Debate A universidade pública em perigo
Introdução
O Brasil entra no Século XXI como um país ainda colonizado por potências estrangeiras. Isto quer dizer que em diversos setores estratégicos o desenvolvimento brasileiro tem sido e continua sendo bloqueado, dificultado ou incorporado por interesses concorrentes de países e grupos econômicos hegemônicos. Os líderes e as classes dirigentes do país, desde o início da colonização, no Século XVI, não conseguiram romper os laços de dependência e os pactos e alianças mantidos com seus correspondentes estrangeiros.
A submissão a acordos desiguais (a idéia de troca desigual de Celso Furtado permanece sendo capaz de explicar muito bem os mecanismos de dominação política, econômica e cultural entre os países) e desvantajosos nas relações internacionais é o principal dispositivo que separa as nações em países desenvolvidos ou sub-desenvolvidos.A aceitação dos termos, condições, argumentos e jogos impostos por grupos, instituições e governos estrangeiros na convivência internacional é o ato em si de capitulação do Brasil diante das políticas e empreendimentos estrangeiros. As conseqüências da prolongada capitulação do Brasil diante das investidas internacionais são a coleção de mazelas que nos cercam.
Não há explicação melhor para os atuais problemas de desenvolvimento econômico, social, cultural e político no Brasil, do que a simples capitulação da elite brasileira, perante os interesses das "metrópoles", já que atualmente são vários os centros de irradiação do poder que se pretende dominador do mundo. Não foi a colonização portuguesa, nem a forma de colônia voltada para a pura exploração, nem questões climáticas ou raciais. Também não é uma questão cultural de indolência dos brasileiros. Algumas dessas explicações podem ter feito sentido no passado, mas não têm mais significado algum. O ponto que permanece em aberto é a falta de visão, consciência nacional (e não nacionalismo) e de habilidade para fechar negócios de formas mais positivas para o país. E esse sucesso da negociação favorável aos interesses estrangeiros tem a mesma origem dos últimos 500 anos, desgraçadamente.
Os "nativos" são sempre cooptados por ofertas 'irresistíveis". Ofertas de vantagens inigualáveis e insuperáveis, que nenhum esforço local genuíno poderia superar, são feitas a determinadas pessoas e grupos nacionais, que passam a ser favoráveis ao modo de pensar, de falar e de agir de seus "benfeitores". No Brasil, essa prática tem-se revelado extremamente eficaz, a ponto de se poder ver a grande maioria das lideranças nacionais em vários setores "vestidos" com o discurso dos interesses estrangeiros. Após essa articulação político-econômica de muita eficácia, as prioridades legítimas do país são abandonadas, desacreditadas e, muitas vezes, invertidas, a favor dos desejos de "além-mar".
Aí sim pode-se considerar um fator cultural dos colonizados: o descrédito e a desvalorização das pulsões genuínas do Brasil. Mesmo sendo esse gigantesco país, inundado de talento e criatividade, assumimos docilmente a condição de país de Terceiro Mundo. Passa-se a acreditar que não seja mais viável conduzir grandes projetos nacionais em todos os campos, porque se pode comprar outro projeto, ou bem, ou serviço, por preços menores e qualidade superior, diretamente dos grandes fornecedores dos países mais "avançados". A condição desigual do Brasil então passa a ser logicamente explicável. "Não temos a mesma capacidade, a mesma oportunidade de atingir o nível em que se encontram os países "de ponta"".Cria-se um círculo vicioso de sub-desenvolvimento e nenhuma força nacional parece se dar conta da impropriedade de toda a conjuntura colonizadora. Não é preciso que seja assim.
Um dos fatos elementares que parece passar despercebido é a urbanização do país. Só isso e nada mais já cria um fato que se incompatibiliza totalmente com as relações internacionais na forma como hoje se encontram. A população brasileira está nas cidades! Quer estudar!. Quer trabalhar! Quer um país moderno! Mas, se estudar, vai querer créditos baratos! As pesquisas e investimentos vão aumentar. Novos campos de desenvolvimento deverão surgir. A população melhor preparada criará novas condições políticas, sociais, econômicas e culturais. Novos modelos e avaliações deverão substituir as formas atuais dos argumentos brasileiros, das posturas oficiais, de toda a conduta e planejamento que organiza o país. E a verdade é que apenas alguns pequenos passos e conquistas bastam para se colocar o país nesse caminho de progresso e desenvolvimento em todos os níveis. Contudo, mais uma vez, vê-se a classe dirigente brasileira adotando discursos e práticas absurdos e totalmente contrários à simples lógica. Será que novamente o país irá retroceder, ao se deparar com a perspectiva do desenvolvimento? Será que mais uma vez assistiremos a uma classe dirigente brasileira agindo contra os seus próprios interesses?
É nesse cenário de jogos decisivos que se insere a crise da universidade pública brasileira. Se, num país que precisa adotar medidas educacionais enérgicas e muito bem orquestradas, a escola e a universidade passarem a ser tratadas como mais uma mercadoria, condenaremos a nós mesmos, brasileiros, a cada vez mais séculos de atraso, de tragédias humanas e de incerteza quanto ao futuro do país. O grande e sonhado Brasil continuará existindo apenas em nossos sonhos.