectual
e empenha-se na busca da mesma, ainda que sozinho em sua jornada, com o objetivo de se tornar, na medida do possível,
uma "cabeça pensante" ou se entrega ao comodismo, à preguiça mental, aguardando
que o governo, o ministro, a família, a "Globo", seu periquito ou Peter Pan lhe traga de bandeja
os conhecimentos necessários dos quais necessita para fugir do estereótipo de "geração
calada", que fala, fala, fala, mas, em síntese, não diz nada. A escolha é sua.
T. Leonardo Alves
da Fonte
São Carlos, 15 de março de 2000.