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As palavras do Mestre |
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Há pouco tempo um jovem angolano vivia clandestinamente no Brasil, sob a proteção de alguns religiosos mineiros. Mesmo estando em relativa segurança, esse jovem padecia de um forte sentimento de desterro e de exílio, longe de qualquer pátria. Antes que caísse em desânimo total, passou a lembrar-se de algo que Milton Santos havia dito: segundo o professor Santos, ninguém é apátrida, pois a gente se torna filho da terra que nos alimenta. Se o Brasil te alimenta, então os seus átomos se tornam brasileiros, e conseqüentemente você também. Ao recordar-se constantemente dessas palavras, a angústia do jovem serenou e, pouco tempo depois, sua situação no Brasil foi regularizada. Ele mesmo contou essa história numa entrevista, para mostrar que aquelas poucas e sábias palavras resolveram seu drama interno antes que se resolvesse a questão objetiva. Os seus átomos e neurônios foram acalmados quando o seu pensamento novamente adquiriu uma base para enraizar-se no país em que se encontrava, mesmo não sendo seu país de origem. E mesmo assim, ele não deixaria de ser angolano. Não foi dito nessa oportunidade se esse contato foi pessoal ou não, mas há um detalhe muito peculiar envolvido nessa história. Qual seria então a especialidade do distinto professor? Filósofo? Psicólogo? Religioso? Poeta? Não, nenhuma dessas alternativas. Acabamos de escutar uma das aulas de Geografia de Milton Santos. Quer escutar outra? Para ele, uma grave questão para a Geografia humana da atualidade é a ausência da emoção. Sem a presença e a experiência da emoção, o homem não consegue tomar decisões acertadas e resolver os problemas de sua vida. Essa questão da Geografia humana leva a um grave problema geopolítico incutido no atual processo de globalização. Nessa cultura fria e puramente tecnológica, sem preocupações morais e afetivas, o discurso sistêmico está se tornando monolítico e autoritário, dentro do modelo da democracia capitalista. A lógica do mercado apresenta-se de modo impositivo e não aceita divergências. A globalização se torna então um processo opressor do ser humano e das nações. Bacana? Muita gente acha muito, incrivelmente bacana. Notável. Magnífico. Partindo da Geografia, Milton Santos alcançou um pensamento superior, abrangendo qualquer área ou campo do conhecimento, conforme cada questão em particular. Um profundo pensamento humano e humanista. Talvez por isso ele tenha recebido o maior prêmio da Geografia mundial, equivalente ao Nobel. Entre seus títulos acadêmicos ainda estão o de Professor Emérito da USP e os de Doutor Honoris Causa de numerosas universidades no Brasil e no Exterior. Sua obra trata da importância da cidadania e dos aspectos mais complexos, variados e essenciais que caracterizam os seres humanos, porém, de uma forma sempre integrada ao meio ambiente e aos outros seres. Se alguém vir o professor falando na mídia eletrônica ou em entrevistas da mídia escrita, vale a pena ouvi-lo ou ler suas respostas, pois ele é um mestre em encontrar "novas paisagens" dentro dos temas em discussão. Como grande maestro e exímio instrumentista, ele possui um dom especial para transformar os assuntos mais triviais em matérias cheias de beleza e sabedoria. |
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