As Citações Bíblicas em Dom Casmurro

Paula Cristina Bulio

  Ler Dom Casmurro é sempre uma experiência singular, que nos traz uma novidade, um imprevisto a cada nova leitura.

É interessante notar as inúmeras citações bíblicas feitas por Machado de Assis durante todo o livro, mais que isso, é notar que na época em que o Romance foi escrito, estávamos vivendo o movimento literário chamado Realismo, no qual predominava a razão sobre a emoção e conseqüentemente o antropocentrismo sobre o teocentrismo. E, mesmo assim, na maioria das obras Machadianas, temos a constante e intensa presença da religião, em especial na obra Dom Casmurro, na qual a primeira trama acontece devido ao fato de a mãe de Bentinho, D.Glória, ter feito uma promessa a Deus pela vida de seu filho. Esse é um dos motivos pelo qual é fácil descobrir a cultura de Machado de Assis: um conhecedor profundo da Escritura É incrível como este consegue encaixar as citações relacionando-as com o conteúdo e o enredo da história.

            Talvez o texto que se seguirá poderá tornar-se um tanto tedioso, mas será proveitoso observar como as passagens Bíblicas se constituem na obra, ou seja, o contexto, como e quando elas estão inseridas. Primeiramente citarei o capítulo e o momento em que foram introduzidas por Machado de Assis, após descreverei as passagens bíblicas e, se necessário, algumas observações. ( a Bíblia utilizada foi a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, da Editora Novo Brasil )

             Já no capítulo 16 O Administrador Interino – temos o fragmento: “Não desprezes a correção do Senhor: Ele fere e cura.”, essa passagem encontramos no Livro de Jó 5 – 17,18: “Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige; não desprezes pois a correção do Senhor. Porque ele fere, e cura, dá o golpe, e as suas mãos curarão.”. Padre Cabral atribuí ao pai de Capitu a mesma lição de Elifás a Jó.    

            No Capítulo 36 – Idéias sem Pernas e Idéia sem Braço – observamos duas citações do Livro Cântico dos Cânticos, é um notável ver que nesse Livro do Antigo Testamento, ao qual muitos atribuem o  fato de que seria uma alegoria para exemplificar o amor de Deus para com seus filhos, o marido trata a esposa de “minha amiga”, assim como Bentinho trata sua amiga, namorada e esposa: Capitu.

Voltemos as citações: “Aplique ele os lábios, dando-me o ósculo da sua boca.”, essa passagem demonstra o  acontecimento em que Bentinho queria beijar Capitu subitamente e acrescenta que não sabia nada da Escritura, porque se soubesse, teria obedecido a esse versículo; Já na Bíblia: 1-2: A esposa anseia pelo seu esposo ( perceba a coincidência implícita no livro e evidente na Bíblia sobre o fato de que Bentinho vacila ao querer beijá-la, mas na Bíblia a esposa é quem anseia pelo esposo ) “Aplique ele os lábios, dando-me o ósculo da sua boca, porque os teus amores são melhores do que o vinho.”

Nessa passagem, gostaria de colocar uma observação sobre a diferença entre as traduções da Bíblia, a tradução revista por Frei João Pedreira de Castro, da Editora Ave Maria, temos o mesmo trecho, com o mesmo significado, mas com palavras um tanto diferentes: “Ah! Beija-me com os beijos de tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho.”, Comparando algumas traduções da Sagrada Escritura, é fácil observar suas diferenças e difícil julgar qual seria a mais próxima da versão “original”.

             No mesmo capítulo temos: “A sua mão esquerda se pôs já debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois.”, essa passagem também está no Livro Cântico dos Cânticos 2-6: Diálogo dos Esposos e as passagens são idênticas. Um pouco adiante no livro, no capítulo 101 – No Céu - temos uma outra passagem: “ Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado.” do mesmo Livro e do mesmo capítulo da Bíblia, mas do versículo 3: “Eu me assentei debaixo da sombra daquele a quem tanto tinha desejado; e o seu fruto é doce à minha garganta.

            Machado aproveitou-se muito das passagens deste Livro, provavelmente porque é nele que temos a relação entre os casais.                                  

No capítulo 80 – Venhamos ao Capítulo – temos a seguinte passagem: “Não faças mal algum a teu filho, conheci que temes a Deus.”; Essa passagem da Bíblia é muito interessante e mais que isso é notar a ênfase que Bentinho atribui a sua ida ao seminário, por comparar essa passagem ao fato de que sua mãe esperava a absolvição de Deus, pois ela não queria que seu filho único fosse realmente para o seminário. No Livro do Gênesis 22 – 12: “Continuou o anjo: Não estendas a tua mão sobre o menino, e não lhe faças mal algum. Agora conheci que temes a Deus, e não perdoaste a teu filho único por amor de mim.”; Na Bíblia, temos Abraão, pai de Isaac, filho único, o qual Deus, para testar sua fé, manda que sacrifique seu filho em holocausto e este o faz sem pestanejar e, devido a isso, Deus o livra do sacrifício. Bentinho diz que sua mãe, por ter entregue seu filho único, também merece não continuar com o sacrifício.

            No capítulo 101 – No Céu – há a passagem: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos...Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos eriçados ou as rendas de ouro, mas o homem que está escondido no coração...Do mesmo modo, vós, maridos, coabitai com elas, tratando-as com honra, como a vasos mais fracos, e herdeiras convosco da graça da vida...”. Na obra esse capítulo narra o dia do casamento de Bentinho e Capitu, ele diz que ela não conhecia a Escritura, só decorava algumas passagens, como a citada acima do Livro do Cântico e Cânticos, e que quando soube do que Bentinho dizia sobre a passagem da Primeira Epístola de São Pedro, ela diz que nunca teria como adorno enfeite ou rendas e ele afirma que ela, sua mulher, teria as melhores rendas.

            Essa passagem da Bíblia relata a situação feminina da época, o capítulo chama-se “Os Deveres Conjugais”, e diz aos maridos: “Do mesmo modo vós, maridos, coabitai com elas, segundo a ciência, tratando-as com honra, como a vaso mulheril mais fraco, e como herdeiras convosco da graça da vida.”, as mulheres eram consideradas fracas; condenava-se a vaidade feminina e ( até ) glorificava-se a força e inteligência que somente o homem possuía. Já Bentinho, mostra que na época em que vivia, fim do século XIX, as mulheres tentavam conseguir um certo “espaço” na sociedade, e apesar de até hoje não haver a igualdade, podemos observar que as coisas tendiam a mudar, desde aquela época.

            No último capítulo do livro, 148 – E bem, e o Resto? – vemos a observação de Bentinho sobre o seu ciúme: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti.”, ele acredita que Capitu não aprendeu nada com ele, que ela sempre foi a mesma e que a malícia sempre existiu nela.

            Essa passagem está no Livro Eclesiástico, escrito por Jesus, filho de Sirach. É um dos livros de sabedoria do Antigo Testamento, composto por volta do ano 200 a.C., somente os católicos o admitem entre os livros canônicos, este faz parte dos chamados “Livros Apócrifos”, porque não foram escritos com a iluminação, ou melhor, intervenção do Espírito Santo.

            Enfim, há inúmeras reflexões a serem feitas a respeito desse assunto. Machado, trouxe para a sua obra a cultura “Pagã”, a “Católica” e também inúmeros fatos históricos da história grega e romana. Sem nenhum esforço percebemos a genialidade e singularidade de nosso maior autor.

            Acredito que ensinar nossos alunos a apreciar e entender Machado de Assis, é a obrigação de qualquer professor de Literatura Brasileira, pois sua obra, além da linguagem, forma, estilo único, temos a presença de uma cultura imensa. É possível analisarmos inúmeros assuntos sobre a história nacional e mundial sem contar a pluralidade cultural inserida na obra.

            É necessário observar que os leitores, em geral, que adquirem a admiração por Machado de Assis, terão, com certeza, um gosto pela leitura muito mais apurado e saberão perceber e distinguir uma boa leitura.

           


Hosted by www.Geocities.ws

1