Pizza Pós
Abraço
.
.
- É a Paula, não é?
- É...
- Ai, Pedro, deu pra ver nos seus olhos.
- É né...
- O quê que houve, vocês brigaram?
- Não, é que...
.
Pedro ri, cabisbaixo.
.
-... é que já andávamos meio
assim...
- Mas assim como?
- Assim, meio... nos estranhando.
- humm...
- É, Line, antes mesmo de te conhecer as
coisas já estavam ficando complicadas...
- Puxa, mas por quê?
- Well...Você falou com a Paula naquele
dia, né?? Ela te falou que a gente se conhece há tempos.
- É, verdade.
- Acho que... acho que é isso que é
o problema, Line.
- Humm... estou começando a entender.
- Jura? Nossa, você deve ser a única
no mundo, porque todos os meus amigos dizem que eu estou maluco.
- Ué, maluco por quê?
- Porque... porque eu tô achando que a razão
para tudo isso é nos conhecermos demais, eu e Paula.
- É, as pessoas estranham porque geralmente
é isso que faz os relacionamentos crescerem, e não
acabarem...
.,
Aline sorri.
,
- Mas olha, Pedro, isso não tem nada a
ver, believe me. Relacionamentos acabam por qualquer motivo. Mesmo que os
dois se gostem muito.
- É, tô começando a perceber
isso...
- Só me explica uma coisa: esse negócio
dos seus amigos não estarem reconhecendo o seu problema está
te incomodando?
- Nossa, demais... mais que qualquer coisa, acho.
- Posso fazer algumas perguntinhas?
- Claro.
.
Aline sorria de forma enigmática, como
se acabasse de matar a charada.
- Eles conhecem a Paula?
- Claro, todo mundo lá se conhece....se
conhece há muito tempo...
.
Pedro se dá conta de tudo agora. E Aline
setencia:
- That's it. Se você me permite a opinião,
Pedro, o problema não é nem tanto você e Paula se conhecerem
demais. São os amigos.
- É... você diz a galerinha toda
né? Todos nós nos conhecemos demais.
- Quantos são na galera?
- Ahn, uns... uns 15, 16... quase 20.
- Caramba!!!! É muita gente!!!!
- Você acha?
- Pra amigos íntimos, eu acho!
- Não, não são todos íntimos.
Pelo menos metade, uns 10, é que realmente são íntimos
meus. Da Paula também, devem ser uns 10. Não os mesmos 10,
mas a mesma quantidade. Ahh, você entendeu.
- Entendi, entendi, mas... nossa, ainda acho um
número tão grande...
.
Aline constata que nunca teve uma galerinha. Ela
tinha coleguinhas, coisa beem diferente...
.,
- ...nada contra ter muitos amigos íntimos,
Pedro, nada disso! Mas é que nunca vi tantos *de um mesmo grupinho*!!
- É... se eu te disser que você é
a única amiga minha que não é dessa galera,
você acredita??
- Jura?????
- Sério. Meus amigos todos se conhecem,
do mesmo lugar - do colégio. Aí nós entramos na faculdade,
mas continuamos saindo juntos. Aí nós, galera do colégio,
começamos a conhecer mais pessoas, que se juntavam à nossa
galera. Entende? Não é uma galera da night e uma galera
do colégio. Virou tudo uma coisa só.
- Mas e o pessoal da sua faculdade?
- Eu... eu mal conheço eles, são
todos muito caretões - povo de ADM, aí já viu né?
- Então... você não é
amigo-amigo de ninguém que não seja dessa sua galera?
- Só de você. Porque eu te considero
uma amiga, viu. Não apenas uma companhia pra pizza!
,
Os dois riem. Aline fica feliz com isso.
- Ainda bem, ainda bem!!
- Mas é isso mesmo, cara. Aline, agora
eu tô percebendo um monte de coisas que eu não tinha noção
que acontecia...
- O quê? A panelinha?
- É... também... mas eu estava pensando
é na falta de privacidade que você começa a ter.
- E a falta de liberdade, você sente?
- Não...hummm, não, nunca pensei
nisso.
- Às vezes você... você e Paula,
talvez...vocês acabam deixando de curtir algo por causa deles?
- Humm, não. Acho que não, não
me lembro de nada muito... muito assim, de falta de liberdade.
.
Aline se lembra da frase que Paula soltou um dia,
e que não havia entendido muito bem. Agora faz todo o sentido:
"Ahh, é tão bom você não conhecer todo
aquele povo... Não deixe o Pedro perder contato contigo!!"
E fala:
- É, porque falta de liberdade você
só percebe quando começa a se sentir sufocado... não
necessariamente foi um episódio isolado.
- Isso é verdade. E falta de privacidade
não deixa de ser falta de liberdade também né??
- Exatamente. Mas então, Pedro. O que você
pretende fazer?
- Eu... eu não sei... a Paula está...
a Paula está ficando tão irritadiça, sabe? Sabe quando
qualquer coisinha irrita? Tudo é motivo para briga. Acho que ela está
inventando pretextos malucos pra...
- Pra vocês
terminarem
?
- É, eu tô achando isso. E eu odeio
briga, eu odeio. Não quero brigar com ela, mas...
.
Pedro está cabisbaixo. Aline vê que
o amigo até agora está segurando as pontas - porque quando
brigar vai ser pra sempre, assim como ela.
- Daqui a pouco você já não
vai ter muita opção... né?
.
Pedro faz que sim com a cabeça. Não
desgruda seus olhos da pizza, só pensando no que poderia ser feito
para Paula não mais se irritar, não mais querer brigar... Pedro
não sabe o que fazer. Quando recorre aos amigos - putz, são
todos amigos da Paula também -, todos acham que ele está exagerando,
ou que está vendo coisas que não existem.
.
Será que Paula também estava tentando
fazer o mesmo? Pedindo ajuda a essas mesmas pessoas, e essas mesmas pessoas
repetindo que 'não, está tudo bem, isso vai passar'
?? Será? Será que está todo mundo controlando o os
passos do namoro a esse ponto?? Será por isso que ela está
tentando abandonar o navio, criando brigas loucas pra ver se ele
toma a iniciativa?
Mas ele nunca teria a coragem...
.
Aline se debruça na mesa e afaga o braço
de Pedro, que permanece cabisbaixo, cortando seus pedaços de pizza.
Nada era dito, nada precisava ser dito.
.
A dor do amigo, Aline sentia junto. A pizza não
está descendo fácil para ambos - mas seria tão bom
se ela nunca acabasse, se eles nunca tivessem que levantar dali...
.
Especialmente Pedro, que ficou de ver um filme
com Paula dali a duas horas.
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