LIVRO VIRTUAL  

  Teresa  

  Olavo Palaoro Jr.

Teresa era menina prendada. Sabia coser, bordar, tricotar, tocava piano angelicamente, era fina e suave nos gestos, no falar, impecável. Gostava dos estudos, e não os tinha apenas por obrigação, como era o costume das outras meninas da época. Gostava também de leitura, gosto este que a deleitava, fazia-a gastar horas e horas, era entre todos o que mais a seduzia. Lia de tudo um pouco, porém tinha uma queda, por que não dizer um tombo, por romances. Era aquele tipo de leitora que se emocionava e algumas vezes chorava com os finais trágicos destes livros onde o mal do século reina sobre as almas mais sensíveis.  

Moça jovem tinha, assim como as outras - e digo por conclusão própria - sonhos românticos, sonhos estes os mais pueris que a alma feminina podem conceber. Encontrar o par perfeito, a alma gêmea, sua cara-metade, casar-se com ele à moda antiga, sim com véu e grinalda, por que não? Pensava também em ter filhos, não sabia ao certo quantos, se um, se dez, mas queria tê-los. Atentem para este detalhe: tudo isso se passava na cabeça ingênua de uma menina de dezesseis anos, educada rigidamente pela família e que, embora seu corpo negasse, pelas formas já muitíssimo bem definidas, tinha pensamentos idealizados, tendo por base maior dos seus atos o casamento dos pais. Uma teoria perfeita.

  Além dos estudos regulares ainda estudava inglês. Fazia aulas particulares três vezes por semana. Fora nesse curso que conhecera Eduardo, rapaz também jovem, esbelto, por que não dizer janota? Era ele seu professor de língua inglesa. As aulas domiciliares facilitaram a aproximação dos dois jovens. Pouco tempo após o início das aulas já eram íntimos, Eduardo tinha um grande carisma, chegava mesmo a encantar as pessoas que estavam ao seu redor. Conversavam sobre tudo, embora ele soubesse bem, cavalheiro que era, respeitar os limites da garota.

No entanto, acima da sua condição de cavalheiro estava a de ser humano e ainda mais acima a de ser do sexo masculino. Não demorou muito para que ele se visse totalmente envolvido pela beleza juvenil da garota.

No começo, a inocência de Teresa traduzia as investidas do outro como sendo manifestações de amizade, porém, com o passar do tempo ela foi notando que ele lhe dava uma atenção especial envolta numa bruma densa na qual se via, aos poucos, aprofundar-se mais e mais. Os gestos de gentileza de Eduardo eram exagerados e a suavidade de sua voz atingia o âmago da sentimentalidade romanesca de Teresa. Não tardou a perder-se nessa bruma que, embora lhe fosse estranha e totalmente nova, trazia uma sensação gostosa de bem estar, sensação essa que sentia apenas na presença dele.

Começou a ver em Eduardo aquele rapaz idealizado que habitava seus sonhos e a fazia gemer baixinho à noite na cama. Ele era virtuoso, sapiente, sabia ser gentil, tinha uma conversa cativante e entre as virtudes estava também a da beleza, sim era belo e isso atraiu-a ainda mais. Alto, aparência de esportista, seus cabelos castanhos claros aproximavam-se do loiro e escorriam pela testa numa franja maior que o restante dos cabelos, tinha o rosto fino, sem barba, os olhos também castanhos e um belo sorriso, era, enfim, a personificação de seus sonhos e o melhor de tudo: estava ali junto a ela quase todos os dias. Chegava a pensar que ela era quem entrara em seu próprio sonho, e dali não queria mais sair.

O que também não tardou foi o convite que ele lha fizera para que fossem juntos passear pela cidade. A pobre garota não soube o que responder na hora, ficou sem saber como agir, pediu para que ele tivesse paciência e esperasse algum tempo até que ela resolvesse o que faria. Teresa sabia que seus pais não consentiriam de forma alguma que ela sai-se sozinha pela cidade com um quase desconhecido, a menos que ... que o que? Foi dormir perturbada pela dúvida que lhe corroía por dentro. Tentou dormir mas o Sono achou melhor deixa-la refletir um pouco mais sobre o que deveria fazer e foi com seu saco de areias-do-sono adormecer outras pessoas; voltou bem mais tarde, quando era inevitável deixá-la prosseguir em sua agonia e, mesmo a contra gosto, lançou-lhe a poeira sonífera nos olhos e só então Teresa pôde descansar de seu tormento.

  Acordou no dia seguinte com uma idéia fixa na mente: iria dizer aos pais que naquela tarde, após a aula de inglês, iria à casa de uma sua amiga para estudarem juntas as matérias preparatórias para uma prova futura. Tudo estava decidido e planejado na cabeça da garota, em seus mínimos detalhes: horários de saída e chegada, iria combinar com uma amiga da escola que ficasse precavida para um eventual contratempo, evitando assim que um simples telefonema pudesse desmascara-la.

Porém, a conversa com a amiga, que deveria aliviá-la das preocupações deixou-a ainda mais temerosa. Clara, sua amiga, disse-lhe que Eduardo não era de confiança, que ele queria apenas aproveitar-se dela, que a estava seduzindo e que - e por isso Teresa não esperava - era noivo de uma tal Carminha e que talvez estivessem já de casamento marcado... Cego, surdo e burro, é isto que muitas vezes o amor faz com as pessoas, mas ataca principalmente os sentido destas, inibe uns sensibiliza outros, já havia dito que ela estava perdida nas brumas do amor, porém agora ressalto que não encontraria de forma alguma a saída... Ah! o amor, sentimento inebriante...

Teresa - acreditem - preferiu acreditar que tudo não passava de armação da amiga para não a ver feliz, conquistando seus objetivos e realizando seus sonhos. Caminhava para sua casa envolta neste pensamentos, mas foi bruscamente desperta por Eduardo que vinha em sua direção. Quase desfaleceu, teve vertigens, todavia era inevitável dar-lhe uma resposta, não podia mais adiar. Criou coragem e antes mesmo de cumprimenta-lo disse-lhe que poderiam passear esta tarde, desde que não se demorassem muito - deu-lhe essa resposta mesmo sabendo o risco que correria agora sem ter o amparo de Clara.

Saíram no dia seguinte como haviam combinado. O passeio em si não teve nada de especial, mas o que, para Teresa, realmente valeu foi a experiência. Maravilhosa. Não iria mais esquecer-se daquele dia, daquele beijo ganho ao pé-da-boca, fora quase um beijo, fora quase o seu primeiro beijo... ela agora só conseguia pensar em quando seria o próximo passeio, o próximo beijo que daria nele, mas queria igual àqueles dados por Basílio em Luiza, chegou até a imaginar-se sendo a adultera, sonhou com o seu “paraíso” e em tudo o que faria lá com o seu Basílio, essa fora outra noite que o Sono deixou-a livre de seu feitiço por um longo tempo.

Eram oito e meia da noite. Estavam voltando de um passeio noturno, Teresa dissera a seus pais que iria numa festinha de aniversário de uma amiga. Passavam perto da residência onde Eduardo estava morando, no meio duma descontraída conversa o rapaz propôs que fossem até lá para descasarem um pouco da caminhada. Pobre coração apaixonado... não podia ver mais que um palmo por entre as brumas de amor que envolviam-na e, até mesmo, guiavam-na. Acatou a ordem como um soldado obedece uma ordem vinda de uma patente superior! Não conseguia ver, nem imaginar, maldade em nada daquilo que estava acontecendo. Todavia o rapaz soube aproveitar-se muito bem da paixão da pobre menina e não precisou desprender grandes esforços para alcançar o que queria.

Os encontros tornavam-se cada vez mais freqüentes, embora Teresa já não mais encontrava tantos argumentos para persuadir seus pais. A saída encontrada por ambos foi substituir as aulas de inglês por outra mais agradável, que substituísse também os passeios e visitas à casa de Eduardo. Passaram a correr sérios riscos expondo-se assim, afinal estavam dentro da casa da menina, poderiam ser pegos de surpresa a qualquer momento. Teresa não atentava para o perigo iminente que corria, o fruto de que tinha provado era de um sabor tão incessantemente tentador que não sentia nada além de seu gosto. Já para Eduardo tanto fazia correr perigo ou não, desde que as conseqüências não o atingissem...

A mente juvenil da garota já havia traçado todos os planos, inclusive o de casar-se com Eduardo. Pobrezinha... sonhava com ele todas as horas do dia e da noite, já não mais cosia, já não mais tricotava, já não mais tocava suas suaves canções ao piano... tudo o que via, sentia, ouvia, cheirava e degustava estava ligado com o coração, todos os seus sentidos agora estavam fundidos num único e tirano sentimento: seu amor obsessivo por Eduardo.

É obvio que os pais, corujas que eram, já estavam a muito desconfiados, assim concomitantemente às mudanças da filha crescia a desconfiança dos pais, não estavam gostando da nova Teresa que vivia agora naquela casa. Era nova sim. Já não era mais aquela filha dedicada, esforçada em seus estudos, que lia como se estivesse trocando confidências com um amigo de longas datas. Fizeram de tudo para descobrir o que estava se passando com a filha que no extremo do desespero a mãe ficou espreitando pela fechadura da porta o casalzinho que se amava, alheios ao mundo em redor. A mesma fechadura da porta que outrora servia para dar-lhes segurança agora entregava-os sem a menor piedade. Ah! Esse olho indiscreto que invade a privacidade das pessoas sem o menor escrúpulo.

  Recebeu a carta com grande alvoroço, logo que a sentiu entre os dedos voltou as costas para o carteiro e sem dizer palavra alguma disparou em direção ao interior da casa. Já havia uma semana que sua mãe lhe havia dado a noticia que uma viagem inesperada adiaria as aulas de inglês por tempo indeterminado, semanas, talvez meses! Teresa não conseguia entender o porquê do rapaz partir sem dar-lhe notícias, sem despedir-se dela. Não estava certo, pois com todo o seu cavalheirismo era inconcebível que Eduardo partisse assim. A saudade estava corroendo-lhe por dentro, sentia o desejo de tê-lo novamente em seus braços, acariciar seus cabelos, ver seus braços nus, seu corpo... só conseguia lembrar dos momentos que passaram juntos... seu peito ardia de desejo...

Sentou-se eufórica na beira da cama. Desesperou-se ao tentar rasgar o envelope, quase rasgou tudo. O envelope era simples, mas pela espessura trazia um grande conteúdo. Segurou-a com as mãos tremulas e leu estas palavras – transcrevo apenas as partes essenciais:

  Minha amada Teresa, estou escrevendo-lhe esta carta para colocar-lhe a par da verdade, embora meu maior receio seja que sua mãe a leia antes e não permita que tudo fique esclarecido entre nós. Não farei rodeios, arcarei com todas as conseqüências e mágoas que estas folhas possam trazer, tanto para mim quanto para você.

Ela descobriu tudo o que aconteceu entre nós e proibiu-me de continuar com as aulas, já seu pai foi mais radical: deu-me dinheiro, apontou um revolver para minha face e ordenou que eu nunca mais me aproximasse de você, afirmando que se eu o fizesse matar-me-ia sem receios. Tentei justificar-me, mas  eles não me deram ouvidos. Disseram que um detetive estava já há algum tempo a investigar-me e o que ele descobriu acabou, inclusive, com as chances de ficarmos juntos.

...e agora que não temos mais a mínima possibilidade de casarmo-nos acredito que o que vou narrar não vá fazer diferença. Não pense que também não sofro, mas também não me culpe pela verdade: Sou noivo. Hei de casar-me em alguns meses. Já o era quando estávamos juntos. Não lhe contei antes pois acreditava que acabaríamos por ficar juntos. Sei que você está prestes a rasgar estas inocentes páginas que nada têm de culpa, seja forte e, ao menos, leia elas até o fim, pode ser que sua ira abrande-se um pouco...

Somos ambos culpados. Você também tem sua parte de culpa nisso tudo, não fiz nada sozinho... sua beleza seduziu-me tanto quanto posso tê-la seduzido. Também sua mãe tem culpa, com sua superproteção excessiva aproximou-nos mais fácilmente que em qualquer outro lugar. Somos seres humanos, que culpa temos por amarmo-nos? Quero que saiba que você marcou minha vida. Espero que voltemos a nos encontrar algum dia...

  De tanto chorar durante a leitura já nem mais tinha lágrimas para verter após ter terminado. Recusava-se a acreditar no que acabava de descobrir. Não. Só poderia ser mais uma armação de sua mãe... mas a letra era a dele... De tudo o que sentia no momento, o sentimento de traição era algo indescritível. De um só golpe as brumas do amor foram dissipadas, espalhadas como a névoa que se desfaz com uma forte rajada de vento. Como pôde um monstro tão hediondo ficar por tanto tempo disfarçado, sob a lã do cavalheirismo, como cordeiro bom e gentil. Num instante viu seu sonho tornar-se, fria e cruelmente, em um pesadelo que, para ela, estava apenas começando. Jamais teria imaginado algo tão drástico.

Estava com os sentimentos em frangalhos, confusos, queria chorar pela tragédia, rir de si mesmo pelo papel de vítima em que se encontrava agora, principalmente por ter sido advertida por Clara algum tempo antes de tudo acontecer. Sua inocência de garota de dezesseis anos que teve a vida tão gravemente abalada só a pode fazer irromper novamente em pranto.

  Não mais teve noticias de Eduardo, e preferia realmente não as ter, seria melhor assim. Sua mãe esforçou-se ao máximo para que ela entendesse que o que fez foi pensando em sua proteção. Porém, Teresa ouvia tudo mecanicamente, sem dar a mínima importância, assim como um zumbi, parecia estar em transe. Nunca mais foi a mesma. Cosia, bordava, tricotava e tocava piano angelicamente, mas tudo era feito antes por hábito que por gosto, jamais voltaria a ser a mesma. Algum tempo depois do final do romance vieram os enjôos, as vertigens. A única marca que Eduardo deixou fora a sementezinha que germinava em seu ventre pueril.

Eduardo, estava casado já a algum tempo com Carminha que estava grávida. Ele, por outro lado continua com as aulas de inglês, mas desta vez para uma garota de pouca prendas, não tão nova quanto era Teresa, tinha mais idade que esta, já tinha as virtudes de seu corpo todas desenvolvidas. Era dada à vida mansa, queria aprender, mas sem esforço algum, era bela, porém, de uma beleza diferente da beleza de Teresa, essa já demonstrava os efeitos dos hormônios agindo em seu corpanzil. Eduardo estava envolvido pela beleza da garota...

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