Zacio Geribello

 

Livro Virtual

06.09.2000


O que mudou nos (as) universitários (as) brasileiros(as) de "lá" para "cá"?

Num país sem memória, porque não a cultiva e não porque não a tem - e possuí uma memória riquíssima, inigualável, de formação da nacionalidade e da própria cidadania em estruturação - a perda de referenciais históricos da população estudantil é apenas mais uma das graves lacunas da universidade e da sociedade brasileira.

No Brasil de hoje há muito mais carros luxuosos, ambientes sofisticados como danceterias, tecnologias eletrônicas, como a invasão das televisões e dos computadores. Há também mais democracia e mais facilidades, porém, a facilidade é uma faca de dois gumes cortante como o "laser", e a democracia é uma cultura de excelência, que não admite a negligência de seus cultivadores.

Antes da presente modernidade tecnológica, os universitários mergulhavam num mundo próprio, de repúblicas envoltas em rituais festivos e amistosos, de riquezas culturais e criatividade marcantes, completamente distintas da normalidade estabelecida. Essa era uma tradição estudantil que remontava ao tempo do Império e das aventuras juvenis no centro da Corte, denotando um comportamento relativamente renovador que muito influenciou o caráter da sociedade brasileira. O Brasil ainda é em parte um país jovem, e um país de jovens, mas esse ambiente quase épico da juventude aventureira perdeu-se num mundo esquematizado, porém de modo distorcido, previsível, porém de previsões sombrias, controlado, porém manipulado e propositadamente desorientado.

O mundo das músicas de protesto, da exuberância na MPB, das passeatas e de ativismo político, de romances libertários mas não apropriados por donos de motéis, revistas e outros afins, as gerações de articulação, mobilização, reivindicação, sexo, drogas e rock & roll, nascidas de um movimento jovem contra a caretice e a gerontocracia arraigada da Guerra Fria tornou-se produto de boutique. A contestação é um traço "da moda", para desfilar nas passarelas e valorizar o cachê dos "gatos" e "gatas". É "cool" ser "bad boy". A música transformou-se de rebeldia em serpente que hipnotiza e esmaga a consciência, aparando sutilmente as "arestas" dos comportamentos "inconvenientes", num ritmo gradual. Para os detentores do sistema, é melhor lidar com delinqüentes e bandidos do que lidar com cidadãos ativos e conscientes.Os sonhos, ideais e "viagens" agindo como experimentação para fora de um mundo extraordinariamente careta e babaca - para os jovens da época - converteram-se em dispositivos de pura alienação mental e desarticulação política, desmobilizando a comunidade dos universitários e também toda a sociedade brasileira.A agressividade espontânea de insurgência contra o poder e as formas estabelecidas é "desencorajada" por um sem número de atalhos e de paraísos ajustados e consumistas, atraentes como sereias maquiadas, sendo redirecionada essa energia, de preferência, para formas perdidas de marginalidade, onde pode ser rotulada, enquadrada, controlada, condenada e perseguida, pela polícia, se necessário. Não há muita diferença entre os "pitboys" (alusão aos cães de ataque) e gangs e a antiga juventude perdida de James Dean e Marlon Brando. O "sem destino" dela é sempre esborrachar-se nas muralhas do sistema, se não despertar de letargia narcisista e hedonista que preparam para ela, de maneiras muito persuasivas e dissuasivas.

A cultura fácil das sensações e dos efeitos diretos provocados nos sentidos impregnou-se no pensamento universitário e cerca os cérebros como um curral cerca o gado, criando um vazio nas mentes, onde as imagens e as idéias são colocadas e plantadas quase sem resistência. Não porque não se queira. A juventude continua sendo e sempre será revolucionária, mas os referenciais estão sendo apagados, ocultos, calados, varridos dos diálogos e aspirações.

O ambiente universitário contribui muito para isso. A proletarização do corpo docente  impõe uma submissão às regras do jogo muito difícil de ser quebrada, pois os detentores do poder têm as chaves dos cérebros e dos dispositivos inconscientes do sistema. E as chaves dos cofres necessários para a sobrevivência das famílias. E as penas da lei. Todos obedecem sem perceber, operando uma auto-lobotomia no espírito crítico e libertário. A falsa moral dos "bons moços" ajustados e comportados está de volta. Toda crítica ou divergência é tomada pelo "stablishment" e pelo senso comum como sendo pior que um crime. Torna-se cada vez mais improdutivo, desgastante e inaceitável questionar a realidade, fora ou dentro da universidade. Implanta-se uma moral dos carneiros e das ovelhas, que só podem seguir a trilha previamente traçada pelos "pastores", ou se está fora do jogo. Com a quase capitulação e rendição dos professores, outro referencial valioso se dispersa, desatando o nó de uma autêntica brasilidade. No mais, tudo vai bem. Com muito luxo, muito conforto, muita sofisticação, muita promessa de inclusão no "clube" das elites do mundo, logo logo pensando apenas nos próprios investimentos ou na opinião dos "investidores", que de empreendedores têm muito menos que de parasitas. Sinceramente, se for para terminar assim, é preferível transformar tudo em Las Vegas de uma vez, ou em "cabarés" de beira de cais. Ah! só que tem a AIDS. Como dizem de sacanagem os "dinossauros" da rebeldia, que saudade dos tempos estudantis. Das rodas de samba, das noitadas de cerveja com pinga e da gonorréia.


 

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