LIVRO
VIRTUAL
Teresa
Teresa
era menina prendada. Sabia coser, bordar, tricotar, tocava piano angelicamente,
era fina e suave nos gestos, no falar, impecável. Gostava dos estudos, e não
os tinha apenas por obrigação, como era o costume das outras meninas da época.
Gostava também de leitura, gosto este que a deleitava, fazia-a gastar horas e
horas, era entre todos o que mais a seduzia. Lia de tudo um pouco, porém tinha
uma queda, por que não dizer um tombo, por romances. Era aquele tipo de leitora
que se emocionava e algumas vezes chorava com os finais trágicos destes livros
onde o mal do século reina sobre as almas mais sensíveis.
Moça
jovem tinha, assim como as outras - e digo por conclusão própria - sonhos românticos,
sonhos estes os mais pueris que a alma feminina podem conceber. Encontrar o par
perfeito, a alma gêmea, sua cara-metade, casar-se com ele à moda antiga, sim
com véu e grinalda, por que não? Pensava também em ter filhos, não sabia ao
certo quantos, se um, se dez, mas queria tê-los. Atentem para este detalhe:
tudo isso se passava na cabeça ingênua de uma menina de dezesseis anos,
educada rigidamente pela família e que, embora seu corpo negasse, pelas formas
já muitíssimo bem definidas, tinha pensamentos idealizados, tendo por base
maior dos seus atos o casamento dos pais. Uma teoria perfeita.
No
entanto, acima da sua condição de cavalheiro estava a de ser humano e ainda
mais acima a de ser do sexo masculino. Não demorou muito para que ele se visse
totalmente envolvido pela beleza juvenil da garota.
No
começo, a inocência de Teresa traduzia as investidas do outro como sendo
manifestações de amizade, porém, com o passar do tempo ela foi notando que
ele lhe dava uma atenção especial envolta numa bruma densa na qual se via, aos
poucos, aprofundar-se mais e mais. Os gestos de gentileza de Eduardo eram
exagerados e a suavidade de sua voz atingia o âmago da sentimentalidade
romanesca de Teresa. Não tardou a perder-se nessa bruma que, embora lhe fosse
estranha e totalmente nova, trazia uma sensação gostosa de bem estar, sensação
essa que sentia apenas na presença dele.
Começou
a ver em Eduardo aquele rapaz idealizado que habitava seus sonhos e a fazia
gemer baixinho à noite na cama. Ele era virtuoso, sapiente, sabia ser gentil,
tinha uma conversa cativante e entre as virtudes estava também a da beleza, sim
era belo e isso atraiu-a ainda mais. Alto, aparência de esportista, seus
cabelos castanhos claros aproximavam-se do loiro e escorriam pela testa numa
franja maior que o restante dos cabelos, tinha o rosto fino, sem barba, os olhos
também castanhos e um belo sorriso, era, enfim, a personificação de seus
sonhos e o melhor de tudo: estava ali junto a ela quase todos os dias. Chegava a
pensar que ela era quem entrara em seu próprio sonho, e dali não queria mais
sair.
O
que também não tardou foi o convite que ele lha fizera para que fossem juntos
passear pela cidade. A pobre garota não soube o que responder na hora, ficou
sem saber como agir, pediu para que ele tivesse paciência e esperasse algum
tempo até que ela resolvesse o que faria. Teresa sabia que seus pais não
consentiriam de forma alguma que ela sai-se sozinha pela cidade com um quase
desconhecido, a menos que ... que o que? Foi dormir perturbada pela dúvida que
lhe corroía por dentro. Tentou dormir mas o Sono achou melhor deixa-la refletir
um pouco mais sobre o que deveria fazer e foi com seu saco de areias-do-sono
adormecer outras pessoas; voltou bem mais tarde, quando era inevitável deixá-la
prosseguir em sua agonia e, mesmo a contra gosto, lançou-lhe a poeira sonífera
nos olhos e só então Teresa pôde descansar de seu tormento.
Porém,
a conversa com a amiga, que deveria aliviá-la das preocupações deixou-a ainda
mais temerosa. Clara, sua amiga, disse-lhe que Eduardo não era de confiança,
que ele queria apenas aproveitar-se dela, que a estava seduzindo e que - e por
isso Teresa não esperava - era noivo de uma tal Carminha e que talvez
estivessem já de casamento marcado... Cego, surdo e burro, é isto que muitas
vezes o amor faz com as pessoas, mas ataca principalmente os sentido destas,
inibe uns sensibiliza outros, já havia dito que ela estava perdida nas brumas
do amor, porém agora ressalto que não encontraria de forma alguma a saída...
Ah! o amor, sentimento inebriante...
Teresa
- acreditem - preferiu acreditar que tudo não passava de armação da amiga
para não a ver feliz, conquistando seus objetivos e realizando seus sonhos.
Caminhava para sua casa envolta neste pensamentos, mas foi bruscamente desperta
por Eduardo que vinha em sua direção. Quase desfaleceu, teve vertigens,
todavia era inevitável dar-lhe uma resposta, não podia mais adiar. Criou
coragem e antes mesmo de cumprimenta-lo disse-lhe que poderiam passear esta
tarde, desde que não se demorassem muito - deu-lhe essa resposta mesmo sabendo
o risco que correria agora sem ter o amparo de Clara.
Saíram
no dia seguinte como haviam combinado. O passeio em si não teve nada de
especial, mas o que, para Teresa, realmente valeu foi a experiência.
Maravilhosa. Não iria mais esquecer-se daquele dia, daquele beijo ganho ao pé-da-boca,
fora quase um beijo, fora quase o seu primeiro beijo... ela agora só conseguia
pensar em quando seria o próximo passeio, o próximo beijo que daria nele, mas
queria igual àqueles dados por Basílio em Luiza, chegou até a imaginar-se
sendo a adultera, sonhou com o seu “paraíso” e em tudo o que faria lá com
o seu Basílio, essa fora outra noite que o Sono deixou-a livre de seu
feitiço por um longo tempo.
Eram
oito e meia da noite. Estavam voltando de um passeio noturno, Teresa dissera a
seus pais que iria numa festinha de aniversário de uma amiga. Passavam perto da
residência onde Eduardo estava morando, no meio duma descontraída conversa o
rapaz propôs que fossem até lá para descasarem um pouco da caminhada. Pobre
coração apaixonado... não podia ver mais que um palmo por entre as brumas de
amor que envolviam-na e, até mesmo, guiavam-na. Acatou a ordem como um soldado
obedece uma ordem vinda de uma patente superior! Não conseguia ver, nem
imaginar, maldade em nada daquilo que estava acontecendo. Todavia o rapaz soube
aproveitar-se muito bem da paixão da pobre menina e não precisou desprender
grandes esforços para alcançar o que queria.
Os
encontros tornavam-se cada vez mais freqüentes, embora Teresa já não mais
encontrava tantos argumentos para persuadir seus pais. A saída encontrada por
ambos foi substituir as aulas de inglês por outra mais agradável, que substituísse
também os passeios e visitas à casa de Eduardo. Passaram a correr sérios
riscos expondo-se assim, afinal estavam dentro da casa da menina, poderiam ser
pegos de surpresa a qualquer momento. Teresa não atentava para o perigo
iminente que corria, o fruto de que tinha provado era de um sabor tão
incessantemente tentador que não sentia nada além de seu gosto. Já para
Eduardo tanto fazia correr perigo ou não, desde que as conseqüências não o
atingissem...
A
mente juvenil da garota já havia traçado todos os planos, inclusive o de
casar-se com Eduardo. Pobrezinha... sonhava com ele todas as horas do dia e da
noite, já não mais cosia, já não mais tricotava, já não mais tocava suas
suaves canções ao piano... tudo o que via, sentia, ouvia, cheirava e degustava
estava ligado com o coração, todos os seus sentidos agora estavam fundidos num
único e tirano sentimento: seu amor obsessivo por Eduardo.
É
obvio que os pais, corujas que eram, já estavam a muito desconfiados, assim
concomitantemente às mudanças da filha crescia a desconfiança dos pais, não
estavam gostando da nova Teresa que
vivia agora naquela casa. Era nova sim. Já não era mais aquela filha dedicada,
esforçada em seus estudos, que lia como se estivesse trocando confidências com
um amigo de longas datas. Fizeram de tudo para descobrir o que estava se
passando com a filha que no extremo do desespero a mãe ficou espreitando pela
fechadura da porta o casalzinho que se amava, alheios ao mundo em redor. A mesma
fechadura da porta que outrora servia para dar-lhes segurança agora
entregava-os sem a menor piedade. Ah! Esse olho indiscreto que invade a
privacidade das pessoas sem o menor escrúpulo.
Sentou-se
eufórica na beira da cama. Desesperou-se ao tentar rasgar o envelope, quase
rasgou tudo. O envelope era simples, mas pela espessura trazia um grande conteúdo.
Segurou-a com as mãos tremulas e leu estas palavras – transcrevo apenas as
partes essenciais:
Ela descobriu tudo o que aconteceu entre nós e proibiu-me de continuar
com as aulas, já seu pai foi mais radical: deu-me dinheiro, apontou um revolver
para minha face e ordenou que eu nunca mais me aproximasse de você, afirmando
que se eu o fizesse matar-me-ia sem receios. Tentei justificar-me, mas
eles não me deram ouvidos. Disseram que um
detetive estava já há algum tempo a investigar-me e o que ele
descobriu acabou, inclusive, com as chances de ficarmos juntos.
...e agora que não temos mais a mínima possibilidade de casarmo-nos acredito que o que vou narrar não vá fazer diferença. Não pense que também não sofro, mas também não me culpe pela verdade: Sou noivo. Hei de casar-me em alguns meses. Já o era quando estávamos juntos. Não lhe contei antes pois acreditava que acabaríamos por ficar juntos. Sei que você está prestes a rasgar estas inocentes páginas que nada têm de culpa, seja forte e, ao menos, leia elas até o fim, pode ser que sua ira abrande-se um pouco...
Somos ambos culpados. Você também tem sua parte de culpa nisso tudo, não fiz nada sozinho... sua beleza seduziu-me tanto quanto posso tê-la seduzido. Também sua mãe tem culpa, com sua superproteção excessiva aproximou-nos mais fácilmente que em qualquer outro lugar. Somos seres humanos, que culpa temos por amarmo-nos? Quero que saiba que você marcou minha vida. Espero que voltemos a nos encontrar algum dia...
Estava
com os sentimentos em frangalhos, confusos, queria chorar pela tragédia, rir de
si mesmo pelo papel de vítima em que se encontrava agora, principalmente por
ter sido advertida por Clara algum tempo antes de tudo acontecer. Sua inocência
de garota de dezesseis anos que teve a vida tão gravemente abalada só a pode
fazer irromper novamente em pranto.
Eduardo,
estava casado já a algum tempo com Carminha que estava grávida. Ele, por outro
lado continua com as aulas de inglês, mas desta vez para uma garota de pouca
prendas, não tão nova quanto era Teresa, tinha mais idade que esta, já tinha
as virtudes de seu corpo todas desenvolvidas. Era dada à vida mansa, queria
aprender, mas sem esforço algum, era bela, porém, de uma beleza diferente da
beleza de Teresa, essa já demonstrava os efeitos dos hormônios agindo em seu
corpanzil. Eduardo estava envolvido pela beleza da garota...
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