Não
.
- Não.
.
Silêncio.
.
- Eu já disse, não.
..
Aline estava furiosa. Melhor dizendo, chateada.
Aline não é de sentir aquelas raivas insandecidas. Muito menos
sai do sério. Talvez por isso seja bem pior encará-la quando
ela se irrita. Aline não perde a razão em nenhum momento.
Permanece séria, concentrada, e o que é pior, lacônica.
Pouquíssimas palavras passam a sair de sua boca, e quando elas finalmente
saem, foram tão bem escohidas que arrasam o quarteirão. E Aline
não ganha uma ponte de safena se estressando. Não berra, não
levanta a voz, nem o dedo. Não franze a testa. Não bate o pé.
Não sente o sangue ferver nas veias. Ela simplesmente olha nos olhos
do interlocutor culpado por sua mudança de humor. E fica calada, sorrindo.
Especialmente o sorriso é matador.
.
Geralmente é assim.
De vez em quando acontece algum diálogo,
e por insistência da outra pessoa. Junte as palavras com o sorriso,
então e... ouch!
.
- That's it? É só
isso que você vai falar pra mim?
- O que mais você quer? [olhar
cansado]
- Não, nada, é que... você
simplesmente vai ficar aí parada sem falar nada a não ser "não"?
Por que "não"?
- Pérai... [Aline ri, debochada]
eu por acaso "tenho" que falar alguma coisa, tipo um "sim" - e
só porque você quer??? Ha, don't think so...
- Ué, mas você vai me dar só
esse tipo de resposta?? "Não"???? NÃO e sair andando???
- Meudeus, quê que teeeem?? [ri,
já de saco cheio]
- É que eu não aceito isso...
- Pô, que pena. Isso não vai
me fazer mudar de comportamento...
.
Aline já ia saindo, sem paciência
para useless talks na sua night de hoje. Mas...
- Péra! Aline! Você...
você... ahh, quê que houve hein?? Eu fiz alguma coisa?? Responde,
pelo menos isso: Eu te fiz alguma coisa??
.
Aline ri. Que engraçado, agora
é *ele* que está com a cara cheia de pânico. E olha que
ela não fez a mínima grosseria!! Qual o problema dele, huh?
Ela tenta sair mas seu braço está sendo apertado, e cada vez
mais forte. Aline responde, sorrindo cinicamente:
.
- Você está prendendo
meus movimentos e acabando com a minha liberdade de ir e vir. Dá licença?
- Desculpe. Não, mas péra,
Line. Se eu te soltar, você vai embora sem me responder.
- Se você não
me soltar, eu vou começar a gritar que nem louca e você
sabe que eu não estou mentindo.
.
Ele se aproxima demais de Aline, de
forma que nem mesmo uma formiguinha conseguiria passar entre os dois. Aline
toma um susto, e sente os braços dele nas suas costas, prendendo-a
e empurrando contra a parede.
.
- Escuta, Line... você
não está entendendo. Você acha que eu te fiz algo, mas
eu não fiz nada!
..
Aline, com seu sorriso meigo-evil,
encara-o nos olhos:
- Parabéns! Finalmente
você se igualou aos outros caras! Aeee!! Quem diria??
- Hã? Como assim??
Ele a solta. Aline continua, meiga.
.
- Sabe qual é
o seu problema? Você se acostumou. É, você acomodou seu
rabo na cadeira e ficou acostumado comigo. Esse é o problema de todo
homem com quem eu me envolvo. Parece ser uma 'curse', uma maldição,
sabe? [em jocoso tom de voz solene]"Todo homem deverá sentir-se
privilegiado e tomado de sensações benéficas para o
seu ego... enquanto você, Aline, será destinada a conviver
com isso - e tentar não estragar tudo!" Hahaha... Guess what?
Eu estrago tudo! Faço questão. Eu estrago, eu descarto,
eu rejeito, eu jogo fora!! Não suporto acomodamento - eu faço
as coisas quando *eu* quero
, e porque *eu* quero, e não porque tem um digníssimo senhor
que espera que eu faça isso... Do as I'm told?? Humm... nah! Sou
mais o do as I say. E por isso...
.
Silêncio sombrio. Provavelmente
um frio passou pela espinha dele, que está congelado, pasmo, mãos
já longe do corpo de Aline, que finaliza o que foi forçada
a começar.
- ... e "só"
por isso...[sorriso inigualável] que é sempre 'não'
que você vai ouvir da minha boca a partir de agora.
.
Antes de definitivamente sair
dali, Aline chega no ouvido dele e sussurra, deixando o pobre garoto branco
de medo:
- Quem manda ouvir
os outros? Quem manda querer ser como os outros?
.
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