A música e a reprodutibilidade técnica

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Talvez a internet não se constitua realmente, como dizem, numa grande contribuição para a democratização do acesso aos bens culturais, dado o número ainda insignificante dos que a ela têm acesso, mas certamente se constitui numa mudança qualitativa da reprodutibilidade técnica, para a qual o filósofo alemão Walter Benjamin já chamava atenção "... a reprodução técnica da obra de arte representa um processo novo que vem se desenvolvendo na história intermitentemente, através de saltos separados por longos intervalos, mas com intensidade crescente".

Se por exemplo, no caso da música, o centenário "vinil" permitiu trazer a orquestra para dentro de nossa sala de estar, a sua audição era praticamente individualizada. Muito pouco se modificou com a utilização da já abandonada "fita magnética", que contava na melhor das hipóteses - como o livro conta com cinco leitores para cada livro comprado - com cinco ouvintes para cada disco reproduzido.

Ora, esses arquivos de extensão ".mp3" podem não ser o salto ao qual se referiu Benjamin, mas sem duvida referem-se ao menos a um crescimento da intensidade da reprodução técnica. A reprodução de um "vinil" só era possível dentro da própria indústria fonográfica, a indústria tinha a exclusividade da reprodução. Com a fita magnética, abriu-se pela primeira vez a possibilidade da reprodução caseira dos discos, mas estas por sua vez tinham apenas a possibilidade de circular entre pequenos grupos de amigos, o que já era motivo de grandes intervenções por parte da indústria fonográfica contra a chamada "pirataria".

Os arquivos de extensão ".mp3", além de permitirem a reprodução com um simples "clique" com o botão direito do mouse, têm a vantagem de circularem entre milhões de pessoas, como por exemplo, os usuários do software "Napster", sendo que este último já conta nos Estados Unidos com medidas judiciais contra sua utilização, patrocinadas pela única lesada neste processo: a indústria fonográfica. O que tem se revelado inútil, pois este software possui pelo menos dez sucessores imediatos prontos para substitui-lo.

Muitos já abandonaram o (tão logo velho) hábito do consumo da mercadoria CD, os museus e as estantes de colecionadores parecem ser os destinos mais próximos desses objetos. Pode-se hoje conseguir gratuitamente qualquer atividade artística expressa na forma de música feita no mundo. Tudo isso sem contar com o estúdio de gravação que pode ser um computador caseiro de onde se consegue gravações com qualidade muito próxima às conseguidas nos estúdios profissionais. Esses dois fatores somados abrem a possibilidade de se produzir e ouvir música por opção, e não por imposição, de cima para baixo.

Mas o que realmente se revela novo nesse processo é a ausência da materialidade da mercadoria, a ausência do objeto, o que certamente se constitui num obstáculo difícil, senão intransponível para a industria cultural. Ainda que seja pelo simples fato de nós consumidores termos a necessidade de apalpar os objetos do desejo antes de compra-los. Talvez estejamos nesse momento dentro de um processo revolucionário, sem ao menos termos percebido; se a música não puder mais ser vendida e comprada, deixa de ser mercadoria; ao deixar de ser mercadoria, talvez volte um dia a ser apenas música.

 

Paulinho Possar

Sociólogo

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